RevoltadaVacina

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Júlia Kern Castro

De um lado, uma multidão com pedras, paus e ferros. Do outro, policiais armados com carabinas curtas e piquetes de lanceiros da cavalaria. No epicentro, a obrigatoriedade da vacinação contra a varíola para toda a população da capital. Em 1904, em meio a mortes dos dois lados, o Rio de Janeiro protagonizou o que entrou para a História do Brasil como Revolta da Vacina.

A vacina obrigatória - Mario Pinheiro, 1907

O presidente Rodrigues Alves buscava modernizar a capital federal a partir de três diretrizes básicas: reforma do porto para atender às novas exigências das atividades fabris, remodelação urbana com o alargamento das vias e ampliação da iluminação pública e melhorias de saneamento básico, visando ao fim dos surtos de endemias que assolavam a cidade.

Para a questão sanitária, o renomado médico Oswaldo Cruz foi contratado como diretor geral de Saúde Pública. Promoveu a primeira campanha de vacinação do país, mas a falta de explicações acabou causando resistência em parte da imprensa e dos moradores da cidade. Desconfiados dos soros e da vacina, eles temiam, sobretudo, os violentos agentes sanitários.

Caricatura em preto e branco de Luiz XIV da Seringação, segurando espada e seringa, com inseto e rato ao lado, fundo com escudo "Oswaldo" e símbolos de vacinação.Descrição da imagem: A imagem é uma caricatura em preto e branco. No centro está um personagem vestindo um traje renascentista com detalhes ornamentais. Ele segura uma espada na mão direita e um objeto que parece ser uma seringa na mão esquerda. Ao fundo, há um escudo com o nome "Oswaldo" e símbolos relacionados à vacinação. À direita do personagem, há um inseto e um rato. Na parte superior da imagem, está escrito "Luiz XIV da Seringação". Abaixo, há uma frase que diz: "Le tas c'est moi!"

Charge.

O Malho

, Rio de Janeiro, 19 de março de 1904, n° 0079. Hemeroteca da Biblioteca Nacional

Poucos dias após a promulgação da lei, em 10 de novembro de 1904, as agitações se iniciaram na região central e nos bairros periféricos da cidade. Durante os confrontos, houve destruição de veículos, lâmpadas da iluminação pública e calçamentos das ruas e assaltos a delegacias e repartições públicas para a redistribuição de armas, querosene e dinamite.

O governo teve dificuldade em lidar com os revoltosos, mesmo depois de pedir reforços de unidades militares de outros estados. Entre os recursos extremos usados para controlar a Revolta da Vacina, estavam o bombardeio de bairros e regiões costeiras por meio de embarcações de guerra.

Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 13 de novembro de 1904, n° 1249. Hemeroteca da Biblioteca Nacional

Jornal destaca reação popular contra vacinação obrigatória.Descrição da imagem: A imagem é um jornal em preto e branco, com destaque para o título "Vaccinação Obrigatória" em letras grandes e negras. Abaixo, há o subtítulo "Reação do Povo". A disposição espacial começa com o título à esquerda e vai para a direita, onde está o subtítulo. Em seguida, há uma lista de itens relacionados à reação popular contra a vacinação obrigatória, como "Liga contra a vacinação", "Grande reunião popular", "No Centro das Classes Operárias", "Presidência do senador Lauro Sodré", entre outros. O texto contém várias menções a nomes próprios, como "Barbosa Lima", "Dr. Vicente de Souza", "Senador Lauro Sodré", "Ministro Seabra", "Correio da Manhã", "Palácio", "Largo da Lapa", "Cattete", e "Central".

O movimento chegou ao fim em 16 de novembro, com a revogação da obrigatoriedade da vacina. Os líderes civis foram encarcerados e processados por tribunais militares. Os populares, perseguidos e presos.

Outras memórias

Memória 1 de 4: Os golpes militares de uma República titubeante