ORiocolonialaosolhosdosviajantes

Tempo de leitura 6 min

Rio Memórias

O período colonial foi a era dos viajantes. A descoberta de um novo mundo foi contemporânea da renovação intelectual que ocorria em uma Europa renascentista, reformista e atravessada por conflitos religiosos. Com a fama de uma cidade paradisíaca e a perspectiva utópica de um “paraíso na terra”, o Rio foi visitado por dezenas de narradores estrangeiros, que ressaltaram tanto suas belezas quanto suas desigualdades. Esse interesse era motivado também pelo aspecto exótico que os estrangeiros davam ao nosso território.

"Um mascate e seu escravo". Gravura de George Hunt, 1822. Acervo da Pinacoteca do Estado de São Paulo, Brasil.

Gravura colorida de cena histórica com figuras negras e coloniais.Descrição da imagem: Esta é uma gravura colorida representando uma cena histórica. Do lado esquerdo, vemos um homem negro carregando um balde grande sobre a cabeça. Ao centro, há um indivíduo vestido com roupas coloniais, incluindo um chapéu triangular e calças verde-oliva, segurando um objeto pontiagudo. Atrás dele, outro homem negro, também vestido com roupas coloniais, caminha com um bastão nas mãos. À direita, um terceiro homem negro carrega uma grande quantidade de objetos sobre a cabeça. No fundo, há uma construção branca com telhado marrom, possivelmente uma casa ou edifício público. A paisagem ao fundo apresenta montanhas e céu claro. Na parte inferior da imagem, está escrito "A PEDLAR AND HIS SLAVE."

Já no século XVI, os relatos de jesuítas que vinham com a Companhia de Jesus para colaborarem com o processo de catequização da Coroa Portuguesa forneciam as primeiras impressões sobre o espaço de natureza exuberante. Franceses católicos e protestantes, que participaram das campanhas na luta contra portugueses ao redor da baía de Guanabara, também registraram as características – sempre superlativas – da paisagem carioca.

José de Anchieta, André Thévin e Jean de Léry foram alguns dos primeiros a darem notícias em estilo literário sobre a cidade. Destacavam na mesma medida as águas e o clima aprazível da região, sua paisagem plena de morros e florestas e os perigos, tanto naturais quanto por parte da população local, e sua oscilação entre acolher e guerrear contra os invasores portugueses e franceses.

Apesar de o governo português ser cada vez mais hostil à presença de estrangeiros na colônia, durante o século XVIII, mediante a forte aproximação comercial e geopolítica entre Portugal e Inglaterra, tivemos uma leva de viajantes ingleses que aportaram na cidade carioca e descreveram alguns de seus aspectos.

Aeneas Anderson fez como seus predecessores, abrindo seu relato de 1795 com adjetivos sobre sua vista: encantadora, majestosa, uma “visão de elegância, riqueza e beleza”. Contrariando a ideia do português “semeador”, nos dizeres de Sérgio Buarque de Holanda ao se referir à urbanização caótica do Rio, Anderson dizia que suas ruas centrais eram “regulares e uniformes, cruzando-se em ângulos retos”. Elogiava ainda o comércio ativo da cidade naquela altura e, surpreendentemente, se referia ao aspecto notável de sua limpeza.

Joseph Banks também destacou a exuberância da fauna e da flora da cidade e ofereceu visão menos simpática sobre o Rio. Assim descreveu sua população em 1768: “são portugueses, negros, índios, aborígenes da região” e destacou a maioria de escravizados (17 para cada branco).

"Criminosos carregando provisões para a prisão." Gravura de T. Hunt, 1822. Acervo: Biblioteca Nacional

Gravura colorida de T. Hunt, 1822, mostrando criminosos levados para prisão.Descrição da imagem: Esta é uma gravura colorida de T. Hunt, datada de 1822, que retrata criminosos carregando provisões para a prisão. A imagem mostra um prédio de pedra com janelas arqueadas e portas numeradas. Na frente do edifício, quatro homens estão sendo levados por um oficial uniformizado. Os criminosos carregam uma caixa vermelha e um barril de madeira. O oficial, vestindo um chapéu alto e uniforme azul, segura um bastão. O fundo apresenta um céu claro com algumas nuvens.

John Barrow, o mais minucioso dos ingleses nos relatos sobre a cidade, aportou no Rio em 1792 e fez descrições literariamente fartas sobre a entrada da baía de Guanabara e os demais aspectos dos cariocas. Sobre a ocupação do local, ele reconheceu um mérito na colonização portuguesa: “Se os portugueses do Rio fizeram pouco no sentido de aproveitar a natureza, têm ao menos direito nulo ao mérito de não tê-la desfigurado muito”. Barrow também já destacava a desigualdade social e a violência da cidade, ao ressaltar que o governo local colocava guardas acompanhando os estrangeiros para “protegê-los dos roubos e dos insultos promovidos pelos negros ou vagabundos que poderiam estar à espreita”.

"Escravos no Rio de Janeiro". Desenho de Charles Landseer, 1788. Acervo: Instituto Moreira Salles.

