Praias

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Rio Memórias

Do Leme ao Pontal Não há nada igual Do Leme ao Pontal Não há nada igual Do Leme ao Pontal

Tim Maia

Entre as referências mais fortes das belezas da cidade do Rio de Janeiro estão suas praias oceânicas. Pra começar — e sempre bom lembrar — a praia de Copacabana, mas junto vem a de Ipanema com sua Garota, e logo a seguir, a do Leblon com seus inocentes — só para associar a canções e poemas mais conhecidos. Seguindo a linha do mar, surgem outras praias tão belas quanto frequentadas nos dias de sol, caminhando em direção à zona oeste da cidade, num sem-fim de areias brancas que, por vezes, como na Prainha, são cercadas por montanhas verdes, formando um cenário natural que encanta.

Praia com montanha ao fundo, colina verde à esquerda, penhasco central, ondas azuis, céu azul claro.Descrição da imagem: Esta é uma fotografia de uma praia com uma montanha ao fundo. Do lado esquerdo, há uma colina coberta de vegetação verde. À medida que nos movemos para a direita, a montanha se torna mais pronunciada, com um penhasco destacado no centro. A praia está localizada no meio da imagem, com ondas azuis batendo nas areias claras. No primeiro plano, há plantas verdes que se projetam para frente. O céu é azul claro com algumas nuvens brancas.

A Prainha, na zona oeste. Pedro Kirilos, Riotur

O Rio de Janeiro é uma cidade praiana, como reconhecem — e celebram — muitos cariocas e visitantes. Mas, suas praias nem sempre foram frequentadas. Na cidade colonial, o litoral oceânico era considerado fora dos limites da cidade, era visto como um local selvagem, de águas bravias e difícil acesso. Já as praias da baía de Guanabara, de pouca areia e pedregosas, eram lugar de se jogar os dejetos da cidade, onde se acumulava lixo e de onde provinha mau odor. As aves que se alimentavam de restos e detritos eram as suas frequentadoras mais comuns e a maresia chegou a ser considerada uma emanação de fluidos contaminantes. Nas praias nas quais se desenvolvia a atividade de pesca, não poucas vezes se despejava os rebotalhos das redes e tarrafas.

Foi no século XIX que se inaugurou um novo tempo para as praias cariocas. O príncipe Dom João, antes mesmo de ser coroado rei no Brasil, passou a mergulhar na Praia do Caju para tratar um problema de pele, passando inclusive a utilizar uma residência no local como sua casa de banho. A praia como lugar medicinal tinha começado a ser avalizada por estudos de saúde europeus. E o banho de mar passou a ser visto cada vez mais como prática terapêutica, com uma série de regras que o cercavam: tinha que ser muito cedo, mal despontava o dia, e de curta duração. A partir de meados deste século, algumas paisagens de praia, vistas como lugar de passeio romântico, surgiram na literatura, como no romance A Moreninha, de Joaquim Manuel de Macedo, publicado em 1844. Nos dois casos, eram as praias da baía a que se fazia referência.

Pintura costeira com árvores, casas e rio.Descrição da imagem: Esta é uma pintura que retrata uma cena costeira. Do lado esquerdo, vemos uma linha de árvores verdes que se estende até o horizonte. À frente delas, há algumas casas com telhados de telha vermelha. No centro, um pequeno edifício com uma entrada central é destacado. À direita, mais casas e construções são visíveis, incluindo um grande edifício com várias janelas. No primeiro plano, o rio está calmo, refletindo as casas e árvores. Várias barcas estão amarradas à margem do rio, com pessoas dentro delas.

Imagem atribuída à Praia do Caju, onde D. João passou a se banhar no séc. XIX. “Saco do Raposo – Retiro Saudoso”, 1910

Gustavo Dall´Ara. Enciclopédia Itaú Cultural

As praias oceânicas só entram no mapa social da cidade a partir dos anos 1920, como local de moradia de setores privilegiados que podiam se dar ao luxo de estar a tal distância do centro, onde se concentravam as atividades laborais. A inauguração do Hotel Copacabana Palace, em 1923, é um marco nesta história. Copacabana, da metade dos anos 1940 em diante, ganha lugar como bairro de elite e, aproximadamente uma década mais adiante, Ipanema — até então considerada um local muito afastado e pouco atraente — surge neste cenário em que a praia se transforma, cada vez mais, em espaço de lazer.

Praia antiga com hotel, calçada, muelle, ondas e montanhas.Descrição da imagem: Esta é uma fotografia antiga em preto e branco de uma praia com edifícios ao fundo. Do lado esquerdo, há um grande hotel com muitas janelas e balcões. À frente dele, há uma calçada com pessoas caminhando e alguns carros antigos. Ao centro, há uma estrutura de madeira que parece ser um muelle ou ponte. À direita, a praia é vista com ondas batendo nas pedras. No fundo, há montanhas cobertas por vegetação. A data "Rio-5-7-1925" está escrita na parte inferior esquerda da imagem.

Fachada do Hotel Copacabana Palace, 1925. A partir dos anos 1940, Copacabana se torna um bairro elitizado. Augusto Malta. Instituto Moreira Salles

Os bairros costeiros da zona sul se tornam referências de atividades esportivas, de exposição ao sol e expressões de modernidade. Tudo isso ainda dentro de um recorte de classe, motivado não apenas pelo perfil socioeconômico dos bairros, mas pela mobilidade urbana. Nos anos 1970, começam a haver mudanças neste contexto e, especialmente na década de 1980, a inauguração das linhas de ônibus que cruzam os túneis da cidade, até então inexistentes, alteram significativamente a frequência à orla oceânica carioca.

Praia lotada com guarda-sóis coloridos e pessoas na areia e na água.Descrição da imagem: Esta é uma fotografia preto e branco de uma praia lotada. Do lado esquerdo para o centro, vemos muitos guarda-sóis coloridos dispostos em fileiras. No centro, há pessoas caminhando e se divertindo na areia. À medida que nos movemos para a direita, vemos mais guarda-sóis e pessoas na água, onde alguns estão nadando. No fundo, há um grande edifício com muitas janelas.

Praia de Copacabana lotada, janeiro de 1972. Arquivo Nacional / Fundo Correio da Manhã

Aos poucos, e com a construção de vias rápidas, a Barra da Tijuca e praias da zona oeste entram no circuito praiano de moradores do subúrbio e baixada fluminense. As praias passaram, então, a serem vistas como lugares democráticos, onde todos da cidade poderiam usufruir de um lazer prazeroso e gratuito. No entanto, continuam a ser reivindicadas por uma parte significativa dos moradores dos bairros de praia como seu lugar de privilégio. Revelando de forma bem-humorada e assertiva esta postura e a disputa, ainda nos anos 1980, surgiu a expressão que depois se popularizou: “nós vamos invadir sua praia”, que ainda continua, de certa forma, atual.

Os arrastões, e, por outro lado, as fiscalizações sobre os passageiros dos coletivos que se dirigem nos finais de semana à zona sul da cidade — jovens, pretos e pobres, sempre — reiteram este refrão. Ainda assim, as praias são cada vez mais alcançadas pela população de bairros não costeiros, e os setores mais privilegiados acabam se distanciando delas. O augúrio “amanhã vai dar praia” é frase acompanhada de um sorriso na boca de muitos cariocas.

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