Poesiaepoetas

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Rio Memórias

Se no século XIX, ser poeta no Rio de Janeiro da corte de Pedro II era uma ocupação reservada aos jovens estudantes e aos oradores de plantão, com a profissionalização do meio literário a poesia ganhou papel de destaque – ao menos para os críticos e o mercado editorial.

Após o sucesso de escolas simultâneas francesas, que definiam estilos de poesia – majoritariamente os parnasianos e os simbolistas –, as transformações que surgiram a partir dos modernismos que eclodiam em diferentes cidades brasileiras na década de 1920 fez com que os fazedores de versos ampliassem vocabulários e assuntos.

Alberto de Oliveira, Raimundo Correia e Olavo Bilac – poeta parnasiano. Foto: site "Templo Cultural de Delfos"

Três homens em ternos escuros e gravatas sentados lado a lado.Descrição da imagem: Esta é uma fotografia preto e branco de três homens sentados lado a lado. A partir da esquerda para a direita, o primeiro homem está com os braços cruzados sobre o joelho, vestindo um terno escuro e uma gravata. O segundo homem está com as mãos entrelaçadas no colo, também usando um terno escuro e uma gravata. O terceiro homem está com as mãos descansando sobre o joelho, usando um terno escuro e uma gravata. Todos estão sentados em cadeiras de madeira.

Durante o romantismo, muitas vezes, a poesia estava a serviço dos afetos mais agudos – fossem eles o amor trágico, ou o engajamento político. Com a incorporação da cidade na paisagem do poema, a poesia carioca se transformou aos poucos, ainda que muitos dos principais poetas que cantavam a cidade não fossem nascidos no Rio de Janeiro – casos principais de Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade, mas também de Jorge de Lima e Murilo Mendes.

Apesar de nomes famosos no meio literário, como Augusto Frederico Schmidt e sua poesia palavrosa e antiga, e de dezenas de poetas sem grande projeção para além dos círculos letrados, apenas na década de 1930 surgiu um poeta como Vinícius de Moraes, carioquíssimo e moderno à sua maneira.

Vinícius de Moraes e Maria Bethânia em 1972 – Fundo Correio da Manhã - Arquivo Nacional

Dois amigos conversam em um sofá, um toca guitarra e fumaça.Descrição da imagem: Esta é uma fotografia preto e branco de duas pessoas sentadas em um sofá. A mulher está à esquerda, vestindo uma blusa branca com os braços cruzados sobre o peito. Ela olha para o homem à sua frente. O homem está tocando uma guitarra acústica e fumaça de cigarro sai de sua boca. Ele está usando uma camisa preta e tem cabelos curtos. Ambos estão em um ambiente interno simples, com paredes claras ao fundo.

Seus primeiros livros foram voltados para um pendor místico e grandiloquente, mas, aos poucos, o criador de poemas definitivos sobre a cidade começaria a se popularizar. Vinícius trouxe no título de muitos de seus versos uma série de bairros como Ilha do Governador, Botafogo, Copacabana, Lapa, Vidigal, o Mangue e o (morro do) Cavalão, além de comentários mordazes sobre a evolução arquitetônica, em poemas como “A cidade em progresso”.

Existia, e ainda existe Um certo beco na Lapa Onde assistia, não assiste Um poeta no fundo triste No alto de um apartamento Como no alto de uma escarpa.

Em dias de minha vida Em que me levava o vento Como uma nave ferida No cimo da escarpa erguida Eu via uma luz discreta Acender serenamente.

Era a ilha da amizade Era o espírito do poeta A buscar pela cidade Minha louca mocidade. Como uma nave ferida Perambulando patética.

E eu ia e ascensionava A grande espiral erguida Onde o poeta me aguardava E onde tudo me guardava Contra a angústia do vazio Que embaixo me consumia.

Um simples apartamento Num pobre beco sombrio Na Lapa, junto ao convento... Porém, no meu pensamento Era o farol da poesia Brilhando serenamente.

Lapa de Bandeira - poema de 1962 dedicado a Manuel Bandeira

Após um período em que a poesia atravessou as inovações de vanguardas construtivistas e engajamentos políticos, um outro momento de eclosão da poesia carioca, que falava a linguagem urbana de suas ruas apareceria na chamada “poesia de mimeógrafo” - geração de jovens que circulavam por bairros da zona sul, zona norte e universidades.

Chacal, Charles, Ronaldo Santos, Luiz Olavo Fontes, Ana Cristina César ou Bernardo Vilhena faziam da gíria carioca, da geografia dos morros, dos amores de praia, do medo das ruas silenciosas durante a ditadura civil-militar e das vidas em trânsito entre o Arpoador, o Parque Lage, São Cristóvão ou Copacabana, temas centrais em seus versos crus e diretos.

Chacal e Charles, Rio de Janeiro, c. 1970. Acervo Pessoal Charles Peixoto - Foto de Roberto Cattan, retirada do site Rio & Cultura

Dois homens sorridentes abraçados, memória pessoal sobre poesia.Descrição da imagem: Esta é uma fotografia preto e branco de dois homens sorridentes. O homem à esquerda está com os braços ao redor dos ombros do homem à direita. Ambos têm cabelos longos e cacheados. O homem à direita está usando um top branco. A imagem parece ser de uma memória pessoal, relacionada a "Poesia e poetas".

O baiano Waly Salomão, outro poeta fundamental desse período, também comentava as ruas da cidade em longos poemas, como “Roteiro Turístico do Rio de Janeiro”, publicado em seu livro de estreia Me segura que eu vou dar um troço, de 1972.

Entre as formas fixas e clássicas da geração entreguerras, no século XX, e as formas livres e independentes dos poetas da década de 1970, o Rio continuou sendo tema de novas gerações que apareceram na cidade e souberam incorporar sua presença em seus versos. Carlito Azevedo foi um dos que fez do cenário da cidade uma presença latente em frestas de poemas que atravessam da avenida Rio Branco aos “reflexos de cobre da Lagoa”, do vento que sopra na Gávea até a “lua muçulmana” que brilha na Urca.

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Memória 1 de 4: Escritas de uma cidade partida