Novembrada

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Heloisa Murgel Starling

Na madrugada de 11 de novembro de 1955, o ministro da guerra Henrique Lott se reuniu em sua casa, no Rio de Janeiro, com 30 generais de guarnições locais. Dali, saiu diretamente para o ministério e botou os tanques na rua, no contragolpe que garantiu a posse do presidente eleito Juscelino Kubitschek e ficou conhecido como Novembrada.

O objetivo do ministro era garantir a legalidade democrática. A posse de JK e João Goulart, eleitos para a presidência da República, iria ser impugnada pela oposição, capitaneada pela União Democrática Nacional (UDN) e por Carlos Lacerda - que liderava a fina flor do conservadorismo no país. O golpe de Estado estava em andamento.

JK e Jango se mostram tensos com a aproximação da posse, em charge de Appe (Anilde Pedrosa). “O golpe, o fato novo e a centelha”, revista O Cruzeiro -1955 - Rio de Janeiro

Charge em preto e branco mostrando um crânio humano com cajado, relógio de pé com pendente, dois homens dançando e data "31 JANEIRO" em quadradinho.Descrição da imagem: A imagem é uma charge em preto e branco. Do lado esquerdo, vemos um grande crânio humano com um cajado. Ao centro, há um relógio de pé com um pendente. À direita, dois homens estão em pose de dança, com um dos homens segurando o outro pela cintura. Na parte superior direita, há um quadradinho com a data "31 JANEIRO". Abaixo, está escrito "'CHARGE' DE APPE".

A justificativa da oposição para tentar a impugnação era de que a vitória de Juscelino seria ilegítima, uma vez que sua candidatura não obteve a maioria absoluta dos votos. Porém, nem a Constituição de 1946, nem a legislação eleitoral em vigor exigiam maioria absoluta. Os golpistas planejavam impugnar a posse dos eleitos e impor ao país um governo de emergência.

A cidade foi tomada por tanques, carros de assalto e 25 mil soldados que ocuparam pontos estratégicos: o Campo de Santana, a estação de trem Central do Brasil e o aeroporto Santos Dumont. O presidente interino, Carlos Luz – que era presidente da Câmara e assumira o cargo após o vice-presidente Café Filho alegar problemas de saúde –, escapou do Palácio do Catete pela porta dos fundos. Os líderes golpistas se refugiaram no cais do Ministério da Marinha, no porto do Rio de Janeiro, e embarcaram no cruzador Tamandaré, que zarpou com destino a Santos. O plano era constituir um governo paralelo com o apoio do governador paulista Jânio Quadros.

A bordo do cruzador Tamandaré, integrantes do movimento de 11 de novembro embarcam para o porto de Santos: Jurandir Mamede (1º), Carlos Lacerda (5º, de óculos), Sílvio Heck (6º, de boné), Otávio Marcondes Ferraz (7º, de terno escuro e óculos). Fotógrafo desconhecido. Acervo CPDoc FGV

Grupo de pessoas em torno de canhão naval, uniformes militares e ternos formais.Descrição da imagem: Esta é uma fotografia preto e branco de um grupo de pessoas reunidas em torno de um grande canhão naval. Na parte superior da imagem, três indivíduos estão sentados no topo do canhão, enquanto na parte inferior, uma multidão de pessoas está organizada em duas fileiras. A maioria dos presentes está vestida com uniformes militares e ternos formais.

Quando o Tamandaré chegou ao canal de entrada da baía de Guanabara, os canhões das duas fortalezas militares – o Forte do Leme e o Forte de Copacabana – começaram a disparar. O cruzador conseguiu varar a barra, mas logo chegou pelo rádio a notícia de que São Paulo se rendera às tropas legalistas. Não tinha saída: o Tamandaré deu meia volta, Carlos Luz renunciou, e os líderes golpistas tiveram de negociar as condições do desembarque.

Tropas se entrincheiram nas proximidades do Quartel-General de Santos. São Paulo, novembro de 1955. Fotógrafo desconhecido. Fundo Correio da Manhã/Arquivo Nacional

Três soldados em fosso, dois deitados, um sentado, metralhadora no centro.Descrição da imagem: Esta é uma fotografia preto e branco mostrando três soldados em posição defensiva em um fosso. Do lado esquerdo, dois soldados estão deitados, aparentemente observando algo à distância. Eles usam uniformes militares e capacetes. Ao centro, há um furo escavado no chão, com um metralhadora posicionada dentro dele. À direita, um terceiro soldado está sentado no topo do fosso, também usando uniforme militar e capacete, segurando um objeto que parece ser uma ferramenta de trabalho. No fundo, há uma rua com algumas pessoas caminhando e um carro antigo estacionado. Há também um prédio grande e estruturas urbanas ao fundo.

O contragolpe promovido pelo general Lott foi fulminante. Após a rendição, quando a conjuntura política parecia finalmente entrar nos eixos, Café Filho saiu do hospital e anunciou sua disposição de reassumir a Presidência da República: a UDN voltou a se assanhar, e o Exército retornou com os blindados para as ruas do Rio. Mas o Congresso Nacional votou a interdição de Café Filho e confirmou a posse de JK e Jango para 31 de janeiro de 1956. O general Lott jamais aceitou ter protagonizado um contragolpe – dizia ter liderado um “Movimento de retorno aos quadros constitucionais vigentes”.

Imagem urbana com tropas e veículos militares.Descrição da imagem: Esta é uma fotografia preto e branco mostrando uma cena urbana com tropas do Exército estacionadas na frente de um edifício. Na parte inferior da imagem, há um veículo militar com soldados sentados em seu telhado. Ao lado dele, um tanque está parado na rua. Mais à esquerda, outro veículo militar transporta mais soldados. No centro da imagem, há um caminhão aberto com pessoas caminhando. Ao fundo, um grande grupo de pessoas está caminhando pela rua. O edifício principal está localizado à direita, com árvores e uma área de construção em seu entorno.

Tropas do Exército estacionam na frente da casa de Café Filho, para garantir o impedimento de sua reocupação do cargo interino de presidente

da República, Rio de Janeiro – novembro de 1955 - Fotógrafo desconhecido. Fundo Correio da Manhã/Arquivo Nacional

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Memória 1 de 4: Golpes militares na República Nova