Paulo Corrêa de Araújo, que você conhece como o cantor e compositor Paulinho Moska, tem uma característica rara: estar sempre no lugar certo, na hora certa.
Para começar, ele cresceu escondido embaixo de uma mesa de som. Seu pai era diretor comercial da Concha Verde — casa noturna da Zona Sul que depois se tornaria as Noites Cariocas, um dos epicentros do rock brasileiro dos anos 1980 —, e o menino frequentava o lugar como quem frequenta a sala de casa, só que com Caetano Veloso, Gilberto Gil, Ney Matogrosso e Hermeto Pascoal fazendo a trilha sonora. Ele tinha o privilégio da proximidade e a sabedoria de ficar quieto — embaixo da mesa, bem perto das caixas de som, onde a música bate diferente.
Durante a adolescência, assistiu aos primeiros shows dos Paralamas do Sucesso, de Kid Abelha e dos Titãs. Essa escola de formação moldou um artista que entende o Rio de Janeiro não como cenário, mas como frequência. Uma coisa que se capta, não se explica.
Filho da Zona Sul, Moska percorreu a cidade, foi descobrindo o Centro, a Lapa, e chegou ao Circo Voador como quem encontra um portal. Localizado nos Arcos da Lapa, o Circo Voador é uma grande estrutura de tenda que abriga shows de bandas e artistas brasileiros, com aberturas nas laterais que o tornam, ao mesmo tempo, fechado e aberto à cidade. Para Moska, foi o lugar onde a bolha se rompeu e ele descobriu o Rio de misturas, sotaques e gêneros .
Foi nesse caldo que nasceu sua formação artística. Aos 17 anos, entrou no coral Garganta Profunda. Depois da CAL — a Casa de Artes de Laranjeiras, onde estudou teatro e cinema —, veio a fundação dos Inimigos do Rei, em 1987, com colegas do Garganta. A banda ficou conhecida por seu estilo irreverente e humorístico, compondo músicas de duplo sentido e com acentuados jogos de vozes, além de apresentações excêntricas no palco.
O nome, conta Moska, nasceu de um incidente: o grupo, que integrava um coral de repertório sério, resolveu tocar punk rock na Sala do Trono do Paço Imperial durante uma passagem de som.
A história de Moska com o Rock in Rio condensa sua trajetória em três atos: foi como público à primeira edição, em 1985; subiu ao palco com os Inimigos do Rei na segunda, em 1991; e voltou como artista solo na terceira, em 2001. Em setembro de 2026, fechou o ciclo com mais um retorno — desta vez como headliner do Palco Global Village.
Mas o arco mais interessante de sua relação com o Rio não passa pelos grandes palcos. Passa pelas coisas do dia a dia. O almoço no Braseiro da Gávea e o jantar no Nova Capela, no Centro. Passa pelo Jardim Botânico, onde mora, caminha e cuida das plantas todos os dias.
Para Moska, ser carioca não é uma questão de praia ou sotaque. É a abertura para o encontro, a positividade como postura diante do mundo, a capacidade de fazer da conversa uma arte. Ele reconhece o lado B desse temperamento — a promessa de encontro que raramente se cumpre, o "tamo junto" que fica no ar —, mas não o leva a sério demais. Prefere ficar com o que a cidade tem de melhor: uma matéria-prima humana, cultural e natural que poucas cidades no mundo possuem.
Essa consciência do papel da cultura na identidade urbana levou Moska a um dos projetos mais tocantes de sua carreira recente. Após o incêndio do Museu Nacional em 2018, o bombeiro e luthier Davi Lopes coletou madeiras dos escombros do prédio e as transformou em violões de alta qualidade. Moska abraçou o projeto, que batizaram de Fênix, e passou a se apresentar com esses instrumentos em shows por todo o Brasil. Para ele, cantar músicas de amor e renovação com os violões feitos da madeira do Museu tem um significado especial: "Não existe amor sem renovação. O amor também sofre incêndios e precisa ser reconstruído a cada dia. Das cinzas de um amor podem nascer novos encantamentos."
A tragédia do Museu Nacional diz muito sobre o que Moska entende por ferida aberta da cidade: o descaso com o patrimônio, a ausência de responsabilidade pública, a facilidade com que se perde o que é irreparável. Quando o museu pegou fogo, não ardeu apenas um prédio.
Referências
Áudio Oficial da música Preciso Me Encontrar de Cartola.
Para entender o Moska, há três referências que ele apresenta como chaves: Cartola, cronista profundo da alma carioca; Fausto Fawcett, capaz de revelar a complexidade e a marginalidade da Zona Sul nos anos 1980 com uma precisão que nenhum roteiro turístico alcança; e Da Lata, de Fernanda Abreu — disco que captura um Rio em movimento, com a energia visual e sonora de quem entende a cidade por dentro.
Veneno da Lata / Incidentais: Vamo Bate Lata / A Lata (Medley) · Fernanda Abreu · Herbert Vianna · Sofia Stein
Com mais de trinta anos de carreira, Moska construiu uma discografia repleta de canções que falam, sobretudo, de amor à vida. Mas o amor à vida, no caso dele, passa necessariamente pelo amor a uma cidade específica — com suas contradições, suas perdas e a extraordinária teimosia de continuar bela mesmo quando não merece o cuidado que recebe. O Paulinho que cresceu escondido embaixo de uma mesa de som, segue ouvindo o Rio.