RevoltadoVintém

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Danilo Araujo Marques

“Eu necessariamente hei de ter andado à baila”, disse D. Pedro II sobre a imagem de seu governo após a turbulenta semana de protestos que varreu as ruas do Rio de Janeiro, na virada de 1879 para 1880. O estopim da Revolta do Vintém foi a aprovação de um projeto de lei que aumentava em vinte réis – valor equivalente a um vintém – a passagem dos bondes na capital do Império.

Os protestos começaram em 28 de dezembro de 1879, quando uma multidão se reuniu no campo de São Cristóvão, para ouvir o republicano Lopes Trovão disparar broncas contra a nova medida econômica. De lá, saiu uma passeata rumo ao Palácio da Boa Vista, com o propósito de levar ao imperador uma petição para a revogação da lei.

Na sua primeira edição em 1880, a Revista Illustrada de Angelo Agostini publicou uma narrativa em imagens dos acontecimentos em torno da Revolta do Vintém – Discurso de Lopes Trovão. Ligeiros croquis sobre os acontecimentos nos primeiros dias do anno 1880 na Côrte. Revista Illustrada, Rio de Janeiro, 7 de janeiro de 1880, Ano 5, n. 189. Hemeroteca da Biblioteca Nacional.

Gravura preto e branco de um evento público com multidão e homem falando.Descrição da imagem: A imagem é uma gravura em preto e branco. Na parte superior, vemos um edifício com cúpula e uma lanterna. Abaixo dele, há uma multidão de pessoas reunidas em um local aberto. À direita, um homem está em pé, segurando um papel com a inscrição "Requeiram em termos". Ele está falando para a multidão. A cena parece ser de um evento público importante.

Mas o pelotão da cavalaria impediu o acesso ao “portão da coroa”. D. Pedro II tentou, em vão, voltar atrás e mandou dizer que estaria disposto a receber uma delegação dos manifestantes. Dessa vez, foi Lopes Trovão quem não aceitou a oferta. A crise estava lançada.

Em 1º de janeiro de 1880, data marcada para o início de cobrança da nova tarifa, cerca de quatro mil pessoas se recusaram a usar o transporte público e se concentraram no largo do Paço para uma nova passeata. Os manifestantes entraram na rua Direita, atual Primeiro de Março, seguiram até a rua do Ouvidor e pegaram a reta que dá no largo de São Francisco.

Ligeiros croquis sobre os acontecimentos nos primeiros dias do anno 1880 na Côrte. Revista Illustrada, Rio de Janeiro, 7 de janeiro de 1880, Ano 5, n. 189. Hemeroteca da Biblioteca Nacional.

Multidão em frente ao Hotel de France, com cúpulas e cachorro.Descrição da imagem: A imagem é uma gravura em preto e branco. Mostra uma multidão de pessoas reunidas em um local público, possivelmente em frente a um edifício importante. A esquerda, há um grande edifício com o nome "HOTEL DE FRANCE" visível. À direita, há uma estrutura arquitetônica com cúpulas, provavelmente um monumento ou igreja. No centro, a multidão está aglomerada, alguns estão conversando enquanto outros observam. Há também um cachorro caminhando entre os pedestres. Na parte inferior da imagem, há uma legenda que lê: "Forros ao Largo do Paço: Crescido numero de pessoas lá se achava. À espera do meeting anunciado".

No caminho, derrubaram bondes, espancaram condutores, esfaquearam animais usados como força de tração, retiraram trilhos e ergueram barricadas. O Exército foi enviado para controlar a situação. Em meio ao confronto, o comandante, barão do Rio Apa, levou uma pedrada, e a reação veio à bala. Ao final do dia, o saldo foi de três mortos e quinze feridos.

Ligeiros croquis sobre os acontecimentos nos primeiros dias do ano 1880 na Corte. Revista Illustrada, Rio de Janeiro, 7 de janeiro de 1880, Ano 5, n. 189. Hemeroteca da Biblioteca Nacional.

Gravura preto e branco mostra confronto entre soldados e civis.Descrição da imagem: A imagem é uma gravura em preto e branco. Mostra uma cena de confronto entre soldados e civis. Na esquerda, soldados com fuzis estão avançando. No centro, um grupo de pessoas tenta se proteger atrás de um carro que está sendo atingido por tiros. À direita, outros civis correm para longe, alguns caídos no chão. O texto na parte inferior da imagem lê: "Essa ordem não se fez muito esperar. Perto das 5 horas da tarde, a tropa, depois de uma tremenda carga à baioneta, dividiu-se em pelotões e foi logo atirando até em famílias que estavam à janela! E sem a menor imaginação!"

Os confrontos se estenderam até o dia 4 de janeiro, quando a chamada Lei do Vintém foi revogada. Mas não estancou o desgaste na imagem de Sua Majestade: nascido e criado com aclamações por onde passava, D. Pedro II teve de aprender a conviver com a hostilidade de uma população revoltada bem debaixo de suas barbas.

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