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Rio Memórias

A estátua equestre de Dom Pedro I, localizada no antigo largo do Rocio – depois chamado Praça da Constituição e, finalmente, Praça Tiradentes – foi o primeiro grande monumento público construído do país. Sua inauguração, porém, se deu em meio a uma série de polêmicas no quadro político do período. O primeiro a apresentar projeto à Câmara solicitando a construção e a homenagem foi Haddock Lobo (1817-1869), em uma sessão de 7 de setembro de 1854.

Documento histórico sobre subscrição para estátua equestre em memória de D. Pedro I.Descrição da imagem: A imagem é um documento histórico em preto e branco. Está disposto verticalmente, com o título "EDITAES" no topo. Abaixo, há uma menção à "ILLMA. CAMARA MUNICIPAL". O texto principal descreve uma decisão tomada pela câmara municipal em 7 de setembro de 1854, decidindo realizar uma subscrição voluntária para financiar a construção de uma estátua equestre em memória do Senhor D. Pedro I. O documento menciona que o livro de subscrição ainda está disponível no Paço Municipal e que todas as pessoas interessadas podem contribuir enviando seus donativos ao tesoureiro. O texto é assinado por Luiz Joaquim de Gouveia, secretário, em 16 de outubro de 1854.

Diário do Rio de Janeiro, 23 de outubro de 1844. Fonte: Brasiliana Fotográfica

O concurso para eleger o desenho vencedor para a realização da estátua ocorreu no âmbito da Academia Imperial de Belas Artes durante o ano de 1855. Seu vencedor foi o secretário da Academia, João Antonio Mafra (1823-1908), brasileiro, porém o projeto foi posto em prática pelo escultor francês Louis Rochet, terceiro colocado no concurso original. As esculturas de bronze foram feitas e fundidas em Paris, fazendo do monumento nacional uma obra multinacional.

A inauguração foi marcada para o dia 30 de março de 1862. O seu local, porém, foi a base de uma intensa polêmica. O largo do Rocio era não só um local de aglomeração e revoltas populares, como foi também o sítio em que Tiradentes foi enforcado. Essa memória insurgente de um movimento que foi contrário à Monarquia e a dinastia dos Bragança, se tornou um símbolo para os liberais e republicanos. No dia de sua inauguração, panfletos contrários à estátua foram distribuídos e o líder da revolta de 1842, Teófilo Otoni, chamou publicamente a obra de “mentira de bronze”.

A estátua de 3,3 metros, que mostra um Pedro I sobre seu cavalo, portando a carta da Constituição em uma das mãos, suspenso por uma base que reproduz quatro dos principais rios brasileiros (Amazonas, Madeira, São Francisco e Paraná) a partir de figuras indígenas e animais como antas e tamanduás, mostrou como a sociedade carioca já era mobilizada por debates estéticos que envolviam suas aspirações políticas. Apesar das polêmicas, sua inauguração foi uma aclamação nacional, com pessoas vindo de outras cidades para assisti-la.

Estátua equestre em praça histórica, arquitetura monumental à direita.Descrição da imagem: Esta é uma fotografia antiga em preto e branco. A imagem mostra uma praça com uma grande estátua equestre centralizada. À esquerda, há edifícios de dois andares com telhados inclinados. No centro, a estátua equestre de um homem montado em um cavalo, com figuras humanas adicionais em sua base. À direita, há uma arquitetura monumental com colunas e um frontão decorado. Pessoas estão caminhando pela praça, e o céu parece nublado. Na parte inferior direita, há uma assinatura que parece dizer "Bancari".

Foto de Manoel Banchieri, 1862. Estátua equestre de D. Pedro I no Largo do Rossio com o arco do triunfo ao fundo que não existe mais. Fonte: BN Digital

Atualmente, a estátua é vista por artistas de novas gerações como representação do período colonial e imperial, junto ao seu lastro escravocrata. No bojo dos movimentos que repensam o papel de monumentos ligados à exploração racial da escravidão ao redor do mundo, a artista Diambe Silva e um grupo de colaboradores organizou no dia 22 de janeiro de 2020 a ação Devolta, em que peças de roupas rasgadas e embebidas em gasolina foram postas ao redor do monumento e queimadas, criando um círculo de fogo. A ação fugaz marca mais um dos muitos usos e significados políticos que a estátua constituiu na cidade desde sua inauguração em 1862.

Monumento noturno em praça urbana com chamas de fogo.Descrição da imagem: Esta é uma fotografia noturna de um monumento em uma praça urbana. Do lado esquerdo, vemos edifícios altos com janelas iluminadas. No centro, há um monumento monumental com estátuas e uma coluna central. A frente do monumento, cercado por grades metálicas, há chamas de fogo no chão. À direita, há mais edifícios e árvores. As luzes das lâmpadas de rua são visíveis, projetando raios de luz. O céu está escuro, sugerindo que a foto foi tirada à noite.

Os arredores da estátua em chamas, durante a ação

Devolta.

Fonte: Revista Palavra Solta

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