O Rio Memórias tem como propósito conectar o carioca à história e à memória de seu território. Esta exposição é uma extensão desse compromisso: um convite para olhar o Centro do Rio de Janeiro entre tempos e observar as transformações ocorridas em seu espaço físico: aterramentos feitos a partir de restos e ruínas, edificações que se sobrepõem em curtos espaços de tempo, distintos estilos arquitetônicos que se misturam conectando diferentes tempos.

A seleção de doze edifícios emblemáticos do entorno em que nos encontramos dialoga com as memórias desse território. Eles refletem fases importantes da história política, econômica e social de nossa cidade e de nosso país e revelam nosso turbulento passado. São imagens que chegam até nós como um vendaval que nos arrasta irremediavelmente para o futuro e nos obriga a voltar o rosto para trás buscando uma centelha de esperança para a construção de uma cidade mais justa e democrática.

A exposição se organiza em dois momentos. Neste andar, estão reunidas imagens dos doze edifícios e suas transformações: o que foi demolido, o que ocupou o seu lugar e o que permaneceu.

No terraço, três painéis de orientação devolvem esse olhar à paisagem real, convidando o visitante a reconhecer, no skyline que dali se vê, os prédios que integram a história arquitetônica do Rio, dos tempos coloniais, materializados no edifício da Santa Casa de Misericórdia, ao Palácio Capanema, um ícone da modernidade, passando pelos ecléticos Theatro Municipal e Biblioteca Nacional.

Percorrer esta exposição é participar de um exercício coletivo de memória, o mesmo que orienta o trabalho do Rio Memórias. Olhar para o que existiu, reconhecer o que permanece e perguntar o que queremos preservar, transformar ou reconstruir. Ao sair, leve este olhar com você: muitos dos prédios e territórios aqui apresentados integram o Museu Virtual Rio Memórias, onde a pesquisa continua disponível, gratuita e aberta a novas contribuições.

Livia Baião Diretora - Rio Memórias

Estamos na Esplanada do Castelo, área central do Rio de Janeiro antes ocupada pelo Morro do Castelo. Aqui se estabeleceu e floresceu a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro depois de fundada pelos portugueses em terras tupinambás, junto ao Pão de Açúcar.

Apesar do Morro do Castelo ter sido o centro histórico e repositório da memória da cidade, a sua demolição vinha sendo urdida desde o início do século XIX. O desmonte começou em 1904, para a abertura da Avenida Central, e se intensificou entre 1920 e 1922. Em nome da modernização e da “higienização” urbana, seus 140 mil metros quadrados foram destruídos pelo trabalho de centenas de operários com dinamite, jatos de água, pás e escavadeiras. Junto com o morro, desapareceram cerca de 400 edificações, entre igrejas, fortaleza, convento, colégio, hospital, observatório astronômico e centenas de moradias populares.

No vazio que restou, o Rio ensaiou diferentes versões de si mesmo: da afrancesada reforma Pereira Passos, ao monumentalismo da Era Vargas, do rebuscado Mayapan ao racionalismo dos irmãos Roberto.

A presente mostra propõe um olhar sobre essas camadas sobrepostas no mesmo chão. Reúne arquivos e fotografias de diferentes épocas para contar a história de doze edifícios da região. Marcos que, em momentos distintos, representaram a ideia de um Rio “civilizado” e moderno. Além da arquitetura, o mobiliário da época e os icônicos brise-soleils dos prédios modernistas aproximam o visitante da dimensão material desse período, do objeto cotidiano ao detalhe construtivo que se tornou símbolo.

É esse o convite desta mostra: observar e pensar nas diferentes camadas da cidade que constituem a identidade carioca.

Joaquim Marçal de Andrade Curador


Bem aqui onde estamos, havia o Morro do Castelo onde funcionava a sede da cidade. Na primeira fotografia, podemos observar a fase inicial de seu desmonte com jatos d’água.

À direita, ocupando o espaço aberto pela remoção, vemos o edifício da Biblioteca Nacional, junto à Avenida Rio Branco. Ao seu lado, mais ao centro da imagem, a lateral do Theatro Municipal. Logo atrás, o Morro do Castelo como era nos anos 1910.

Na fotografia feita pelos alunos da antiga Escola de Aviação Militar do Exército, em 1938, o morro não existe, dando lugar à Esplanada do Castelo. Podemos ver, ainda, as instalações da XI Feira Internacional de Amostras, a montanha-russa do Parque Shangai, o Palácio Gustavo Capanema, ainda em construção, e o Palácio do Trabalho, concluído.


O primeiro edifício desta região, que aparece na fotografia sem vizinhos, pertencia à Associação Cristã de Moços. Inaugurado em 1929, foi demolido apenas 30 anos depois para dar lugar ao edifício Aliança da Bahia, sede da companhia seguradora de mesmo nome.

