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Rio Memórias

Vale lembrar como era a divisão de tarefas entre os profissionais que atuavam nos bondes. O motorneiro conduzia o carro; era o piloto, sempre atento ao trânsito e ao sobe-e-desce dos passageiros. O condutor, esse tinha que possuir muita energia! Ele ficava de olho nos ‘pingentes’ – que permaneciam nos estribos e eram hábeis em pular do bonde em movimento – e cobrava as passagens. Depois, puxava uma corda conectada ao mostrador na frente da cabine, acima do motorneiro, onde o número de passagens pagas era exibido. Às vezes, subia no bonde um terceiro personagem, o fiscal, para conferir aquele ‘marcador de passagens’ e registrar as cobranças. Diziam as más línguas que ainda assim, alguns cobradores tiravam uma parte das cobranças para si. Os condutores circulavam para fazer a cobrança; inclusive com o bonde em movimento, circulando pelos estribos – mesmo quando havia passageiros ‘pendurados’ ali. Agarravam-se aos balaústres, às vezes levando notas e moedas nas mãos. Era uma atividade que exigia muita habilidade, paciência e coragem. E os passageiros? Quem viajava sentado estava mais seguro, mas quando faltavam lugares, muita gente ia pendurada nos estribos, mesmo. Nesta foto, um daqueles retratos de grupo mais que especiais, feito à rua Senador Eusébio, em 1924.

Bondinho antigo parado na rua, com árvores e edifício ao fundo.Descrição da imagem: Esta é uma fotografia antiga de um bondinho parado na rua. À esquerda, há árvores altas e pessoas caminhando pela calçada. No centro, um bondinho com o número "218" está parado, com várias pessoas em seu interior e junto à plataforma. À direita, há um edifício grande com janelas e varandas. Na parte inferior direita, há uma data escrita: "Rio-22-5-924".

Rua Senador Euzébio – 22/05/1924 – Augusto Malta

Como se vê, nosso Augusto Malta gozava do prestígio dos passageiros, que aparentemente aceitavam bem a proposta de posar para um ‘click’. O bonde parou para a foto! Aquele pedacinho da cidade parou no tempo, literalmente. Momento antológico, o que foi eternizado nessa chapa. E aqui poderíamos nos perguntar, como um exercício de imaginação: você consegue pensar nestas pessoas como um antepassado seu? Imaginar que seus pais, avós, bisavós e até tataravós se assemelham a estas figuras na fotografia?

Grupo de pessoas em torno de um bonde antigo em preto e branco.Descrição da imagem: Esta é uma fotografia preto e branco de um grupo de pessoas em torno de um bonde. A disposição espacial começa com uma rua larga e pavimentada no primeiro plano, onde várias pessoas estão caminhando ou posando. À direita, há um bonde antigo com o número "218" na frente. As pessoas estão distribuídas ao longo do bonde, alguns estão dentro dele, outros estão fora, perto dele. No fundo, há edifícios altos e antigos, possivelmente residências ou prédios públicos.

Detalhe da fotografia Rua Senador Euzébio – 22/05/1924 – Augusto Malta

Agora poderemos melhor apreciar os retratados na cabine frontal do bonde. Destaque para o compenetrado motorneiro de olhar firme e sereno e sem tirar as mãos dos controles; cercado por outros cidadãos; todos, sem exceção, fitando a objetiva da câmera. Que direção de fotografia! E fica uma pergunta: quantos pares de olhos você vê, neste detalhe?

Grupo de pessoas em bonde preto e branco, motorista e passageiros.Descrição da imagem: Esta é uma fotografia preto e branco de um grupo de pessoas em um bonde. Do lado esquerdo, há um homem de terno e chapéu, segurando o bonde. Ao centro, está o motorista, vestindo um uniforme com um chapéu de aba curta. À direita, outro homem de terno e chapéu está puxando o cabo do bonde. No fundo, outros passageiros estão sentados, alguns usando chapéus. Na parte inferior do bonde, há uma placa com o número "218" e outra placa com o texto "SEN. EUZEBIO PREFEITURA".

