Aids:adoençaeoestigma

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Juliana de Souza Soares, Marcus Vinícius Costa Lage

"Aids" - Intérprete: Léo Jaime Compositor: Léo Jaime e Leandro - 1988

No dia 3 de setembro de 1981, o Jornal do Brasil publicava uma nota intitulada “Câncer em homossexuais é pesquisado nos EUA”, reverberando a iniciativa dos “Centros Nacionais para Controle de Doenças” dos Estados Unidos em formar “uma equipe especial de 20 médicos para investigar o surgimento de tipos raros, porém mortais, de pneumonia e câncer principalmente entre homossexuais”. Anos mais tarde, a comunidade científica brasileira diria se tratar de uma das primeiras divulgações públicas no país da ainda desconhecida Síndrome de Imunodeficiência Adquirida (Aids, na sigla em inglês), doença causada pelo vírus da imunodeficiência humana (HIV).

De origem incerta, a Aids tornou-se uma epidemia global no início dos anos 1980. Os primeiros casos diagnosticados no Brasil datam de 1982 e 1983. O perfil dos primeiros soropositivos – homossexuais masculinos das classes média e alta – foi suficiente para que a opinião pública chegasse à apressada conclusão de quem eram os responsáveis pela contaminação. Em julho de 1985, por exemplo, o arcebispo do Rio, Dom Eugênio Salles, declarou ao Jornal do Brasil que a Aids era um castigo divino à homossexualidade e, não raras vezes, o HIV e sua enfermidade foram chamados, respectivamente, de “vírus e câncer gay”.

Duas pessoas em preto e branco, homem de terno levantando punhos, mulher sentada com lenço geométrico.Descrição da imagem: Esta é uma fotografia preto e branco de duas pessoas. Na parte superior, há um homem de terno claramente visível. Ele está levantando os punhos em gesto de poder ou protesto. Abaixo dele, outra pessoa está sentada, usando um lenço com padrões geométricos em sua cabeça. Esta segunda figura também tem os braços levantados, apesar de estar menos nítida.

Cazuza e Bené. https://www.flickr.com/photos/8914504@N03/6167932896

A expansão do HIV no mundo aconteceu após o movimento de liberalização dos costumes vivenciado nas décadas de 1960 e 1970. No entanto, em pouco tempo a Aids provou ser uma doença indiscriminada, transmitida pela prática sexual desprotegida, pelo contato com o sangue contaminado, pela gestação e amamentação. Ainda assim, o preconceito contra os soropositivos manteve-se intenso no país ao longo dos anos seguintes, motivando uma série de mobilizações da sociedade civil.

Lorna Washington em ato promovido pela Associação Brasileira Interdisciplinar de AIDS (ABIA) realizado no Cristo Redentor, em 1º de dezembro de 1988. Acervo: ABIA.

Manifestação contra a AIDS em preto e branco, com mulher segurando cartaz de solidariedade.Descrição da imagem: Esta é uma fotografia preto e branco de uma manifestação contra a AIDS. Na parte central, uma mulher segura um cartaz com o texto "SOLIDARIEDADE: ABRACE ESTE SENTIMENTO" e outros detalhes sobre a campanha. Ela está usando óculos e uma blusa branca. À sua esquerda, outras pessoas erguem braços com cartazes similares. Ao fundo, há uma estrutura metálica e uma grande cortina. A imagem foi capturada em 1º de dezembro de 1988 durante um evento promovido pela ABIA no Cristo Redentor.

O sociólogo e ativista dos direitos humanos Herbert de Souza, o Betinho, tornou-se o primeiro soropositivo a presidir uma organização não governamental de enfrentamento ao HIV e à Aids no Brasil, a Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids (ABIA), fundada em 1987, no Rio de Janeiro. Na esteira da ABIA, o Rio ainda veria nascer, em 1989, o Grupo Pela Valorização, Integração e Dignidade do Doente em Aids (VIDDA); organização não governamental criada por Herbert Daniel, homossexual, sociólogo e integrante da luta armada durante a ditadura militar no Brasil, responsável pela realização do primeiro Encontro Nacional de Pessoas Vivendo com HIV/Aids, também na capital fluminense, em agosto de 1991. Na cultura, a canção “Black and White – americanos” de Caetano Veloso denunciou os discursos dos religiosos, políticos e médicos contra os homossexuais.

Paralelamente, desde o final dos anos 1980, governos e instituições de pesquisa, como o Instituto de Medicina Social da Universidade Estadual do Rio de Janeiro e a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), lançaram-se em uma cruzada no combate ao vírus. Em 1988, foi criado o Programa Nacional de Aids e o Ministério da Saúde lançou, por ocasião do carnaval, a primeira campanha nacional de prevenção ao HIV, intitulada “Quem vê cara, não vê Aids”. Um dos principais motes da campanha era a propaganda pelo uso do preservativo sexual masculino, a popular “camisinha”.

Matéria do jornal O Globo em 21 de dezembro de 1986 - O Globo

Jornal em preto e branco de 1986 sobre AIDS no Brasil.Descrição da imagem: A imagem é um jornal em preto e branco, datado de 21 de dezembro de 1986, publicado pelo jornal "O Globo". A página apresenta vários artigos e colunas sobre a AIDS, com destaque para uma matéria principal sobre o risco de contaminação por milhão de pessoas no Brasil. As colunas estão organizadas em várias seções, com cabeçalhos e subtítulos em destaque. O título principal, "Sem prioridade, mal do século pode contaminar um milhão no Brasil", está em destaque na parte superior da página.

Em 1996, o governo federal deu um importante passo no controle da doença ao distribuir, por meio do Sistema Único de Saúde, os primeiros “coquetéis” medicamentosos antirretrovirais. Assim, em pouco mais de cinco anos, a mortalidade provocada pelas chamadas “doenças oportunistas” da Aids caiu cerca de 70% no Rio de Janeiro. Infelizmente dados recentes mostram que casos de contaminação pelo HIV voltaram a subir em virtude da “desdramatização” da enfermidade, que passou a ser vista como uma doença crônica e não mais fatal.

"Hanoi Hanoi" - Compositor: Arnaldo Brandão; Tavinho Paes Data: 1990

Outras memórias

Memória 1 de 4: Hanseníase: um estigma social antigo