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Rio Memórias

A irregularidade da cidade erguida no Morro do Castelo contrastava com a regularidade daquela que começava a se formar na várzea, com demarcação e abertura de ruas de trinta palmos. No sopé do morro, foram construídos o Forte de São Tiago e o hospital da Santa Casa de Misericórdia. É a partir da instalação da Santa Casa que surge a rua da Misericórdia – a primeira via aberta na parte baixa da cidade.

partimos todos nós; nela passaram os vice-reis, os malandros, os gananciosos, os escravizados, os senhores em redes; nela vicejou a imundície, nela desabotoou a flor da influência jesuítica… Dela brotou a cidade no antigo esplendor do Largo do Paço, dela decorreram, como de um corpo que sangra, os becos humildes e os coalhos de sangue, que são as praças ribeirinhas do mar.

Paulo Barreto (João do Rio)
Fotografia histórica de rua com carruagem e edifício clássico em 1928.Descrição da imagem: Esta é uma fotografia histórica em preto e branco de uma rua em uma cidade. Do lado esquerdo, vemos um edifício com arquitetura clássica, possivelmente de dois andares, com janelas arqueadas e balcões. À frente, há uma carruagem parada na calçada. No centro, um homem está de costas, olhando para o edifício principal. Este último, com fachada curvada, tem uma loja aberta no térreo com cortinas suspensas. Acima, há uma varanda com grades metálicas e janelas arredondadas. O céu está claro, e o chão é pavimentado com pedras. Na parte inferior da imagem, há uma inscrição datada de 7 de agosto de 1928.

Rua da Misericórdia por volta de 1928. Foto de Augusto Malta. Acervo: Instituto Moreira Salles

A rua da Misericórdia ia em direção à região da Lapa, de um lado, e do outro encontrava a rua Direita, no Largo do Carmo. E assim estava delineado o núcleo urbano da cidade, entre as ruas da Misericórdia e Direita, e o Largo do Carmo.

A Direita era um prolongamento natural da Misericórdia – basicamente a mesma rua que, originalmente, era chamada Caminho de Manoel de Brito. A via se estendia até a Prainha (atual Praça Mauá) e fazia a ligação entre os morros do Castelo e de São Bento. Foi a via mais importante da cidade até o século XIX. No tempo em que a região era à beira mar, chamavam-na, também, rua da Praia.

Pintura urbana animada com construções brancas e telhados vermelhos, pessoas caminhando e carrinhos de mão.Descrição da imagem: Esta é uma pintura que retrata uma cena urbana animada, provavelmente de uma cidade histórica. A imagem mostra uma rua larga com construções de dois andares, predominantemente de cor branca, com telhados vermelhos. À esquerda, há um edifício com uma varanda e balaustrada preta. À direita, há uma estrutura mais alta com uma torre. No centro da rua, várias pessoas estão caminhando ou se aglomerando em grupos. Algumas estão usando trajes formais, enquanto outras vestem roupas mais casuais. Há também alguns carrinhos de mão e um carro de duas rodas. No fundo, há uma colina com algumas construções e uma torre isolada. O céu está claro com algumas nuvens dispersas.

Rua Direita, a mais importante do Rio de Janeiro até o século XIX. Imagem atribuída a Félix-Émile Taunay, 1823.

Brasiliana Iconográfica

Até os anos 1800, o centro do comércio, os hotéis e as primeiras casas de pasto (estabelecimentos que antecederam os restaurantes) da cidade, ficavam na Rua Direita que, em 1875, passou a se chamar Primeiro de Março, em homenagem à vitória brasileira na batalha que marcou o fim da Guerra do Paraguai: a Batalha de Aquidabã.

Pintura urbana retratando ruas com arquitetura mista, campanário e bondes.Descrição da imagem: Esta é uma pintura que retrata uma rua urbana, provavelmente no Rio de Janeiro, conforme mencionado na legenda. A imagem mostra uma perspectiva ampla, com construções históricas nas laterais e um campanário distante no fundo. À esquerda, há edifícios com arquitetura clássica, enquanto à direita, prédios mais modernos com balcões e bandeiras são visíveis. No centro, o caminho está desenhado com trilhos de bondes, e pessoas caminham pela calçada. Na parte inferior da imagem, há uma assinatura e uma data, mas elas não são legíveis.

A rua Direita em 1895, já transformada em 1º de Março e com os trilhos do bonde. Pintura de Benno Treidler. Acervo Pinacoteca do Estado de São Paulo

Já o Largo do Carmo, foi o primeiro centro urbano da cidade e se chamou, inicialmente, Praia da Piaçaba, mudando de denominação ao longo do tempo: foi Largo do Terreiro da Polé – onde existia o Pelourinho da cidade; Largo do Carmo; Terreiro do Paço; Largo do Paço e, finalmente, Praça XV de Novembro, já no período republicano.

Até a década de 1770, o Largo do Carmo combinava as funções de porto comercial e principal lugar de desembarque de africanos escravizados. A partir da determinação do Marquês do Lavradio (Vice-rei de 1769 a 1778), deixou a função de porto escravista e assumiu a condição de área “nobre”, tornando-se a referência de centralidade na cidade até o século XIX.

Gravura de Largo do Paço com construções históricas e pessoas caminhando.Descrição da imagem: Esta é uma gravura mostrando um largo com várias construções históricas. Do lado esquerdo, vemos edifícios de estilo colonial, enquanto no centro há uma estrutura monumental com cúpula e detalhes ornamentais. À direita, há uma igreja com torres e cúpulas, e ao fundo, mais prédios históricos. No chão, pessoas estão sentadas ou caminhando, e um carrinho de mão está parado. O céu é claro com algumas nuvens. Na parte inferior da imagem, está escrito "Largo do Paço, Palácio, Capela Imperial e Carmo".

Largo do Paço com o chafariz do Mestre Valentim no centro e a Igreja do Carmo da Antiga Sé ao lado da Igreja da Ordem Terceira do Carmo, ao fundo. Carlos Linde, c. 1860. Coleção Brasiliana Itaú

Por sua importância como núcleo urbano, a medida que a estrutura administrativa da cidade migrava do alto do Morro do Castelo para a várzea, foi no Largo do Carmo que os prédios públicos foram construídos – tais como o Palácio dos Governadores, a Casa da Moeda e a Casa da Câmara e Cadeia.

A cidade tomou forma com as ruas transversais à rua Direita: Rua do Antônio Nabo (Rua São José), Rua dos Pescadores (Visconde de Inhaúma) e a Rua Detrás do Carmo (Rua do Carmo). As primeiras casas residenciais na várzea apareceram por volta dos anos 1630 e na transição entre os séculos XVI e XVII os atuais bairros de São Cristóvão, Irajá e Inhaúma começaram a ser habitados.

Referências:

BRASILIANA Fotográfica. Série Avenidas e ruas do Brasil XV – Misericórdia, rua, largo e ladeira, no Rio de Janeiro, por Cássio Loredano. Disponível em: https://brasilianafotografica.bn.gov.br/

_______________. Série “O Rio de Janeiro desaparecido” XXII – A Cadeia Velha, que deu lugar ao Palácio Tiradentes. Disponível em: https://brasilianafotografica.bn.gov.br

GERSON, Brasil. História das ruas do Rio. 6a edição. Bem-te-vi produções literárias: Rio de Janeiro, 2013.

GRANDELMAN, Luciana Mendes. A Santa Casa da Misericórdia do Rio de Janeiro nos séculos XVI a XIX. História, Ciências, Saúde Vol. VIII - set-dez. 2001

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Memória 1 de 4: Entre quatro colinas