Detalhe da fotografia Rua Senador Euzébio – 22/05/1924 – Augusto Malta

Nesta fotografia posada, onde o fiscal passa ao condutor – que tem as notas dobradas longitudinalmente e presas entre os dedos – uma pequena prancheta. Vale observar três aspectos no registro de 1958: a curiosidade dos passageiros que se voltam todos para trás, como que a posar para a foto; a presença feminina, bem ao meio da imagem, algo mais raro em décadas anteriores; os anúncios junto ao teto do bonde – destaque para o par de olhos, um clássico desde muito, cujo visual e texto foi se adaptando, ao longo das décadas: “Assim como me vê, são vistos todos os anúncios neste veículo.” Era um anúncio da empresa de publicidade nos bondes.

Interior de bondes em preto e branco, dois homens militares interagem com passageiros.Descrição da imagem: Esta é uma fotografia preto e branco de um interior de bondes. Do lado esquerdo, vemos dois homens vestindo uniformes militares, segurando um dispositivo entre si. Eles estão em pé, aparentemente interagindo com os passageiros sentados nos bancos do bondes. Ao fundo, outros passageiros estão distribuídos pelos assentos, alguns olhando para frente, enquanto outros conversam entre si. Na parte superior da imagem, há um grande cartaz com imagens de olhos e texto em destaque.

Bonde – 11/03/1958 – Fotógrafo não identificado

Chovera há pouco e o bonde acabara de parar na praça da República. A presença do fotógrafo mobilizou alguns dos presentes. É o bonde “Praça XV Nov.” com dois carros, de primeira e de segunda classe. Logo atrás, vem outro, o “Barcas”. Ao fundo, no alto da fachada, quase ao centro do quadro, há um letreiro da “Confeitaria Estrada de Ferro”. Este sempre foi um negócio de destaque, desde o “Café Braguinha” de 1824 e a “Confeitaria Carceller”, de 1847, até às nossas “Casa Cavé” e “Confeitaria Colombo” que seguem firmes. Quantas delícias não foram produzidas e consumidas com muito gosto nesta cidade, e quem não teve, ou tem, a sua confeitaria predileta? Na fotografia, além da arquitetura, vemos as árvores e um poste de iluminação ostentando belo trabalho decorativo em ferro e que também sustenta os cabos que conduzem a energia elétrica para os bondes. E as pessoas, quantas pessoas, cada uma com a sua história e o seu destino.

Bondinho 216 em Praça 15 de Novembro, com motorneiros e passageiros.Descrição da imagem: Esta é uma fotografia preto e branco de um bondinho parado em uma praça. À esquerda, vemos motorneiros e condutores em trajes formais, alguns com chapéus. Na parte central, o bondinho número 216 está parado, com pessoas embarcando e desembarcando. À direita, outros bondes estão à espera de passageiros. No fundo, há árvores e prédios antigos. A placa do bondinho indica "PRAÇA 15 NOV."

Praça da República – 1920 – Fotógrafo não identificado

No detalhe, duas particularidades podem ser observadas. A fotografia foi feita pelo lado esquerdo do bonde – oposto àquele que servia para a circulação dos passageiros. Por isto, vemos o “travessão arriado”, aquela barra na altura dos assentos, e o “estribo rebatido”, o que dificultava — um pouco — a atuação dos pingentes... O motorneiro está em seu posto na cabine, concentrado na direção e os três cidadãos que posam para o fotógrafo, com muito gosto, são integrantes da equipe que atuava nos bondes.

Fotografia preto e branco de um bonde com três homens saindo.Descrição da imagem: A imagem é uma fotografia preto e branco de um bonde. Do lado esquerdo, vemos o número "216" na parte frontal do bonde. À frente dele, há um cartaz com a palavra "TENNIS" e outros caracteres não totalmente legíveis. Do lado direito, três homens estão saindo do bonde. O primeiro está na porta, vestindo um terno preto e calça branca. O segundo está parado na plataforma, também com terno preto e calça branca. O terceiro está perto do chão, usando um uniforme similar aos dois primeiros. Todos parecem estar saindo do bonde.

