“A espinha dorsal de uma roupa é o tecido no qual foi feita, e se este tecido foi mal escolhido, a roupa jamais será bonita”, afirmou Geneviève Antoine Dariaux, diretora da maison Nina Ricci e autora de um dos manuais de etiqueta mais influentes do século XX. Nos anos 1950, para valorizar sua produção (e a exemplo do que acontecia na França, no âmbito da alta-costura), os industriais têxteis brasileiros investiram em estratégias de promoção que incentivavam a criação de modelos desenvolvidos com tecidos produzidos no Brasil – especialmente o algodão – por nomes de destaque da moda nacional e internacional.
Essas campanhas exigiram uma atuação coordenada entre os fabricantes e a imprensa, naquele momento um dos principais agentes de formação do gosto e da opinião pública. Trava-se de vencer a desconfiança dos consumidores brasileiros com o que vinha de fora. A divulgação do algodão almejava a valorização dessa fibra, ressaltando suas qualidades estéticas e funcionais, ao tentar convencer o público de que a elegância podia ter origem nacional.
Na festa do tecido brasileiro, modelos da costureira Ruth Silveira apresentados na Boate Vogue num desfile patrocinado por “Sua Alteza Imperial Dona Esperanza de Orleans e Bragança” em benefício do Asilo N. S. do Amparo. À esquerda, Rosa Khoury num vestido para noite de tafetá verde chamalotado e, ao lado, num vestido para jantar preto. De azul, Danuza Leão apresenta um vestido cocktail e, de vermelho, a própria Ruth Silveira com um vestido para tarde, simples e elegante. Todas as roupas foram confeccionadas com algodão nacional. “Moda para milhões”, Manchete, fotos de Yllen Kerr, 24/01/1953
Por ser uma fibra natural forte, de custo relativamente baixo, fácil de lavar e pouco dependente de tratamentos químicos complexos, o algodão se consolidou como a principal matéria-prima da indústria têxtil brasileira, ocupando posição central na produção de tecidos no país. O excelente algodão Seridó, por exemplo, cultivado no Rio Grande do Norte e na Paraíba, fornece uma fibra de alta qualidade, longa, fina e resistente, que foi exportada para a Inglaterra e o Japão, para a produção de linhas de costura e de bordar. Internamente, as empresas nacionais o chamam de “ouro branco” potiguar.
Na década de 1950, ciente de que a valorização do algodão dependia também de sua inserção no universo da moda, a Fábrica Bangu firmou parcerias com célebres criadores da alta-costura francesa, como Jacques Fath e Hubert de Givenchy, reforçando a ideia de que seus tecidos eram sofisticados e atuais. Vale destacar que a promoção do algodão brasileiro teve como uma de suas principais lideranças, Assis Chateaubriand – proprietário dos Diários Associados e do Museu de Arte de São Paulo, àquela altura senador, e uma das figuras mais influentes e poderosas da imprensa nacional. Chatô, como era conhecido, organizou e ajudou a financiar diversas iniciativas de divulgação dos tecidos produzidos no Brasil.
“Brasil” é o nome do vestido exibido com destaque acima, “uma das mais fabulosas criações que Jacques Fath trouxe ao Rio. É em organdi branco, bordado de flores em palha mauve”. À direita, a primeira-dama do Brasil, Darcy Vargas, “a patronesse da festa”, cumprimenta o costureiro francês. O Cruzeiro, texto de Alceu Penna, fotos de Badaró Braga, 04/10/1952
Jacques Fath, um dos principais costureiros de Paris, gozava de grande notoriedade no Brasil, onde aparecia com frequência nas seções de moda de Alceu Penna. Em setembro de 1952, veio ao país acompanhado de uma pequena comitiva para apresentar suas criações feitas com algodão produzido pela Bangu. A turnê, que percorreu Salvador, Rio de Janeiro e São Paulo, teve ampla divulgação na imprensa, os desfiles foram transmitidos pela Rádio Nacional. Foi mais uma ação de promoção da fibra tropical, cujo principal objetivo era a valorização do algodão “aos olhos não dos europeus, mas das elites locais, que ainda achavam ‘uma pobreza’ vestirem-se com tecido nacional”.
