RevoltadasCarnesVerdes

Tempo de leitura 2 min

Danilo Araujo Marques

No início do século XX, o abastecimento de carne no Rio de Janeiro era monopólio da Empresa de Carnes Verdes, uma concessão do Governo Federal. Só que o acesso à iguaria era privilégio de poucos. Em um quilo de carne, o corte mais destacado era o de classe: quem não tinha recursos acabava comprando na mão de contrabandistas.

O produto saía do Matadouro Municipal de Santa Cruz e era distribuído pelos açougues da cidade. Nos primeiros meses de 1902, a concessão do monopólio estava próxima do vencimento. E tinha muita gente de olho naquele quinhão. O jogo de interesses explodiu no dia 26 de fevereiro, quando a porta da redação do jornal Correio da Manhã amanheceu repleta de vísceras podres.

O cheiro forte denunciava a qualidade das carnes comercializadas pela Empresa de Carnes Verdes, mas não havia como provar. O certo é que, nos dias seguintes, o jornal cobriu o caso sob o título “Fígado apostemado”. O escândalo foi tão grande, que um processo chegou a ser aberto no Tribunal Civil e Criminal, e o juiz Gama e Souza liberou de vez a venda de carnes.

Até a demissão do prefeito Xavier da Silveira, o semanário humorístico Tagarela acompanhou e ironizou a chamada “questão das carnes verdes”.

Tagarela, 29 de março de 1902, n.5. Hemeroteca da Biblioteca Nacional

Fragmento de jornal antigo sobre Matadouro e Matta d'ouro, Revolta das Carnes Verdes.Descrição da imagem: A imagem é um fragmento de um jornal ou revista antigo, apresentando uma coluna de texto em preto e branco. A disposição espacial vai da esquerda para a direita, começando com uma borda superior curvada e terminando com uma linha horizontal no final. O texto está alinhado à esquerda e é escrito em português. As letras são claras e facilmente legíveis. Não há cores visíveis além do preto e branco. O texto menciona "Matadouro" e "Matta d'ouro", referências a locais ou pessoas específicas relacionados à Revolta das Carnes Verdes.

Tagarela, 5 de abril de 1902, n.6. Hemeroteca da Biblioteca Nacional

Texto alternativo em português do Brasil:

"Imagem de documento antigo em preto e branco com texto vertical.Descrição da imagem: A imagem é uma fotografia de um documento antigo em preto e branco. No centro, há um texto em português escrito à mão. O texto está disposto verticalmente, com letras grandes e claras. À esquerda, há uma borda preta que parece ser parte do papel onde o texto está escrito. Não há elementos visíveis além do texto e da borda preta.

A produção explodiu e foi um pesadelo para o serviço de higiene pública, que perdeu o controle da inspeção. Para evitar uma epidemia de tuberculose e febre aftosa decorrente do abate indiscriminado de animais doentes, o jeito foi recolher e incinerar os produtos suspeitos que estivessem em circulação - geralmente, aqueles de procedência e qualidade duvidosas.

O confisco e inutilização da carne barata despertou a fúria da população. Carroções de distribuição da mercadoria foram saqueados. E onde quer que a cavalaria chegasse, era recebida com paus, pedras e tiros. Bondes, trilhos e paralelepípedos viraram material para barricadas. Após quatro dias, em 8 de março, a situação nas ruas estava tão desarranjada, que o prefeito Xavier da Silveira pediu afastamento do cargo.

Tagarela, 7 de junho de 1902, n.15 Hemeroteca da Biblioteca Nacional

Capa de revista humorística de 1902, "Tagarela", com desenhos e retratos.Descrição da imagem: A imagem é uma capa de revista humorística datada de 7 de junho de 1902, intitulada "Tagarela". A disposição espacial começa pela esquerda, onde há um desenho caricaturesco de um homem com barba, seguido por uma série de pequenos desenhos representando diferentes personagens. No centro, há um grande retrato de um homem vestindo um terno e segurando um livro. À direita, há mais desenhos e um texto em destaque. O fundo apresenta detalhes como assinaturas e logotipos.

O presidente Campos Sales interveio e decretou o fim do monopólio. Bom para a concorrência, ruim para os amotinados. O mercado foi aberto, mas a fiscalização virou regra. E, com a inibição da via clandestina, em poucos dias, o preço da carne disparou.

Outras memórias

Memória 1 de 4: Os golpes militares de uma República titubeante