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Rio Memórias

“A partir de hoje a Cidade Maravilhosa possue um novo e confortável cinema: "Vitoria", integrante da Empresa Luiz Severiano Ribeiro e, como seus congêneres São Luiz e Carioca, dotado dos mais modernos requisitos técnicos — como ar refrigerado, poltronas estofadas e aparelhamentos de som e projeção impecáveis. Como filme inaugural foi escolhido o ansiosamente esperado celuloide United "O Grande Ditador", que apresenta Carlitos falando pela primeira vez na mais inteligente sátira de sua carreira. O "Cine Vitoria" afirma-se assim, a partir de hoje, como um dos primeiros grandes lançadores da cidade.” Foi com a notícia acima que o jornal Diário Carioca, de 12 de agosto de 1942, anunciava o nascimento do Cine Vitória, o último dos grandes cinemas de rua a integrar o circuito da Cinelândia.

A estreia não poderia ser mais apropriada. Inaugurado poucos dias antes de o Brasil declarar guerra às nações do Eixo (Itália, Japão e Alemanha), o Vitória exibiu, em sua première, O Grande Ditador — escrito, protagonizado e dirigido por Charles Chaplin. O filme, indicado a 5 Oscars, trazia para as telas todo o contexto da época. E, de caso pensado ou não, o Vitória carregava em seu nome uma palavra — mais que isso, um sentimento — que, naquele início dos anos 1940, estava na boca e no pensamento do povo brasileiro.

Mulher com avental colorido segurando frutas e bebê, fundo branco com número "9".Descrição da imagem: Esta é uma ilustração colorida de uma mulher carregando frutas e vegetais. A mulher está vestindo um avental vermelho e verde, com uma saia azul. Ela segura uma bandeja com frutas na cabeça e tem um bebê no colo. O fundo é branco e há um número "9" no canto superior direito. Abaixo da imagem, está escrito "QUITANDEIRA".

Anúncio da estreia do Filme O Grande Ditador no Cine Vitória em 12 de agosto de 1942. Hemeroteca Digital Brasileira.

Na edição do dia 11 de agosto de 1942, a revista A Scena Muda escreveu:

O Rio vai ganhar amanhã uma nova casa de espetáculos cinematográficos — o Cine Vitória. É sempre agradável o registro da inauguração de um cinema e muito maior quando esse acontecimento ocorre em meio às adversidades da hora presente. Nem mesmo a guerra impede a consumação das iniciativas louváveis, dos empreendimentos desse quilate. A guerra há de passar, mas o cinema ficará — ainda mais quando recebe no batismo o título de maior atualidade, nome que vale por um símbolo dos dias em que seus empresários o entregam ao público.

Na década de 1940, o Rio de Janeiro vivenciava a consolidação do cinema como principal forma de lazer urbano, um verdadeiro símbolo de civilização e progresso. A Praça Floriano e seus arredores, idealizados a partir da década de 1920 pelo empresário Francisco Serrador como uma “Broadway tropical”, já eram o coração cultural da cidade, repletos de letreiros luminosos e grandes palácios de exibição. Ir ao cinema, nesse período, era um grande evento social: um ritual que exigia vestimentas elegantes e conferia status aos frequentadores. Foi nesse cenário efervescente que a Cinelândia continuou a se expandir por ruas adjacentes, abrindo caminho para novas e modernas salas de exibição.

Cartão-postal colorido de Praça Floriano com edifícios históricos e paisagem.Descrição da imagem: Esta imagem é um cartão-postal colorido mostrando uma vista panorâmica de uma praça chamada Praça Floriano. A partir da esquerda para a direita, vemos uma série de edifícios históricos com cúpulas e detalhes arquitetônicos ornamentais. No centro, há uma grande estrutura com colunas e telhado azul. À esquerda, há um edifício com cúpula dourada e uma torre de construção ao fundo. Ao fundo, vemos uma paisagem com água e montanhas.

Praça Floriano. Anônimo. Década de 1930. Acervo IMS.