Essa iniciativa, que combinava interesses econômicos e políticos, foi articulada entre Assis Chateaubriand, os diretores da Fábrica Bangu e o costureiro. De acordo com Maria Claudia Bonadio, “foi Assis Chateaubriand que promoveu a vinda de Fath e sua equipe”. A pesquisadora e professora de História da Moda cita, por exemplo, uma carta “assinada pelo costureiro e dirigida a Assis Chateaubriand reclamando o atraso no envio dos tecidos”. Na mesma mensagem, Jacques Fath informa os custos de alguns vestidos e “indica o número de quartos necessários para hospedagem, o roteiro do grupo e pergunta quanto será pago às manequins”.
A revista O Cruzeiro reproduziu a cores os modelos que deslumbraram Rio, São Paulo e Bahia, desenhados por Jacques Fath e confeccionados com algodão da Bangu. “Pela primeira vez, na história da moda, um costureiro famoso apresrentou uma coleção com vestidos que não eram franceses”, texto de Alceu Penna, fotos de Antônio Rudge, 08/11/1952
Embora Christian Dior fosse o nome mais famoso da alta-costura francesa, Jacques Fath se destacava por sua intensa vida social. Especialmente, por sua atuação nos bailes à fantasia que promovia no castelo de Coberville, sua propriedade, localizado nas proximidades de Paris. Poucas semanas antes da viagem do costureiro ao Brasil, seu castelo foi palco da festa Carnaval a Rio, organizada para promover o algodão Seridó. Mais uma vez, um empreendimento Chatô-Bangu, que também contou com a participação de outras fábricas, por exemplo Corcovado, América Fabril, Cia. Rhodia Brasileira, Fábrica Rio Tinto, da Paraíba, e a Tecelagem de Algodão de Pernambuco.
No baile à fantasia em homenagem ao algodão brasileiro, os organizadores da festa sugeriram a seus convidados – celebridades de todas as partes do mundo – que se inspirassem em costumes brasileiros. À esquerda, a “senhora Aimée Heeren com o seu fabuloso vestido confeccionado em algodão seridó-rei, da Fábrica Corcovado, num modelo especialmente desenhado pelo grande costureiro Jacques Fath. O belíssimo vestido foi inspirado nos trajes das sinhazinhas dos velhos engenhos pernambucanos”. À direita, Jacques Fath, o costureiro anfitrião, usa um adereço de plumas na cabeça. O Cruzeiro, texto de Odorico Tavares, fotos de José Medeiros, 30/08/1952
A famosa festa de Coberville teve uma quantidade enorme de convidados, três mil pessoas, que assistiram a apresentações de artistas brasileiros, como a Orquestra Tabajara, as cantoras Elizeth Cardoso e Ademilde Fonseca, o sanfoneiro Zé Gonzaga e o sambista Jamelão. Tocaram samba canção, choro, frevo, xaxado, samba, cateretê, e cururu. A revista O Cruzeiro, que pertencia a Chateaubriand, noticiou que a imprensa europeia havia ficado impressionada com a excelência e a qualidade dos tecidos na festa do algodão Seridó. Os vestidos das elegantes brasileiras foram confeccionados na maison Jacques Fath.
Maria Claudia Bonadio informa que “o evento contou também com uma cavalhada da qual participaram Arbusse Bastide, Danuza Leão, Elsa Schiaparelli e Assis Chateuabriand, todos vestindo roupas de vaqueiro, com exceção da costureira italiana que estava fantasiada de Periquito do Guaíba. O anfitrião recebeu a todos com uma fantasia de índio estilizada, trajando apenas tapa-sexo e cocar. Entre os convidados, personalidades internacionais, como Orson Welles, as atrizes Ginger Roger, Carole Lombard, Claudette Colbert, Paulette Goddard, o ator francês Jean Louis Barrault, o comediante americano Danny Kaye e também a primeira-dama Darcy Vargas e sua filha Alzira”. Na foto acima, além dos vaqueiros, “formando a ciranda que se estende por todo o primeiro plano, Jacques Fath, a sra. Ediala Vargas, a senhorita Iara Pereira Diniz e outros”, O Cruzeiro, reportagem e fotos de José Medeiros e Carlos, 06/09/1952
Ao final da reportagem, com fotos e texto de José Medeiros e Carlos, eles concluem que “o mundo tomou conhecimento de uma indústria têxtil capaz de competir nos mercados internacionais com um produto que a elegância da mulher europeia de há muito reclamava: os tecidos brasileiros de algodão”. A frase tem uma ambiguidade interessante, já que a moda brasileira é apresentada como um desejo de consumo da mulher europeia, o que poderia instigar o interesse do público local.