Pipa

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Rio Memórias

A sensação de soltar uma pipa, olhar para o céu e observá-la voando com suas cores e elegância não tem preço! É imaginar uma extensão do corpo voando sobre telhados, antenas de TV e fios de luz. É dominar o espaço e controlar o vento. Mas é também desenhar estratégias de guerra, aplicar conceitos de física e escapar das armadilhas dos ‘adversários’. Evitar que sua pipa seja cortada para, então, cortar a do outro, apará-la no ar pela rabiola e trazê-la até o chão, vencendo a batalha.

No Rio de Janeiro, soltar pipa é atividade quase profissional – como eram os balões antes de serem proibidos. Atualmente, é mais praticada nos bairros dos subúrbios e comunidades e já virou até lei.

Um grupo de pessoas em telhado com pipas, edifícios e teleféricos ao fundo.Descrição da imagem: A imagem é uma fotografia de um grupo de pessoas em um telhado, com várias construções ao fundo. Do lado esquerdo, há um edifício azul claro com uma estrutura arredondada no topo. À frente, estão seis indivíduos de pé, alguns segurando objetos que parecem ser pipas. À esquerda, um homem de camiseta azul está olhando para cima. Ao centro, dois homens estão concentrados em suas atividades. À direita, três homens estão também envolvidos em suas pipas. No fundo, há teleféricos suspensos sobre o telhado. O céu está parcialmente nublado, com linhas elétricas cruzando o espaço.

Bruno Itan - Festival de pipas no Complexo do Alemão – 2020

Em outubro de 2019, a Lei 8562/19 regulamentou os “pipódromos" como espaços públicos para a prática de soltar pipas, em caráter recreativo ou de festivais, em todo o Rio de Janeiro.

Inventada pelos chineses há mais de três mil anos, as pipas têm importante papel na história mundial. Foram usadas, naquele tempo, como dispositivo de sinalização militar, aproveitando-se de seus muitos formatos e cores possíveis. Benjamin Franklin usou uma pipa presa a um fio de metal para desenvolver a teoria que deu suporte à invenção dos para-raios. Santos Dumont se inspirou nela para construir o seu 14 Bis.

As pipas foram trazidas para o Rio de Janeiro por colonizadores portugueses, no século XVI. Juntamente com os sinos, elas atuavam como sinalizadores da vida na colônia, advertindo e celebrando. Na Sexta-Feira Santa, os portugueses tradicionalmente realizavam festivais de pipa. Com o tempo, a brincadeira tomou conta das regiões que permaneciam na fila de espera da modernização.

Os bairros da zona norte e favelas da zona sul passaram a ter seu céu coalhado das formas mais variadas dessas aves artificiais. O avanço da brincadeira fez com que as pipas adquirissem importância semelhante à dos balões.

Pipeiros e baloeiros se reuniam em confrarias e monopolizavam as muitas áreas altas, abertas e ainda não desenvolvidas da zona oeste. Nas praias, foi inventado o ‘papagaio’: pipas industrializadas, feitas de materiais diversos, com a forma da ave. Mas como não tinham a flexibilidade das artesanais, foram perdendo espaço.

Crianças brincando com pipas em cena urbana preto e branco, 1974.Descrição da imagem: Esta é uma fotografia preto e branco de uma cena urbana. Do lado esquerdo, vemos um prédio de apartamentos com muitos andares e janelas. À frente, há duas crianças brincando com pipas. A criança mais próxima está segurando a pipa, enquanto a outra está correndo atrás dela. No fundo, há uma colina coberta de vegetação. A imagem foi tirada em 1974, conforme mencionado na legenda do site.

Crianças soltando pipa, com os prédios da Cruzada São Sebastião ao fundo, 1974. Fotógrafo desconhecido. Facebook Rio Antigo - Memórias

No passado, soltar pipa envolvia uma maratona, que começava com a compra dos diversos itens: papel fino colorido, linha 10 (a mais comum por ser forte e leve) e bambu. A cola era feita com o que havia na cozinha: resto de arroz molhado ou farinha de trigo dissolvida em água.

Pipas voando sobre praia, com homens segurando fios.Descrição da imagem: A imagem é uma gravura em preto e branco. Mostra um desenho de duas pipas voando sobre uma praia. À esquerda, está uma pipa com longas caudas de papel. À direita, há outra pipa com cauda mais curta. Abaixo delas, na praia, estão dois homens segurando os fios das pipas. Ao fundo, há um rolo de linha e um carretel. À direita, está um cilindro de linha. No canto superior direito, está escrito "Modelo". Na parte inferior direita, está escrito "Varetas Papel Fino". No canto inferior direito, está escrito "Lata de Linha". No canto inferior esquerdo, está escrito "Carretel". No canto superior esquerdo, está escrito "Pipa Papagaio Pandorga". No canto superior direito, está escrito "Alcides". No canto inferior direito, está escrito "30-7-20".

Para fazer uma pipa – Gravura de Alcides Oliveira - 2020

Era comum aos soltadores de pipa o uso do perigoso cerol (proibido), mistura de pó de vidro com cola passada na linha para facilitar o corte às pipas dos adversários. Uma das maneiras de moer o vidro era colocá-lo no trilho do bonde. Depois de moído, era retirado com um papelão e misturado à cola de madeira. Em seguida, o cerol era passado na linha, esticada entre dois postes. Depois de seca, a linha era cuidadosamente enrolada numa lata, tomando-se muito cuidado para não cortar a mão. Outra técnica para ‘cortar’ as pipas ‘inimigas’ era prender na rabiola (com um pedaço de fósforo) uma gilete cortada ao meio.

Assim como o uso do cerol (proibido no estado desde a década de 1990), também foi desaparecendo a arte de fazer pipa de forma manual. Atualmente, as lojas já vendem pipas prontas para soltar, incluindo linha, cabresto e rabiola.

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