Estrategicamente concebido para integrar o circuito “Classe A” do grupo Severiano Ribeiro, o Cine Vitória cumpria, dentro da estratégia de negócios da empresa, múltiplas funções: rivalizar com a concorrência estrangeira, como a cadeia de cinemas da Metro-Goldwyn-Mayer; criar um novo padrão de excelência e luxo, fortemente inspirado nas grandiosas salas de Nova York; e consolidar o domínio do grupo no circuito cinematográfico do Centro. O ambiente do Vitória oferecia o auge do requinte, conforto e das tecnologias de refrigeração e acústica.

Anúncio da inauguração do Cine Vitória. 1942. No desenho aparecem indicados os outros cinemas da Cinelândia. Hemeroteca Digital Brasileira.

Construído pela firma M. J. Pinto & Cia., o Vitória ocupava os três primeiros pavimentos do Edifício Rivoli, um imponente prédio de dez andares localizado na Rua Senador Dantas, 45. Com forte influência do art déco estadunidense — caracterizado pelo geometrismo cubista e linhas retilíneas —, seu projeto incorporou uma identidade regional latino-americana, com elementos inspirados na arte indígena marajoara, além de influências astecas e incas. Destacava-se ainda pelo uso de materiais nobres, como os revestimentos em mármore avermelhado e creme na portaria, harmonizados com painéis de esquadrias em ferro trabalhado no estilo déco.

A concepção dos espaços foi cuidadosamente pensada para proporcionar uma experiência singular. Antes mesmo de entrar, o público já se abrigava sob a ampla marquise que avançava sobre a calçada, criando uma transição suave entre a agitação da rua e o universo elegante do cinema. O vestíbulo, coberto e ainda aberto para a cidade, funcionava como um convite — um espaço de pausa onde a expectativa começava a se formar, conduzindo naturalmente ao hall das bilheterias.

Mapa antigo com o Oceano Atlântico e o Oceano Etíope destacados.Descrição da imagem: A imagem é uma gravura antiga representando um mapa. A disposição espacial inicia-se pela esquerda, onde se localiza o Oceano Atlântico, marcado com o texto "OCEANVS ATLANTICVS". À medida que nos movemos para a direita, encontramos o Oceano Etíope, circulado em laranja, com o texto "OCEANVS ETIOPICVS" visível. Mais para a direita, vemos a costa africana, com diversos nomes de locais escritos em letras pequenas. No topo, há referências à África do Norte e ao Mar Mediterrâneo. A parte superior direita apresenta o Mar Vermelho e a Ásia, com nomes de países e regiões.

My Fair Lady no Cine Vitória. 1965. Reprodução da Internet.

Ao adquirir o ingresso, o espectador chegava aos foyers — salas de espera luxuosas distribuídas em dois pavimentos: um dedicado à plateia e outro ao balcão. Ali, o tempo parecia desacelerar. Conversas, olhares e o burburinho elegante se misturavam sob a presença marcante de um grande painel decorativo em estilo art déco, originalmente em bronze, que retratava uma cena de caça com figuras de um indígena, um africano e um europeu — possivelmente uma alusão à formação do povo brasileiro. Curiosamente, a cena não parece ambientada no Brasil, já que os animais representados são um leão e um tigre. Licença poética.

A cerimônia de entrada encontrava seu ápice na sala de espetáculos. Com cerca de 1.200 lugares, o espaço se abria de forma envolvente, com planta curva desenhada para garantir uma visão perfeita da tela a partir de qualquer ponto. Acima, o teto escalonado acompanhava a inclinação do balcão, criando um efeito visual imponente que não apenas impressionava, mas também conduzia o olhar do público — como se toda a arquitetura conspirasse silenciosamente para um único destino: a magia luminosa do filme prestes a começar.

Cenário rural com casas simples, igreja e colina verde.Descrição da imagem: Esta é uma pintura que retrata um cenário rural com uma pequena cidade ao fundo. Do lado esquerdo, vemos várias casas simples, algumas com telhados vermelhos. No centro, há uma estrutura que parece ser uma igreja com torres laterais, destacando-se contra o horizonte. À direita, há uma colina coberta por árvores verdes. No primeiro plano, pessoas estão caminhando e interagindo, alguns estão perto de animais, como burros. O céu é claro e azul, com poucas nuvens. Não há texto legível na imagem.

Sala de projeção do Cine Vitória. 1981. imagem João Luiz Vieira/Reprodução da Internet.

