ConjuraçãoCarioca

Davi Aroeira Kacowicz

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Davi Aroeira Kacowicz

Em 1792, Tiradentes foi enforcado no campo de São Domingo — praça que hoje leva o nome do sentenciado — em um espetáculo que buscava ser exemplar àqueles que ousassem questionar a autoridade da Coroa portuguesa. Dois anos depois, porém, o vice-rei do Brasil, José Luís de Castro, conde de Resende, se escandalizava com denúncias de reuniões sigilosas, nas quais colonos debatiam as mesmas ideias que levaram o inconfidente mineiro à forca.

Retrato de José Luís de Castro, conde de Resende, vice-rei do Brasil entre 1790 e 1801. Autor desconhecido. c.1800 – c.1819. Wikimedia Commons

Homem formal do século XVIII, retrato centralizado, fundo preto, colete vermelho com detalhes dourados.Descrição da imagem: Esta é uma pintura retratando um homem vestindo roupas formais do século XVIII. A figura está centralizada na imagem, com o rosto voltado para frente. O fundo é preto, destacando o sujeito. O indivíduo possui cabelos grisalhos, penteados de forma simples, e usa um colete vermelho com detalhes dourados. Sobre o colete, há distintos emblemas e medalhas, incluindo um grande distintivo vermelho com um símbolo dourado no centro. O pescoço está coberto por um colarinho branco com bordados finos.

O vice-rei tinha motivos para se apavorar. Autores iluministas, como Voltaire — ou Vulter, em sua versão abrasileirada —, e periódicos que informavam e exaltavam os rumos da Revolução Francesa estavam proibidos de circular entre os colonos. Eles corroíam a legitimidade do governo. Na visão da administração colonial, esses "escritos sediciosos e incendiários" plantavam "a semente da insurreição entre vassalos de seus respectivos soberanos". E para desespero da Coroa, as “odiosas francesias”, por vezes, escapavam à censura lusitana e passavam a instigar o imaginário político dos colonos.

Um grupo de letrados, em especial, passou a se reunir para discutir aqueles ideais revolucionários. Os encontros aconteciam semanalmente, na casa do poeta Manuel Inácio da Silva Alvarenga, na rua do Cano, atual rua Sete de Setembro. Ali funcionava a Sociedade Literária do Rio de Janeiro — uma associação inicialmente com fins acadêmicos e científicos, mas que, em 1794, se convertera em um espaço onde se debatiam bem-comum, igualdade, república e democracia. A maior parte de seus membros era de médicos e boticários. As reuniões eram secretas, mas as ideias espraiavam, ganhando novos rumos tão logo a noite virava dia.

Interior de uma Botica no Rio de Janeiro. No detalhe: clientes aguardam o preparo do medicamento; enquanto isso, eles colhem notícias e se atualizam sobre o que ocorria no resto do mundo. Jean Baptiste Debret - 1823. Wikimedia Commons

Interior de botica no Rio de Janeiro, 1823Descrição da imagem: Esta é uma pintura em cores retratando o interior de uma botica no Rio de Janeiro, de 1823, conforme a legenda fornecida. A imagem mostra três homens atrás de um balcão de madeira com padrões decorativos, observando prateleiras cheias de recipientes de vidro e cerâmica. À direita, um homem está em pé, segurando um recipiente e parecendo estar em conversa com os outros dois. As prateleiras ao fundo estão repletas de diversos objetos, incluindo frascos e jarros de diferentes tamanhos e formas. O ambiente é iluminado por janelas arqueadas, permitindo que a luz entre e ilumine o espaço.

Na rua do Cano, funcionavam as principais boticas da cidade. Ali, a população do Rio de Janeiro encomendava seus medicamentos, unguentos e afins. Esses estabelecimentos eram propícios para propagação daquelas conversas subversivas: bastava o cliente espichar os ouvidos, escutar o que os médicos e boticários diziam e ir matutando, ele mesmo, o conteúdo daquele diálogo — isso quando não opinava no fuxico. Dos balcões das boticas para espaços públicos como o chafariz do Mestre Valentim, na atual praça Quinze de Novembro, as ideias se espalhavam pelo ar na velocidade do som.

Um dos locais de maior circulação do Rio de Janeiro, o chafariz do Mestre Valentim, no largo do Carmo, por onde correram as ideias de “Vulter” e outros autores iluministas. Leandro Joaquim - 1790. Acervo Museu Histórico Nacional.

Pintura ovalada de praça histórica com multidões de pessoas em uniformes militares, torre e cruz no telhado.Descrição da imagem: Esta é uma pintura ovalada representando uma praça histórica. Do lado esquerdo, vemos um edifício longo com muitas janelas, enquanto à direita há outro edifício similar. No centro, há uma estrutura central com uma torre e uma cruz no telhado. A praça está ocupada por multidões de pessoas organizadas em fileiras, alguns em uniformes militares. Na frente, há uma plataforma elevada com uma estátua ou monumento. No primeiro plano, vemos algumas figuras menores, incluindo pessoas em barcos e outros indivíduos caminhando. O céu é azul com algumas nuvens.

Ao ser informado da existência das tais reuniões, o conde de Resende resolveu arrancar o mal pela raiz. Proibiu as atividades da Sociedade Literária e prendeu onze de seus membros na fortaleza no morro da Conceição. A chamada Conjuração do Rio de Janeiro não chegou a constituir um plano para derrubar o poder colonial. Mas o vice-rei do Brasil, temendo o mal maior, manteve os letrados suspeitos trancafiados por dois anos, sem acusação formal.

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Memória 1 de 3: Invasões francesas na Guanabara II