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Rio Memórias

Em 1926, Washington Luís tornou-se presidente do Brasil seguindo um lema que acompanhava sua trajetória política desde que foi governador de São Paulo, entre 1920 e 1924: “governar é abrir estradas”. Na presidência, esse lema significava a integração do país através das rodovias, que permitiriam a circulação de pessoas, mercadorias e mesmo a ação do governo Brasil adentro. Ao longo das décadas seguintes, esse ideal foi seguido por diversos governos, tratando de articular o Rio (centro político do país desde os tempos coloniais até a perda da condição de capital, em 1960) com outras cidades e regiões do território nacional.

Ao longo do século XX, o atual território da Maré recebeu obras viárias e um maior afluxo de migrantes, que procuravam os grandes centros urbanos, como Rio e São Paulo, em busca de trabalho nas fábricas, construção civil e de uma vida melhor.

A partir de meados do século XX, em um processo progressivo, o Brasil trocou o protagonismo das ferrovias pelas rodovias. As estradas passaram a cortar o país e a avenida Brasil — inaugurada por etapas ao longo da década de 1940 —, foi fundamental para o fluxo de carros, ônibus e caminhões que chegavam à cidade do Rio.

Avenida antiga com casarios à esquerda e área aberta à direita.Descrição da imagem: Esta é uma fotografia antiga de uma avenida com casarios à esquerda e uma extensão de terra à direita. À esquerda, há uma pequena construção com telhado de telhas, cercada por vegetação. No fundo, há uma estrutura mais grande, possivelmente um edifício público. Ao longo da avenida, há algumas pessoas caminhando. À direita, há uma área aberta com algumas construções menores e vegetação. No horizonte, vemos montanhas cobertas de árvores. O céu está parcialmente nublado.

Trecho da avenida Brasil em construção, março de 1941. Ao fundo, à esquerda, o "castelo" da Fiocruz. No início, a Brasil era chamada Variante Rio-Petrópolis. Acervo: Revista Municipal de Engenharia, Hemeroteca Digital.

A abertura da avenida Brasil, com função de ligar a zona urbana da então capital federal ao resto do país por via rodoviária, de modo que facilitasse o transporte de pessoas e mercadorias, também impulsionou o crescimento populacional da região, a partir da instalação de fábricas e das obras de urbanização, que atraíam mão-de-obra de todo o Brasil. Esses trabalhadores chegavam ao Rio através dessa mesma via e se instalavam nos terrenos historicamente acessíveis à população mais pobre, como beiras de rios e mangues, áreas pertencentes ao Estado e morros.

Impulsionados por esse crescimento no litoral norte da cidade, os antigos bairros de Bonsucesso, Manguinhos, Ramos, Olaria e Penha, perderam seu aspecto rural e se tornaram cada vez mais urbanizados, com obras de saneamento, instalação de bases militares, fábricas, estradas, além dos vários aterros praticados na região.

Fazenda de Manguinhos, c. 1900-03. Até o século XX, Manguinhos foi um bairro rural. Acervo Anthony Leeds - Fiocruz. Vista aérea de Manguinhos, c. 1960-70. A partir da construção da Av. Brasil e outras vias, Manguinhos se urbanizou, assim como Ramos, Olaria etc. Acervo Anthony Leeds - Fiocruz.

Construções antigas em preto e branco.Descrição da imagem: Esta é uma fotografia antiga em preto e branco. Na imagem, vemos uma série de construções dispostas em um terreno aberto. À esquerda, há uma pequena casa com telhado inclinado e janelas simples. Ao centro, há uma construção maior com telhado de telhas, onde várias pessoas estão reunidas perto de uma grade metálica. À direita, há outra casa similar à primeira, com janelas grandes e uma placa de madeira pendurada na parede. No fundo, vemos árvores e uma colina.
Imagem 1 de 2: Construções antigas em preto e branco.

Ivan Calado, morador do Parque União conta sobre sua chegada na Maré:

Por isso que eles chamam de Maré, porque isso tudo aqui era mar. Na época, não era avenida Brasil, era Variante. Eram duas pistas, uma de subida e uma de descida. E ali havia muito sinal, na época. E aí, ali na João Araújo, mesmo, aquilo foi tudo aterrado. Quando a gente foi morar ali, se tivesse uns 100 metros longe da Avenida Brasil, era muito, porque ali foi um ‘vazador’ de aterro. As pessoas encomendavam caminhões de aterro. As pessoas vazavam aterro ali, outros também, quando começou a fazer aquela obra do metrô, sobrava muita terra, muita areia, então tinha que ter um vazador.

Ivan Calado
Imagem urbana preto e branco com prédios, estrada e céu claro.Descrição da imagem: Esta é uma fotografia preto e branco de uma paisagem urbana. Do lado esquerdo, vemos um prédio com várias janelas, possivelmente um edifício público ou comercial. Ao centro, há um grande edifício com várias torres, que parece ser um hospital ou instituição pública. À direita, há uma estrada com alguns carros distantes. No primeiro plano, há um muro de madeira com cerca de palhas. O céu está claro e sem nuvens.

Parte da avenida Brasil c. 1940-50. Ao fundo, o campus da Fiocruz. Acervo Anthony Leeds - Fiocruz.

Outras memórias

Memória 1 de 4: Na Maré como em África