Nayara Henriques
Após as primeiras exibições de "Deus e o Diabo na Terra do Sol", Martha Alencar publicou entrevista com o diretor Glauber Rocha na coluna "Letreiro" do Jornal do Brasil. Naquela altura, o filme já havia sido escolhido para representar o Brasil no Festival de Cannes, juntamente com "Vidas Secas" (1963), de Nelson Pereira dos Santos.
Foi nessa entrevista que ficaram registradas as palavras que definiriam o movimento do Cinema Novo pelas próximas décadas. Ao ser questionado se o cinema poderia ser considerado uma arte, o cineasta não titubeou: "Claro." E finalizou: "Arte, aqui para nós, é na base de câmera na mão e da ideia na cabeça."
A imagem da "câmera na mão" representava a abolição do cinema tradicional, sem a rigidez do uso de tripés e com maior liberdade criativa. Enquanto as "ideias na cabeça" levaram as produções para o campo da subjetividade, dos significados políticos e críticas sociais.
O famoso slogan do Cinema Novo surgiu de um relato do cineasta Paulo Cezar Saraceni. Após a premiação de seu filme "Arraial do Cabo" (1960), em Roma, Saraceni teve contato com a experiência de filmar com a “câmera na mão”. Glauber, amigo de Saraceni, adotou a expressão e o conceito, e os popularizou.
Ainda em março, Glauber Rocha embarcou para a França, mas o filme não recebeu a Palma de Ouro. Sob o título traduzido "Black God, White Devil", o longa foi aclamado pelo público e pela crítica, e marcou a presença brasileira em Cannes.
Coluna Letreiro com a entrevista concedida por Glauber Rocha.
Rio de Janeiro, 22 de março de 1964. Biblioteca Nacional.