Apesar de representar o auge da modernidade, o projeto buscou manter viva a tradição do teatro, com o uso da cor ocre em alguns ambientes e de cortinas que protegiam a tela, abrindo-se majestosamente ao som de gongos. Tudo isso aliado ao que havia de mais sofisticado na engenharia da época: sistema moderno de acústica, ar-condicionado que mantinha a temperatura em 23 °C, uso de materiais incombustíveis e controle de gradação da iluminação.

Durante as duas décadas seguintes à sua inauguração, o Cine Vitória viveu seu esplendor absoluto. Sua programação incluía pré-estreias internacionais, festivais, a crescente produção nacional e o cinema latino-americano. Manteve-se moderno por meio de constantes atualizações tecnológicas.

No entanto, a partir da década de 1970, o cenário começou a mudar. A era dos cinemas de rua — especialmente na Cinelândia — entrava em declínio, em decorrência da popularização da televisão, do surgimento dos shopping centers, da degradação da área central e do aumento da violência urbana. Para tentar sobreviver, o Cine Vitória passou a exibir filmes adultos. Houve ainda uma tentativa de reinvenção em 1985, com a adoção da tecnologia 3D, mas o entusiasmo durou pouco. O cinema fechou oficialmente suas portas em 1993, encerrando um ciclo de mais de 50 anos.

Mapa antigo com Oceanus à esquerda, territórios à direita, elefante e rinoceronte no canto inferior esquerdo.Descrição da imagem: A imagem é uma gravura antiga representando um mapa. A disposição espacial inicia-se com o oceano à esquerda, marcado como "Oceanus". À direita, o mapa mostra territórios com rios, montanhas e nomes de regiões, incluindo "Angola" e "Congo". No canto inferior esquerdo, há ilustrações de um elefante e um rinoceronte, além de duas figuras humanas. O título do mapa está localizado no topo, mencionando "Millaria Germanica Communis". As cores são predominantemente bege e marrom, com detalhes em verde e azul.

Cine Vitória na fase de exibição de filmes adultos. 1980. Reprodução da internet.

Após o fechamento, o edifício ficou sem atividade regular. Por um período, funcionou como estacionamento e chegou a ser ocupado pelo Movimento Nacional de Luta pela Moradia (MNLM), mas sua estrutura já demandava ação do poder público. Devido à sua importância histórica e cultural e ao risco de perda de memória, em 2002 foi iniciado o processo de tombamento do conjunto Edifício Rivoli e Cine Vitória, finalizado em 2007 com o Decreto nº 27.705.

Página de jornal em preto e branco sobre Copacabana, com fotos e textos sobre Dorival Caymmi e Tornaghi.Descrição da imagem: A imagem é uma página de jornal em preto e branco. Na parte superior, há o título "O GLOBO" e o subtítulo "Copacabana". À esquerda, há uma foto de um homem apontando para algo à frente dele. Ele está perto de um barco com a inscrição "COPACABANA" em destaque. Abaixo da foto, há o nome "Dorival Caymmi", mencionado como um dos mais fervorosos defensores das belezas de Copacabana. À direita, há um texto sobre os poetas mudarem, mas a musa ainda é a mesma. Abaixo, há outra foto de uma placa de rua com o nome "Rua Souza Lima" e um carro ao fundo. Ao lado, há um texto sobre placas que não dão para confiar. Embaixo, há uma foto de uma mulher sorrindo, com o texto sobre Tornaghi e a liberdade de poder escolher.

Depois de seu fechamento, abandono. Década de 1990. Reprodução da internet

Em 2012, após restauração e readequação, o antigo cinema passou a abrigar a megaloja da Livraria Cultura, tornando-se novamente uma referência cultural. O espaço de cerca de 3.200 m², com mezaninos de madeira, devolveu vitalidade ao imóvel, preservando suas características originais.

Fachada de Livraria Cultura Vitória com colunas de mármore vermelho e sinal luminoso azul.Descrição da imagem: A imagem é uma fotografia de uma livraria chamada "Livraria Cultura Vitória". A fachada é composta por duas colunas de mármore vermelho, com detalhes decorativos em metal preto. No topo, há um sinal luminoso que exibe o nome "VITÓRIA" em letras grandes e azuis. Abaixo, o nome da livraria está escrito em letras menores, também azuis. Dentro da loja, é possível ver prateleiras com livros e outros itens de decoração.
Imagem 1 de 2: Fachada de Livraria Cultura Vitória com colunas de mármore vermelho e sinal luminoso azul.

