NovaLisboa

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Rio Memórias

A mudança do "status" da cidade para capital do Império português, a partir de 1808, acentuou a necessidade de torná-la mais "europeia". As ações dos vice-reis, no século anterior, serviram de base para esse movimento de transformação que se acelerou com a chegada da Família Real.

Gravura histórica de partida com navio, multidão e inscrição sobre o Príncipe Regente de Portugal.Descrição da imagem: Esta é uma gravura histórica mostrando uma cena de partida. A imagem está em tons de cinza, sugerindo que é uma gravura antiga. Do lado esquerdo, vemos um navio com pessoas embarcando. No centro, há uma multidão de pessoas reunidas perto do mar, alguns em barcos menores. À direita, há carros e cavalos, com indivíduos em trajes formais. No fundo, vemos construções e uma cidade ao longe. O céu está cheio de nuvens, dando um tom dramático à cena. Na parte inferior da imagem, há uma inscrição que lê: "Departure of His R.H. the Prince Regent of Portugal for the Brazil."

Embarque da família real portuguesa no cais de Belém, em 29 de novembro de 1807. Pintura de Nicolas-Louis-Albert Delerive

A fim de suprir a demanda por moradia que se estabeleceu na cidade após a chegada de milhares de pessoas de uma só vez, junto à Família Real, criou-se a Lei de Aposentadorias, que consistia no despejo ou desapropriação das melhores residências para a acomodação dos nobres. As portas das casas a serem desapropriadas foram marcadas com as letras “PR” - de Príncipe Regente - e o povo logo fez sua releitura: “Ponha-se na Rua”.

Para ajudar a implementar as mudanças urbanas pretendidas por D. João VI, foi criada a Intendência Geral de Polícia, que ficou encarregada de diversas tarefas da administração pública: o aumento do número de habitações urbanas; incentivos aos aterros de pântanos e mangues; estímulo à edificação de casas assobradadas em detrimento das casas térreas. Além disso, era prioridade modificar os hábitos e valores coloniais, a fim de incutir no espaço urbano uma uniformidade estética e cultural que sugeria a criação de uma cidade nova em contraposição à velha, com seus espaços estreitos e insalubres, de padrões coloniais.

Gravura histórica de Nova Lisboa, com pessoas transportando barris de madeira.Descrição da imagem: Esta é uma gravura mostrando uma cena histórica em "Nova Lisboa". Do lado esquerdo, vemos um edifício com várias janelas e portas, alguns com varandas. À direita, há outro edifício similar. No centro, um grupo de pessoas está transportando grandes barris de madeira. Eles estão caminhando em direção à direita, com alguns carregando os barris nas costas e outros puxando-os por trás. O chão é de pedra, e o céu está claro. Não há texto legível na imagem.

Pretos de Ganho - desenho de Henry Chamberlain e gravura de John Clark - 1821. Ao fundo é possível identificar duas construções assobradadas.

No que diz respeito às regras habitacionais, o primeiro intendente geral - Paulo Fernandes Viana - foi responsável, dentre outras modificações, pela padronização das casas, proibindo elementos que representassem o atraso a ser superado pela nova metrópole, como as rótulas e gelosias nas janelas - vestígios da presença árabe. A percepção negativa sobre as rótulas foi explicitada pelo escritor

Joaquim Manuel de Macedo

em “Memórias da Rua do Ouvidor” em 1878, que classificou-as como um "costume quase bárbaro, de raiz mourisca", lamentando que muitas casas coloniais tivessem “resistido à reforma decretada pela civilização”.

Família brasileira em frente a edifício, John Clarke.Descrição da imagem: A imagem é uma gravura colorida representando uma família brasileira em frente a um edifício. Do lado esquerdo, há um homem vestindo um traje verde e um chapéu, segurando um bastão. Ele está em primeiro plano, com uma criança ao seu lado. À sua direita, há uma mulher vestida de branco e vermelho, seguida por outra mulher com um lenço branco e um vestido marrom. Mais à direita, há duas crianças e um homem negro vestindo roupas tradicionais. O edifício ao fundo tem várias janelas e uma fachada clara. No canto inferior direito, há uma assinatura que parece dizer "John Clarke".

A brazilian family (Uma família brasileira) - desenho de Henry Chamberlain e gravura de John Clark - 1822.

O adensamento populacional do início do século XIX estimulou ainda mais a expansão para além do Campo de Santana e da Praça Tiradentes, transformando o centro em área comercial fazendo surgir a "Cidade Nova" a partir do aterramento do mangue de São Diogo. Para estimular a ocupação da área, os novos proprietários ficavam isentos da cobrança da Décima Urbana - imposto pago à Fazenda Real por donos de prédios habitáveis no perímetro urbano.

Os hábitos de construir e morar foram alterados, principalmente em meados do século XIX, na medida em que morar e trabalhar no mesmo edifício – comum no período colonial – deixou de ser prática dos comerciantes mais ricos, que passaram a morar na Glória, no Catete, em Botafogo, Catumbi ou São Cristóvão.

As condições sanitárias começaram a fazer parte das preocupações das autoridades que buscaram aterrar pântanos e charcos a fim de amenizar a umidade do ar. Segundo a crença da época, o calor intenso e a umidade formavam um ambiente propício para o desenvolvimento dos “miasmas e febres perigosas” que acabavam resultando em epidemias. Os cemitérios, considerados focos de contaminação, foram transferidos para locais distantes, alterando a prática usual, até então, de enterrar nobres, ricos e membros de irmandades no interior das igrejas.

Outras memórias

Memória 1 de 4: Rio de Janeiro, cidade velha