Maracanã

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Rio Memórias

O Maracanã talvez tenha sido a maior encarnação, ao lado das praias, de certo mito de convívio cordial, ao mesmo tempo sórdido e afetuoso, da cidade do Rio de Janeiro. O estádio foi pensado, em 1950, para ser frequentado por torcedores de todas as classes sociais, mas não de forma igualitária. Ele foi espacialmente dividido, como se cada torcedor tivesse que saber qual é a sua posição na sociedade: os mais pobres na geral, a classe média nas arquibancadas, os mais remediados nas cadeiras azuis e os mais remediados ainda em suas cadeiras cativas.

Estádio lotado durante chuva intensa, com pessoas protegidas por guarda-chuvas.Descrição da imagem: Esta é uma fotografia preto e branco de um estádio lotado durante uma chuva intensa. No primeiro plano, vemos pessoas se protegendo da chuva com guarda-chuvas. À esquerda, há um grupo de pessoas em pé, alguns conversando. No centro, três indivíduos estão juntos, também usando guarda-chuvas. À direita, mais pessoas estão distribuídas pela arquibancada. No fundo, vemos o telhado do Maracanã, com grades e estruturas metálicas.

A geral do Maracanã. Autor não identificado, 1972. Arquivo Nacional/Fundo Correio da Manhã

Esta fabulação de espaço democrático que era o antigo Maracanã, todavia, ainda permitia duas coisas que nos faziam acreditar em uma cidade menos injusta: a crença num modelo de coesão cordato, em que as diferenças se evidenciavam no espaço, mas se diluíam em certo imaginário de amor pelo futebol; e a possibilidade de invenção de afetos e sociabilidades dentro do que havia de mais precário. A geral – o precário provisório – acabava sendo o local em que as soluções mais inusitadas e originais sobre como torcer surgiam.

Sendo o Estádio Jornalista Mario Filho erguido no chão das velhas aldeias, cortado pelas águas que descem do maciço da Tijuca e espelhado pelas águas da Baía de Guanabara, o templo do futebol jamais será um espaço meramente funcional em que se reduz ao lugar onde partidas de futebol são disputadas. Em outras palavras, o que queremos dizer é que na medida em que as mais diversas almas dessa cidade praticam o “Maraca” ele se faz como um tempo e espaço ritual.

Estádio vazio com banner de São Judas Tadeu e mensagem motivacional.Descrição da imagem: A imagem mostra uma fotografia de um estádio esportivo, provavelmente o Maracanã, com arquibancadas vazias. No primeiro plano, há um banner horizontal com cores vermelha e preta. À esquerda do banner, há uma ilustração colorida de São Judas Tadeu dentro de um círculo decorativo. Ao centro e à direita do banner, o texto lê "NADA É IMPOSSÍVEL" em letras brancas sobre fundo vermelho, e abaixo, em preto, "SÃO JUDAS TADEU". As arquibancadas estão vazias, com assentos amarelos e azuis. O teto do estádio é de telhado metálico, com estruturas de apoio visíveis.

Faixa da torcida do Flamengo em apoio ao time

, 2021 Foto: Maracanã/Twitter

Não é somente porque o palco de futebol mais famoso do planeta aconchegou a pisada firme do preto-velho que baixou na gira, rezou o credo com o Papa e acompanhou gerações de crianças tendo piripaques esperando o bom velhinho descer de helicóptero em pleno gramado. O estádio do Maracanã foi e continua inspirando infinitos enredos. Por lá bailam os corpos bons de drible e os de tranco, as alegrias miúdas e as frustrações épicas, as estrelas demasiadamente humanas e os comuns encantados.

Se a fezinha que se faz por ali fosse direcionada para outras apostas todas as bancas dessa cidade já estariam quebradas. O Maracanã carrega um dos principais traços do povo do lugar: somos do jogo, da ginga e da fé.

Grupo festivo em preto e branco, sorrindo e celebrando.Descrição da imagem: Esta é uma fotografia preto e branco de um grupo de pessoas. No primeiro plano, há um homem centralizado, vestindo uma camisa branca aberta e uma faixa branca ao redor do pescoço. Ele está sorrindo amplamente e parece estar em um ambiente festivo. Ao seu redor, estão outros indivíduos, alguns também sorrindo, distribuídos em duas fileiras. Na parte superior da imagem, dois homens estão de pé, ambos sorrindo e olhando para a câmera. Atrás deles, há mais pessoas, algumas com roupas variadas, incluindo um homem sem camisa. Todos parecem estar em um local aberto, possivelmente um evento social ou festivo.

Autor não identificado, 1972. Arquivo Nacional/Fundo Correio da Manhã

O Maraca de muitos já não existe mais. Pode ser que muita coisa mude ainda para pior ou não; essa é uma questão de ponto de pista que o VAR não pode revisar. A questão é que nas giras de mata, rio, baía, arquibancada, campinhos de pelada, botequim, quintais ou mesmo na sala de casa haverá alguém que vibre alto e firme o ponto de passagem para uma das mais belas entidades desse nosso terreiro carioca.

Grupo de pessoas com mãos erguidas em estádio.Descrição da imagem: Esta é uma fotografia preto e branco de um grupo de pessoas reunidas em um local, possivelmente um estádio, com os braços levantados. Na parte frontal, vemos várias mãos erguidas, enquanto as cabeças dos indivíduos estão voltadas para frente. À medida que nos movemos para trás, podemos observar mais pessoas participando da mesma atividade. O fundo está desfocado, sugerindo que o foco principal é o grupo de mãos levantadas.

O fascínio e adoração da torcida.

Autor não identificado, 1972. Arquivo Nacional/Fundo Correio da Manhã

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