Três figuras humanas em cena simples, uma de pé e outra sentada recebendo algo, enquanto a terceira cobre o rosto.Descrição da imagem: Esta é uma gravura em preto e branco. Na imagem, vemos três figuras humanas dispostas em um cenário simples. A figura mais à esquerda está de pé, vestindo um avental e um chapéu. Esta figura está interagindo com a segunda figura, que está sentada e parece estar recebendo algo das mãos da primeira figura. A terceira figura está também sentada, mas está cobrindo o rosto com as mãos, possivelmente em sinal de tristeza ou reflexão. Todos estão em uma superfície plana, sem detalhes adicionais no fundo.

Ainda durante o período colonial, um dos textos mais importantes que mostra o dia a dia do Rio de Janeiro é da também pintora, desenhista e escritora inglesa Maria Graham, que viajou pela cidade e o país, nos primeiros anos da década de 1820. Graham, que também se deslumbrou com uma cidade descrita como “a cena mais encantadora que a imaginação pode conceber”, testemunhou as transformações urbanas desencadeadas pela presença da corte portuguesa. Habitando em uma casa no Catete, ela descreveu hábitos da cidade em relação à alimentação e lazer e trouxe inúmeros eventos, como touradas em São Cristóvão, lavadeiras do rio Carioca em Laranjeiras, caminhadas pela lagoa Rodrigo de Freitas e Jardim Botânico, óperas no Real Teatro de São João (cujo local hoje é ocupado pelo Teatro João Caetano), bailes e jantares em casas de particulares, visitas ao outeiro da Glória, interações com os escravizados urbanos que faziam comércio nas ruas. Graham definiu o Rio como “uma cidade mais europeia do que Bahia ou Pernambuco” e, ao mesmo tempo, não poupou expressões de horror em uma visita ao Cais do Valongo.

Outra autora estrangeira que descreveu em pormenores o cotidiano carioca foi a francesa Adèle Toussaint-Samsom, que viveu na cidade por doze anos, entre as décadas de 1850 e 1870. Escritora, formada em uma família de artistas, casou-se com o dançarino francês de origem brasileira Jules Toussaint, que chegou a ser professor de dança da família imperial. Seu relato foi publicado em trechos no Figaro, na França e no carioquíssimo Jornal do Comércio, e saiu em livro durante 1891. Nas páginas dessas memórias, Adèle se recusou a estereotipar a cidade à moda dos relatos exóticos de viagem e forneceu um retrato apurado do cotidiano carioca de então. Sua narrativa passa por uma sóbria descrição da natureza e das suas já famosas montanhas e dos mercados populares no centro – com um espetáculo de frutas e legumes, em meio a “papagaios de todo tipo, de tatus, de macacos, de saguis, de peruas e de pássaros de todas as plumagens”. Fez loas ao clima francês da rua do Ouvidor, atravessou a epidemia de febre amarela de 1849, descreveu de forma minuciosa – e racista – as escravizadas de ganho chamadas de “negras de Mina” – cujo tom preconceituoso de sua descrição não deixou de apontar os absurdos do dia a dia da escravidão e sua revolta com a situação local.

"Loja de sapateiro", gravura de Thierry Fréres, 1835. Acervo: Biblioteca Nacional

Gravura colorida de loja de sapateiro com pessoas trabalhando.Descrição da imagem: Esta é uma gravura colorida representando uma loja de sapateiro. A imagem mostra várias pessoas trabalhando em torno de um grande balcão central. À esquerda, uma mulher segura um bebê enquanto outra pessoa está sentada, aparentemente observando. No centro, um homem está sentado, usando ferramentas para trabalhar com couro. À direita, dois homens estão sentados, também envolvidos em atividades relacionadas à confecção de sapatos. O fundo apresenta prateleiras cheias de sapatos pendurados. No primeiro plano, há plantas e flores secas. Abaixo da imagem, está escrito "BOUTIQUE DE CORDONNIER".

Dona de um estilo que a colocava próximo do período (e do gênero) romântico que vivia, após uma longa jornada iniciada às três da manhã ao Corcovado, Adèle resumiu assim o que viu ao fim do passeio: “Eu pudera imaginar um pouco a esplêndida vista que me esperava em tal altura, mas não pudera pressentir a emoção profunda que sentiria à visão de uma natureza saindo virgem das mãos de Deus”.

Se a maioria dos relatos de viajantes sobre o Rio não constituíram necessariamente uma literatura sobre a cidade, seus escritos forneceram temas para as primeiras gerações de escritores locais. É o caso de assuntos recorrentes na primeira fase do romantismo brasileiro como a natureza, o exotismo, a grandiloquência e a escravidão. No contexto em que o país se tornava independente de Portugal a partir de 1822 e precisava buscar sua própria voz em um projeto de literatura nacional, os escritores viajantes foram fonte inesgotável de referências para o meio literário e editorial que surgiriam no século XIX – e que, aí sim, iniciariam uma literatura brasileira e carioca.

Outras memórias

Memória 1 de 4: Da mais bela à boca banguela: a Baía de Guanabara sob olhares do mundo