Projeto do Escritório Técnico Ramos de Azevedo, o prédio atual é revestido de mármore travertino com fachadas em pano de vidro e em brise-soleil, estabelecendo um interessante diálogo com o Palácio Gustavo Capanema, bem à sua frente. O edifício integra a área de proteção da ambiência daquele palácio, sendo um bem preservado pelo Instituto Rio Patrimônio da Humanidade (IRPH). Reformado sob a direção do arquiteto Ruy Rezende, é um belo exemplo de reabilitação de imóveis que marca a nossa cidade.


Esta é a antiga sede do Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio, erguida durante o governo de Getúlio Vargas, entre 1936 e 1938. Concebido pelo arquiteto Mário dos Santos Maia, é um exemplo típico da arquitetura do Estado Novo, e por esta razão tombado pelo Instituto Estadual do Patrimônio Cultural INEPAC em 1998.

Sua planta tem a forma da letra H: as quatro alas abrigavam as repartições, todas conectadas entre si pelos serviços gerais. Hoje, é a sede da Justiça do Trabalho da Região.


Esta imponente edificação de inspiração neoclássica nasceu da vontade do então ministro da Fazenda, Artur de Souza Costa, e foi concluída em 1943, seguindo projeto coordenado pelo engenheiro Ary Fontoura de Azambuja. A busca pela monumentalidade se traduz em um pórtico de mármore branco e suas colunas dóricas que se inspiram em templos da Grécia antiga.

Depois que a capital se mudou para Brasília, esta sede passou a abrigar os órgãos regionais ligados ao ministério, o Museu da Fazenda Federal e a Biblioteca Central.


Construído entre os anos 1937 e 1943, logo foi saudado como um marco da arquitetura moderna brasileira e mundial. Tombado pelo IPHAN, é considerado o primeiro edifício administrativo moderno do mundo. Sua implantação em centro de quadra, em meio a um pátio ajardinado, sobre pilotis, se destaca entre as edificações do entorno.

Um concurso para a nova sede do Ministério da Educação e Saúde desagradou o ministro Gustavo Capanema, que convidou Lúcio Costa para o projeto. Costa montou uma equipe com Affonso Eduardo Reidy, Carlos Leão, Jorge Moreira, Ernani Vasconcelos e Oscar Niemeyer, e trouxe Le Corbusier como consultor.

Recentemente, o edifício foi completamente restaurado, mas, por problemas técnicos, os brise-soleils da fachada norte foram retirados e ainda não foram reinstalados. Hoje, o edifício abriga diversos órgãos ligados ao Ministério da Cultura.


A Associação Brasileira de Imprensa, fundada em 1908, ganhou este edifício projetado pelos irmãos Marcelo e Milton Roberto, vencedores do concurso público nacional organizado em 1936 pelo então presidente da entidade, Herbert Moses. Concluído em 1938, destaca-se por integrar brise-soleils verticais em concreto armado às duas fachadas de esquina, os quais criam um recuo para as janelas frontais.

Nas palavras de Alfredo Brito, a generosa entrada da ABI, que surge de repente numa esquina movimentada, tem ares de praça, um convite à reunião e ao encontro das pessoas. O edifício foi tombado pelo IPHAN em 1984.


Mais uma criação dos irmãos Marcelo e Milton Roberto, aqui com um brise-soleil vertical fixo na fachada norte e uma trama estrutural, com esquadrias recuadas na fachada leste. Uma empena cega em curva se destaca sobre a esquina, tendo sido radicalmente modificada em uma reforma recente.

O prédio foi projetado para sediar o IAPI (Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Industriários), criado em 1936, no governo Vargas. O instituto foi responsável por erguer muitos conjuntos residenciais modernistas para trabalhadores nos bairros de Realengo, Penha e Del Castilho, nas zonas Oeste e Norte do Rio.


Projetado e construído pela firma Freire & Sodré entre 1938 e 1940, o Mayapan ganhou o apelido de "Bolo de Noiva" pelos ornamentos de sua fachada, que lembram o glacê de um bolo de casamento. O edifício pertenceu à Companhia de Imóveis do Rio de Janeiro.

Nos primeiros andares e no topo escalonado, suas pilastras têm um rendilhado elaborado de inspiração indigenista. O nome do edifício é uma homenagem a um sítio arqueológico no México, antigo centro cultural e político dos maias. O prédio guarda traços do Art Déco (estilo que celebrava o progresso e a modernidade), mas também evoca as exuberantes fachadas da América colonial espanhola.


