FábricaBangu

Foto de Carolina Casarin.

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Carolina Casarin

As fábricas de tecido estão ligadas à criação de bairros operários, vilas, clubes, escolas, hábitos de consumo e uma cultura ligada à moda. A Companhia Progresso Industrial do Brasil, instalada numa área da Fazenda Bangu, perto de Campo Grande, na zona Oeste do Rio de Janeiro, foi fundada em 1889. Ao final do século XIX, a fábrica estava localizada perto de água abundante, fornecida pelas cachoeiras da região, e com fácil acesso à linha férrea, nas proximidades de Realengo. 

Vista aérea da Fábrica Bangu, 1940

Vista aérea da Fábrica Bangu, 1940

Em torno da fábrica surgiria o bairro de Bangu, cujo nome foi identificado também com a própria Companhia Progresso Industrial, apelidada de Fábrica Bangu. A empresa promoveu uma série de investimentos na área social e esteve envolvida na construção de creches e conjuntos de moradias destinados aos trabalhadores, além de ter relação direta com o Bangu Atlético Clube, fundado em 1904.

Nos primeiros anos, a tecelagem produzia apenas morins e chitas e rapidamente alcançou um elevado ritmo de produção. Nas décadas seguintes, diversificou seu catálogo e, em 1911, oferecia 68 tipos diferentes de tecidos, consolidando-se como uma das mais importantes indústrias têxteis do país.

No início do século XX, a fábrica já participava de grandes eventos, como a Exposição Nacional de 1908 que aconteceu no bairro da Urca, no Rio de Janeiro, cidade impregnada das ambições republicanas de progresso e desenvolvimento. Organizada para celebrar o centenário da abertura dos portos, decretada por D. João VI, a Exposição Nacional, realizada na Praia Vermelha, reuniu pavilhões dedicados aos estados brasileiros, às forças armadas e aos principais setores da economia nacional.

Vista geral da Exposição Nacional de 1908, Augusto Malta. Vê-se os pavilhões do Jardim Botânico; do Distrito Federal; dos Correios e Telégrafo; da Sociedade Nacional de Agricultura; de Belas Artes, Teatro João Caetano, Bombeiros; da Fábrica de Tecidos Bangu; de São Paulo e de Minas Gerais.

Vista geral da Exposição Nacional de 1908, Augusto Malta. Vê-se os pavilhões do Jardim Botânico; do Distrito Federal; dos Correios e Telégrafo; da Sociedade Nacional de Agricultura; de Belas Artes, Teatro João Caetano, Bombeiros; da Fábrica de Tecidos Bangu; de São Paulo e de Minas Gerais.

O principal objetivo da Exposição Nacional de 1908, assim como as Exposições Universais que aconteciam na Europa desde meados do século XIX, foi divulgar obras de arte, produtos manufaturados e avanços tecnológicos da ainda incipiente indústria brasileira, em pavilhões monumentais. A Companhia Progresso Industrial do Brasil, ou simplesmente Bangu, aproveitou essa oportunidade para mostrar a qualidade e a diversidade dos seus tecidos, contribuindo para a valorização das tecelagens brasileiras.

Vista geral da Exposição Nacional de 1908, Augusto Malta. Vê-se os pavilhões do Jardim Botânico; do Distrito Federal; dos Correios e Telégrafo; da Sociedade Nacional de Agricultura; de Belas Artes, Teatro João Caetano, Bombeiros; da Fábrica de Tecidos Bangu; de São Paulo e de Minas Gerais.

Pavilhão da Fábrica Bangu, fotografia de Musso & Cia., 1908. A indústria têxtil ocupava um lugar de destaque nessas exposições, onde eram divulgadas novas fibras, técnicas de fabricação, estampas e tecidos, enquanto a moda se afirmava como expressão da capacidade criativa e industrial dos países. Na Exposição Nacional de 1908, o pavilhão da Bangu foi uma poderosa estratégia de promoção institucional.

Nos primeiros anos da década de 1920, a Fábrica Bangu entrou numa nova etapa de sua trajetória com a posse do médico Guilherme da Silveira na presidência. Sob sua administração, acompanhado dos filhos Guilherme da Silveira Filho e Joaquim Guilherme, conhecidos como os Silveirinhas, a tecelagem ganhou novo impulso, ampliando sua atuação tanto no campo industrial quanto na gestão de seus empreendimentos.

No pós-guerra, a Bangu investiu em modernização tecnológica. Comprou maquinário norte-americano, “máquinas de mercerizar, estampar, chamuscadeiras que nos permitiam um acabamento mais nobre, mais moderno”, narra Carlos Guido Del Soldato, então diretor técnico da empresa. “Ao mesmo tempo”, ele continua, “começaram a aparecer novos tipos de corante que reagiam muito bem com a fibra de algodão. Então, com aquelas máquinas e aqueles corantes foi possível apresentar uma variada gama de tecidos de fino acabamento”.