Detalhe da fotografia Praça da República – 1920 – Fotógrafo não identificado

Esta fotografia é uma obra-prima, a figurar em qualquer galeria de autorretratos de fotógrafos. Augusto César Malta de Campos, alagoano de Mata Grande nascido em 14 de maio de 1864, era um dos dezenove filhos de Claudino Dias de Campos e Blandina Vieira Malta de Campos. Embora os pais tivessem a intenção de torná-lo sacerdote, seguiu para o Recife onde alistou-se no Exército. Imbuído dos ideais republicanos, chegou ao Rio de Janeiro em 1888 indo trabalhar no comércio. Em 1900 trocou sua bicicleta por uma câmera fotográfica e em 1903, através de decreto municipal do prefeito Pereira Passos, tornou-se o primeiro fotógrafo da Prefeitura do Distrito Federal, lotado na Diretoria Geral de Obras e Viação. Em paralelo, atendeu a outros clientes; para a Light realizou extensa documentação que se estende às regiões onde foram construídas as usinas hidrelétricas. Vamos ao autorretrato: o sol se punha por detrás do fotógrafo e projetou no solo a sua sombra com sua câmera no tripé, junto ao bonde. Cena inusitada que o fotógrafo assumiu, e registrou. São dois retratos em um!

Bondinho lotado em praça histórica, com pessoas vestindo roupas típicas.Descrição da imagem: Esta é uma fotografia antiga de um bondinho lotado em uma praça. A imagem mostra várias pessoas em pé dentro do veículo, ocupando praticamente todo o espaço interno. À esquerda, alguns indivíduos estão em pé na calçada, olhando para o bondinho. Ao fundo, há construções antigas com varandas e janelas. O bondinho tem uma placa com os nomes "S. Pompeu", "America" e "R. Alves". Na parte superior direita, há uma placa com "Pra Palmeiras". As pessoas estão vestindo roupas típicas do período, com chapéus e ternos.

Largo de Santo Cristo – 28/05/1924 – Augusto Malta

E se aproximarmos o nosso olhar dos pés daqueles cidadãos que viajam no estribo do bonde? Cada um deles veste um diferente modelo de calçado; haja diversidade! E como sempre ocorria naqueles tempos, há um menino descalço.

Pessoas em bonde, pernas e pés em preto e branco.Descrição da imagem: Esta é uma fotografia preto e branco de pessoas em um veículo de transporte público, possivelmente um bonde. Do lado esquerdo para a direita, vemos as pernas e pés de várias pessoas. A primeira pessoa está usando calças pretas e sapatos de couro. Ao lado, há uma criança com shorts e sandálias. Mais à direita, vemos uma pessoa com calças brancas e sapatos de couro. A última figura à direita está usando calças claras e sapatos de couro. Todos estão parados sobre uma plataforma de madeira que parece estar fixada ao chão do veículo.

Largo de Santo Cristo – 28/05/1924 – Augusto Malta

O Rio adentrava os anos 1950, nesta fotografia. O transporte por bondes já estava declinando, face ao aumento dos ônibus e automóveis. Mas esse meio de transporte ainda gozava da preferência de muitos cariocas, que não se furtavam a circular ‘pendurados’ nos estribos.

Bonde lotado em rua urbana, árvores e edifício ao fundo.Descrição da imagem: A imagem é uma fotografia preto e branco mostrando um bonde lotado de passageiros em uma rua urbana. À esquerda, há uma árvore parcialmente visível. No centro, o bonde está cheio de pessoas agarradas nas portas e nas grades, tentando entrar. O bonde tem o número "1961" na parte dianteira e "Eng. Dentre" na parte superior. Ao fundo, há um grande edifício com muitas janelas e linhas elétricas suspensas. A direita, há outros veículos e árvores.

Bonde 76: Engenho de Dentro – 1950 – Fotógrafo não identificado

Haja sangue frio para encarar aquela aventura! Que para a maioria, era algo natural, inevitável até. E assim iam os cidadãos do Rio, completamente misturados nos estribos – embora ainda separados entre os carros de primeira e segunda classe. No detalhe, há desde um operário com seus tamancos e o macacão de trabalho, até um oficial com seu uniforme impecável, e de quepe!

Grupo de pessoas em bonde preto e brancoDescrição da imagem: Esta é uma fotografia preto e branco mostrando um grupo de pessoas em um bonde. A imagem está dividida em duas partes principais: o bonde e os passageiros. Na parte frontal, vemos várias pessoas de pé no bonde, alguns com braços levantados, enquanto outros seguram objetos como bolsas. À esquerda, há um motorneiro vestindo uniforme e boné, aparentemente interagindo com os passageiros. Ao fundo, o bonde está parado, com portas abertas e janelas fechadas.

Detalhe de fotografia Bonde 76: Engenho de Dentro – 1950 – Fotógrafo não identificado