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Rio Memórias

A prática de desalojar famílias, em especial as pobres, já é há séculos um traço dos mais perversos na política carioca. Basta lembrar as desapropriações feitas de supetão, com a chegada da corte portuguesa ao Brasil em 1808, que despejaram milhares de pessoas, para ceder suas casas à nobreza vinda d'além-mar. Ou o Bota-Abaixo de Pereira Passos, que varreu para zonas periféricas os antigos moradores do centro do Rio. Ou ainda as transferências em massa dos governos Carlos Lacerda e Negrão de Lima, nos anos 1960 e 1970, que obrigaram mais de 100 mil moradores a deixarem suas casas, na região central e na zona sul, e irem morar em conjuntos habitacionais distantes e com infraestrutura precária. Uma diáspora forçada.

Área urbana em desenvolvimento perto de rio, com edifício moderno e áreas verdes.Descrição da imagem: Esta é uma fotografia aérea de uma área urbana em desenvolvimento, perto de um corpo d'água. À esquerda, vemos estruturas modernas, incluindo um edifício alto com fachada de vidro e metal. Ao centro, há uma grande área aberta com equipamentos e veículos, possivelmente em construção ou manutenção. À direita, há áreas verdes e residências próximas à beira do rio. O céu está nublado, dando a imagem um tom cinza.

Foto: Genilson Araújo - Remoção da Vila Autódromo - 11/2/2016 - Agência O Globo

A história de remoções autoritárias, porém, não é coisa do passado. Seu fantasma voltou a assombrar os cariocas, e com mais força do que nunca, durante os preparativos para a Copa do Mundo de 2014 e Jogos Olímpicos de 2016. Estima-se que mais de 67 mil pessoas tenham sido removidas de suas casas, só entre 2009 e 2013. Uma das facetas mais dramáticas dessa política de remoções foi a da Vila Autódromo, comunidade vizinha ao Parque Olímpico que acabou se tornando símbolo da violação do direito à moradia empreendido pelo próprio governo.

Manifestação de mulheres contra remoção, com cartaz laranja.Descrição da imagem: A imagem é uma fotografia de uma manifestação. Na parte frontal, há um grupo de pessoas segurando um grande cartaz laranja com letras pretas. O cartaz diz "MULHERES EM MARCHA CONTRA A REMOÇÃO". As pessoas estão caminhando em uma rua, com edifícios antigos e folhagens ao fundo. O sol está alto, criando raios de luz que atravessam a cena.

Marcha mundial de mulheres. 2015. Fotógrafo: Luiz Claudio da Silva - Fonte: Museu das Remoções

Uma das principais controvérsias no caso da Vila Autódromo é o fato de que o projeto olímpico não incluía a demolição das casas. Segundo moradores e ativistas, a retirada das famílias ocorreu, na verdade, devido à especulação imobiliária e à pressão das construtoras, pois a sua permanência não influenciaria em nada no traçado das obras. Por isso, se uniram num processo de resistência e de denúncia. O drama da Vila Autódromo foi retratado no documentário Se essa vila não fosse minha, de Felipe Pena. Além disso, deu origem ao Museu das Remoções, projeto que busca documentar a história de comunidades que foram apagadas, parcial ou integralmente.

Escavadeira demolindo edifício branco com céu azul.Descrição da imagem: A imagem é uma fotografia de uma escavadeira demolindo um edifício. A escavadeira, de cor laranja, está posicionada à esquerda da imagem, com seu braço articulado e sua cabeça de demolição ativa. O edifício, de cor branca, está sendo desmantelado, com pedaços de tijolo e concreto caindo. À direita, há uma parede com letras azuis escritas em português: "MEMÓRIA NÃO SE REMOVE". O céu é claro e azul, e parte de uma folha verde está visível na parte inferior direita da imagem.

Memória não se remove. Fotógrafo: Luiz Claudio da Silva - Fonte: Museu das Remoções

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