A aposta no algodão fazia sentido tanto por sua origem nacional quanto por sua adaptação ao clima tropical. Sendo, porém, uma fibra associada a roupas íntimas e peças consideradas simples ou rústicas, o algodão precisava ser reposicionado no imaginário do consumidor. Modernizar a produção não seria suficiente. Era necessário construir uma nova apresentação para esse tecido, enfatizando sua elegância, sofisticação e excelência técnica.

“A sociedade carioca adota definitivamente os tecidos de algodão: a Bangu dita a moda, as elegantes aprovam e o algodão mais uma vez domina”, anuncia a revista O Cruzeiro, grande incentivadora do tecido brasileiro na alta sociedade. À esquerda, as senhoras Carlos Eduardo de Sousa usa o modelo “Itaipu”, Miguel de Faria o vestido “Arco-íris”, Álvaro Catão com o modelo “Moça bonita”, Fernando Delamare usa o traje “Feirinha”, e M. Bernardez Müller com o modelo “Saci”, em fustão abóbora e preto; ao centro, “senhora Joaquim Guilherme da Silveira, idealizadora do desfile”; O Cruzeiro, 27/10/1951, fotografias de Carlos

“A sociedade carioca adota definitivamente os tecidos de algodão: a Bangu dita a moda, as elegantes aprovam e o algodão mais uma vez domina”, anuncia a revista O Cruzeiro, grande incentivadora do tecido brasileiro na alta sociedade. À esquerda, as senhoras Carlos Eduardo de Sousa usa o modelo “Itaipu”, Miguel de Faria o vestido “Arco-íris”, Álvaro Catão com o modelo “Moça bonita”, Fernando Delamare usa o traje “Feirinha”, e M. Bernardez Müller com o modelo “Saci”, em fustão abóbora e preto; ao centro, “senhora Joaquim Guilherme da Silveira, idealizadora do desfile”; O Cruzeiro, 27/10/1951, fotografias de Carlos

Em 1951, Maria Cândida, ou dona Candinha, a esposa de Joaquim Guilherme da Silveira, organizou um desfile em que senhoras da alta sociedade carioca apresentaram vestidos de praia, passeio e baile, todos executados com tecidos da Bangu. Realizado em benefício da organização de caridade Pequena Cruzada, o evento atraiu mais de mil e quinhentas pessoas aos salões do Copacabana Palace, interessadas nas “consideráveis possibilidades do Brasil no setor da moda”, para usar as palavras do colunista G. de A., pseudônimo de Gilberto Trompowsky, na seção “Mundanismo”.

A favor da indústria nacional, a alta sociedade se dispunha a rever um antigo tabu relacionado às roupas de luxo, a ideia de que apenas a seda seria apropriada para bailes e ocasiões formais. Em algodão, organdi, linho e cambraia, os modelos chamaram a atenção pela qualidade das cores, pela modernidade das estampas e pela capacidade de substituir, com elegância, materiais tradicionalmente associados ao luxo, como veludos, cetins e brocados.

“Yacht Club”, “Frajola”, “Maringá”, “Guarujá”, “Icaraí”, “Colibri”, “Itapoã”, “Paquetá”, “Sinhá”, “Carijó” e “Iguaçu” são os títulos de alguns dos vestidos, que remetem a elementos marcantes da natureza, da cultura e da indústria brasileiras, reforçando ainda mais o caráter nacional da iniciativa. O público, que ansiava por novidades de moda, era numeroso e estava entusiasmado. Páginas da revista O Cruzeiro, texto de Alceu Pereira, fotografias de Carlos, 27/10/1951

“Yacht Club”, “Frajola”, “Maringá”, “Guarujá”, “Icaraí”, “Colibri”, “Itapoã”, “Paquetá”, “Sinhá”, “Carijó” e “Iguaçu” são os títulos de alguns dos vestidos, que remetem a elementos marcantes da natureza, da cultura e da indústria brasileiras, reforçando ainda mais o caráter nacional da iniciativa. O público, que ansiava por novidades de moda, era numeroso e estava entusiasmado. Páginas da revista O Cruzeiro, texto de Alceu Pereira, fotografias de Carlos, 27/10/1951

Os trajes foram confeccionados pelas costureiras Maria Angélica, Carolina, Araci, Ondina e Celina, que criou os chapéus. A Fábrica Bangu, com sua gama diversificada de tecidos de qualidade, é provavelmente a tecelagem carioca mais importante para a história da moda, no sentido estrito. O desfile realizado no Copacabana Palace, conclui a reportagem publicada em O Cruzeiro, “marca uma época na indústria têxtil, que anda agora de braço dado com a moda lançada diretamente do Rio de Janeiro, e que é uma glória para todos nós que podemos nos orgulhar de possuir, no país, uma fábrica de tecidos da qualidade, da categoria e da sabedoria da Bangu”.