Zungus

Tempo de leitura 2 min

Rio Memórias

Os zungus foram lugares muito importantes para escravizados e libertos do Rio no século XIX. Formavam uma “comunidade invisível” de solidariedade.

Nas línguas de tronco banto, zungu pode ser entendido como “toca” ou “buraco” (língua quimbundo); ou "casa de angu", pela junção das palavras "nzu" - que quer dizer casa - e “ungu” - uma aproximação com a palavra angu (língua kigongo). No Rio, os zungus eram espaços localizados na região central da cidade, que serviam de moradia, local para práticas religiosas, festas, capoeira e como esconderijo de escravizados em fuga.

Negras vendendo angu na praia. Fonte: DEBRET, Jean Baptiste. Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil.

Pintura de mercado ao ar livre com figuras coloridas e alimentos.Descrição da imagem: Esta é uma pintura que retrata uma cena de mercado ou feira ao ar livre. A imagem está dividida em duas partes principais: a esquerda e a direita. Na parte esquerda, vemos uma figura de perfil, vestindo um manto amarelo com padrões dourados, segurando um recipiente azul. Ao seu lado, há uma bandeja branca com flores vermelhas. No fundo, há uma figura de pé, usando um vestido verde e segurando um chapéu de palha. À distância, vemos uma estrutura metálica, possivelmente um navio. Na parte direita, várias figuras estão organizadas em torno de grandes panelas vermelhas contendo alimentos. As pessoas estão usando roupas coloridas, incluindo tecidos azuis, amarelos e vermelhos. Uma figura segura um guarda-sol rosa. Há também uma figura de pé, usando um manto azul claro, com uma cabeça coberta por um lenço branco. A iluminação sugere que a cena ocorre durante o dia, com o sol brilhando sobre os participantes.

Eram casas escondidas entre os demais edifícios urbanos, com suas fachadas estreitas, longos corredores e pátios abertos no meio da construção. Em sua maioria, eram comandados pelas quitandeiras da praia do Peixe que, em solidariedade, serviam angu para outros escravizados urbanos, vindo daí a alcunha “casa de angu”. Circulavam pelos zungus muitos escravizados de ganho, libertos, recém-chegados do continente africano, escravizados vindos da Bahia e outras cidades que, misturados, dificultavam o trabalho da polícia de identificar quem era fugitivo e quem não era. A associação dos zungus com espaços para refeição também colaborou para que ficassem por muitos anos invisíveis aos olhos da repressão policial, que não enxergavam neles o mesmo perigo com que viam os quilombos. Essa invisibilidade foi fundamental para que os zungus se multiplicassem.

Mercado da praia do Peixe nos anos finais do século XIX. Juan Gutierrez. Museu Histórico Nacional

Mercado antigo com mulheres carregando cestos de frutas.Descrição da imagem: Esta é uma fotografia antiga em preto e branco, mostrando um mercado animado. Na esquerda, duas mulheres carregam grandes cestos de frutas sobre suas cabeças. À frente delas, um homem de costas está também segurando um grande cesto. No centro, várias pessoas estão organizando e vendendo produtos em cestos empilhados. Ao fundo, há construções com telhados inclinados e uma estrutura circular com uma cobertura. A direita, outros indivíduos estão envolvidos em atividades comerciais.

Nos anos finais da escravidão, os zungus já eram espaços conhecidos e combatidos pela polícia, que chegava a eles por meio de denúncias e realizava batidas para acabar com os “batuques”, levando à prisão escravizados e muitos libertos. Mas isso não era suficiente para que a população negra urbana deixasse de frequentar os zungus, fazendo com que eles existissem mesmo após a abolição.

A Casa da Tia Ciata, que nos anos finais do século XIX atuou como um importante espaço para a difusão do samba e demais manifestações culturais da população negra, para muitos estudiosos, representa uma vertente desses zungus do século XIX.

Outras memórias

Memória 1 de 4: Quilombo do Leblon