O Museu de Arte Moderna inaugurou sua nova sede em etapas, a partir de 1958, no Parque do Flamengo. Ao projetar o edifício, Affonso Eduardo Reidy buscou criar um diálogo, conceitual e espacial, entre o bloco-escola, o espaço expositivo e o teatro. Os três estão integrados aos jardins de Burle Marx, que utilizou muitas pedras e espelhos d’água. O bloco de exposições se caracteriza por seu grande vão e por sua estrutura brutalista. O teatro foi construído posteriormente, não tendo seguido todas as indicações do arquiteto.

Em 1978, um incêndio devastador atingiu o bloco de exposições, sem comprometer a estrutura do edifício. Recentemente, o MAM Rio realizou ações de recuperação do seu patrimônio arquitetônico.


O prédio atual da Biblioteca Nacional é, na verdade, seu terceiro endereço, mas o primeiro pensado especialmente para as funções de uma biblioteca. A concepção do engenheiro Francisco Marcelino de Sousa Aguiar apostou nas técnicas mais modernas disponíveis no início do século XX. Havia um ‘aparelho condutor de livros’ e um sistema pneumático para transmissão de cilindros porta-mensagens. O saguão principal, os seis andares de armazéns de livros em estrutura metálica, com seu vão central, e as fachadas de inspiração neoclássica impressionam quem chega.

A Biblioteca Nacional é a memória viva da nossa cultura. Em cumprimento à Lei do Depósito Legal, guarda um exemplar de todas as publicações produzidas no país.


O edifício, grande obra do ecletismo, nasceu da fusão dos dois projetos vencedores do concurso de 1903, de Francisco de Oliveira Passos e Albert Guilbert. Inaugurado em 1909, o teatro se organiza em três partes bem distintas: o foyer, a sala de espetáculos e a caixa cênica.

Para João do Rio, era o grande teatro do Brasil e da América do Sul, um dos mais belos templos da arte moderna. Seu maior incentivador foi o dramaturgo Arthur Azevedo. mais de um século, o Municipal é a principal casa de espetáculos do país e mantém uma orquestra sinfônica, um coro e um corpo de balé.


Projetado pelo arquiteto Heitor de Mello e finalizado por Archimedes Memória e Francisque Cuchet, este palácio de arquitetura eclética foi inaugurado em 1923, buscando inspiração na Antiguidade e no Renascimento. É a sede da Câmara Municipal.

Ficou conhecido como "Gaiola de Ouro" por conta do alto custo de sua construção. De interior luxuoso, foi tombado pelo INEPAC (Instituto Estadual do Patrimônio Cultural) em 1978; seu nome atual homenageia o antigo prefeito, eleito em 1935. O palácio encontra-se elevado sobre uma escadaria, executada a partir da pedreira do Morro da Viúva.

No Hemisfério Sul, é a face norte dos edifícios a que recebe mais sol ao longo do ano. Por isso, muitos prédios modernistas protegem as janelas desse lado com o brise-soleil, um anteparo que esteve em alta justamente quando se construíram a ABI, o Palácio Gustavo Capanema, o Plínio Cantanhede e o Aliança da Bahia.

Tal solução foi defendida por Le Corbusier e pelos irmãos Roberto, cujo edifício da ABI repercutiu internacionalmente ao aplicar essa espécie de veneziana externa e fixa, capaz de reduzir a temperatura interna em até 5ºC.


Alguns arquitetos não apenas desenham o edifício, como também o mobiliário, a iluminação e até as placas de sinalização, assumindo a obra por inteiro. No Palácio Gustavo Capanema, Oscar Niemeyer e seus parceiros, como Lúcio Costa, desenharam ou escolheram balcões e parte dos móveis. No edifício da ABI, essa tarefa coube aos irmãos Roberto.

Nas imagens, vemos a antiga Biblioteca do Ministério da Educação e Saúde Pública e o atual gabinete ministerial do Palácio Capanema. Do edifício da ABI, vemos a sala da presidência no andar e o salão dos associados no 11º andar, que ainda se mantêm assim. Estes móveis são testemunhas de uma época, os anos 1930, quando a produção em série ganhou impulso com o uso da madeira compensada e da lâmina moldada.


A cartografia é a arte de demarcar os espaços e sua topografia por meio de mapas e plantas. Curiosamente, na história da humanidade os mapas surgiram antes mesmo da escrita.

No primeiro, um atlas publicado em Londres em 1871, elaborado a partir do levantamento topográfico que Edward Gotto realizou em 1866, está assinalado o Morro de Santo Antônio e à sua direita, o Morro do Castelo. No segundo, uma perspectiva aérea, a Esplanada do Castelo aparece no projeto do arquiteto e urbanista Alfred Agache, contratado entre 1927 e 1930 para elaborar um plano para a cidade, o qual foi parcialmente executado. Por fim, uma perspectiva do Centro, editada em 1965, por ocasião do Quarto Centenário do Rio de Janeiro.