No subsolo, foi criado o Teatro Eva Herz, com 186 lugares. Além de devolver ao local sua vocação cultural, a inauguração do espaço permitiu acesso a uma área antes restrita. Sua configuração sugere que o espaço pode ter sido concebido como abrigo contra bombardeios aéreos — hipótese compatível com o contexto da Segunda Guerra Mundial.

Em 2018, o Cine Vitória sofreu novo revés: a Livraria Cultura encerrou suas atividades, e o espaço voltou a fechar. Posteriormente, foi assumido pela ASSIST (Associação dos Servidores Públicos do Rio de Janeiro), que, em 2024, passou a utilizá-lo como sede e centro cultural. Sua atuação tem sido fundamental para a preservação do legado da Cinelândia.

Prédio da Associação dos Servidores Assist com fachada clara e bandeiras azuis.Descrição da imagem: A imagem é uma fotografia de um prédio com fachada clara e bem iluminada. Do lado esquerdo, há uma porta fechada, enquanto no centro está a entrada principal da "Associação dos Servidores Assist". A fachada é composta por elementos arquitetônicos em tons de vermelho e bege. Na parte superior, há um sinal que lê "VITÓRIA" em letras grandes e negras. Abaixo disso, o nome "ASSIST" está escrito em azul, seguido pela frase "Associação dos Servidores" também em azul. Duas bandeiras azuis estão posicionadas em frente à entrada, cada uma com o logotipo "ASSIST" em destaque. As janelas laterais são grandes e transparentes, permitindo uma visão clara do interior do prédio.
Imagem 1 de 2: Prédio da Associação dos Servidores Assist com fachada clara e bandeiras azuis.

A ASSIST – Associação dos Servidores Municipais, Estaduais e Federais do Rio de Janeiro é uma entidade sem fins lucrativos, integrante do Terceiro Setor, constituída sob a forma de associação de classe profissional.

Fundada em 1984 e reconhecida como entidade de utilidade pública, a ASSIST consolidou-se, ao longo de mais de 40 anos de atuação, como uma referência no cuidado e na valorização dos servidores públicos e de suas famílias. Atualmente reúne 23 Benefícios Coletivos e Programas, reafirmando seu compromisso com a promoção do bem-estar, da saúde, da qualidade de vida, do lazer e da segurança, sempre orientada pela relevância de suas iniciativas e pelo cuidado com seu corpo associativo.

Seu quadro associativo é composto por servidores públicos civis e militares, vinculados a autarquias, fundações, e de economia mista, além de integrantes das Forças Armadas e de órgãos das esferas municipal, estadual e federal no Estado do Rio de Janeiro. Instalada no histórico edifício que abrigou o antigo Cine Vitória — imóvel tombado pelo Instituto Rio Patrimônio da Humanidade — a ASSIST reafirma, em sua atuação, o compromisso com a preservação da memória, da cultura e do patrimônio urbano da cidade. Nesse contexto, destaca-se o projeto ASSIST de Portas Abertas, que convida o público a conhecer a história da instituição, do edifício e da região em que está inserida, promovendo experiências guiadas que conectam cultura, educação e pertencimento.

Além disso, por meio do Programa Soma, a ASSIST desenvolve sua atuação em responsabilidade social e ambiental, promovendo ações voluntárias e solidárias em apoio a órgãos públicos e organizações da sociedade civil, com foco no atendimento a pessoas em situação de vulnerabilidade social.

O antigo cinema foi transformado em um ambiente vivo e acolhedor, promovendo lazer, bem-estar e acesso à cultura. Iniciativas como o Programa Portas Abertas devolveram vida ao palco, agora rebatizado como Teatro ASSIST, garantindo a continuidade da função social do edifício e salvaguardando a memória de um dos marcos mais emblemáticos da era de ouro dos cinemas de rua cariocas.

Outras memórias

Memória 1 de 4: Biblioteca Nacional