Igor B. Cardoso
Os moradores do Morro do Pasmado começaram o dia 24 de janeiro de 1964 com a imagem do fogo em seus barracões de madeira. O incêndio, ordenado pelo governador da Guanabara Carlos Lacerda, buscava pôr fim a qualquer tentativa de retorno das 189 famílias despejadas dias antes dali.
Em disputa estava um dos mais belos cartões postais da Baía de Guanabara, em Botafogo. Lacerda acreditava que o morro, valorizado em razão de sua localização, estava desperdiçado com as casas populares. A operação de despejo fazia parte de um projeto ambicioso para eliminar as favelas situadas em locais por onde os turistas transitavam.
Em público, o objetivo explicitado pelo governo era o de melhorar as condições de vida dos moradores. Eles já tinham destino certo, o conjunto habitacional Vila Kennedy, em Bangu, construído com os fundos do programa
Aliança para o Progresso
. A secretária de Serviço Social Sandra Cavalcanti definiu como a “primeira revolução social realizada no Brasil” a remoção forçada para a Vila Kennedy, onde receberiam “escolas, serviço social e condições de higiene”.
Contra o tom eufórico, alguns jornais noticiaram o clima de insatisfação da população. A distância, a falta de estrutura e o custo extra das novas moradias foram as principais reclamações. Uma das moradoras de Pasmado soltou o verbo contra Sandra Cavalcanti: “essa dona fala de Bangu com a boca tão cheia, que até parece que Bangu tem praia!” Etevaldo Justino de Oliveira, diretor da Federação das Associações de Favelas do Estado da Guanabara, sintetizou o que seria o início do movimento contra a política de remoção das favelas: “Bangu não: urbanização das favelas, sim!”
Morro do Pasmado.
Rio de Janeiro, sem data. Autoria desconhecida. Fundo Correio da Manhã / Arquivo Nacional.