Formasdevestirecalçar

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Rio Memórias

Quem visitou as memórias anteriores desta mesma sala, já percebeu que estamos sempre atentos à questão do vestuário. Mas aqui, vamos nos ater apenas a este tema. Sem aprofundar, mas chamando a atenção para a riqueza, a diversidade e a elegância do vestir dos cidadãos e das cidadãs do Rio de outrora. Isto, sem esquecer dos célebres tamancos, às vezes precários... As ruas do Rio sempre foram uma vitrine. Vale lembrar que naqueles tempos, a influência da chamada ‘alta-costura parisiense’ da segunda metade do século XIX seguia forte no estrato burguês da sociedade local Começamos pela antiga rua Bella de São João, atual rua Bela no trecho junto ao Campo de São Cristóvão, nos tempos de obras de modernização/instalação de novos trilhos, empreendidas pela Light. Nas duas esquinas há estabelecimentos comerciais. Esta rua a céu aberto deixou saudades. No início dos anos 1990, foi coberta por um viaduto de dois pavimentos que integra a Linha Vermelha, uma das mais importantes vias da cidade. Suas pistas correm junto às janelas dos edifícios, muitos ainda antigos sobrados que resistem ao tempo e à cruel evolução da cidade.

Fotografia antiga de rua urbana com edifícios e linha férrea.Descrição da imagem: Esta é uma fotografia antiga de uma rua urbana. À esquerda, vemos um edifício com telhado de telhas e uma placa que lê "AO 62". Pessoas caminham pela rua, algumas usando chapéus e vestidos longos. No centro, há uma linha férrea com vagões parados. À direita, há um grande edifício com arquitetura clássica, com varandas e janelas decorativas. Na parte inferior direita, há uma data escrita: "Rio - 27-1-08".

Rua Bella de S. João [Rua Bela] – 27/01/1909

Observando a imagem mais de perto, notamos que tratava-se de rua predominantemente residencial. O status de bairro imperial havia sido perdido com a queda da monarquia, e começava um período de transição naquele bairro, com a saída de muitos moradores e a chegada de indústrias vindas do Centro. Ainda assim vemos a impressionante quantidade de postes instalados e ainda muitos pedestres que circulavam por ali, vinte anos após a proclamação da República. Há operários, cidadãos com trajes mais simples e também os alinhados. Os homens de chapéu e algumas mulheres portando sombrinhas.

Uma rua urbana antiga em preto e branco, com construções antigas e pessoas caminhando.Descrição da imagem: Esta é uma fotografia antiga de uma rua urbana. A imagem é em preto e branco, mostrando construções antigas com telhados inclinados e janelas decorativas. À esquerda, há uma placa com o nome "Casa Cardozo". Pessoas estão caminhando pela rua, alguns estão perto das casas e outros estão mais distantes. Na parte central da imagem, há um trecho de trilhos ferroviários. À direita, há edifícios mais altos com varandas e colunas ornamentais. No fundo, há árvores e um céu claro.

Detalhe da fotografia Rua Bella de S. João [Rua Bela] – 27/01/1909

Neste detalhe, um evidente testemunho daquilo que denominamos ‘distinção de classe social’. As mulheres em primeiro plano – uma caminhando para a direita e a outra, em direção ao fundo da imagem – trajam vestidos longos e blusas de mangas ¾ com os cintos aparentes, sapatos baixos e nada de chapéus e sombrinhas; seguem a passos firmes com suas vestimentas mais simples e funcionais. Já as duas mulheres que caminham na direção do fotógrafo estão trajadas para o passeio ou outra atividade de seu grupo social trajando longos vestidos com cintos bem justos; a da esquerda suspende-o para que não esbarre na calçada; o vestido da direita tem a gola alta. As mangas são volumosas e seguidas das luvas de cano longo. Sapatos brancos, chapéus adornados e sombrinhas – que para além de sua função de proteger do sol, eram um acessório da moda, naquele período.

Rua em construção com mulheres caminhando e criança sozinha.Descrição da imagem: Esta é uma fotografia antiga em preto e branco, mostrando uma rua em construção. À esquerda, vemos mulheres caminhando com guarda-chuvas e vestidos longos. À direita, há uma criança caminhando sozinha. No fundo, pessoas estão trabalhando nas obras de construção, e um trenó está parado na parte central da imagem.

Detalhe da fotografia Rua Bella de S. João [Rua Bela] – 27/01/1909

Esta fotografia foi tirada na praça da República, na lateral do antigo palácio do conde dos Arcos, último vice-rei do Brasil. Com entrada pela rua Moncorvo Filho, este palácio foi construído em 1819 e ali funcionou o Senado Imperial, depois da independência do Brasil, tendo sido palco de muitos episódios, inclusive a assinatura da Lei Áurea em 1888. Proclamada a República, ali continuou a funcionar o Senado Federal até 1925, quando mudou-se para o palácio Monroe, junto à Cinelândia. Na década de 1940 ali instalou-se a Faculdade de Direito da Universidade Federal do Rio de Janeiro. O edifício foi reformado e ampliado; hoje, a parte superior da fachada, como se vê na fotografia, está alterada. O objetivo do registro era documentar um poste que sustentava fiação elétrica e os cabos de energia do bonde; e o fotógrafo acertadamente abriu o enquadramento para incluir os trilhos. Mas estão no quadro um passante – uniformizado, talvez das forças policiais — e um elegante cidadão que parece aguardar o bonde, talvez. Ele merece um destaque.

Prédio clássico com pessoas caminhando e objetos nas mãos.Descrição da imagem: Esta é uma fotografia preto e branco de um prédio com fachada clássica. Do lado esquerdo, vemos uma pessoa caminhando, segurando um objeto nas mãos. No centro, há um poste de luz e um poste telefônico. À direita, outra pessoa está de pé, olhando para o prédio. O prédio tem janelas com grades e detalhes arquitetônicos decorativos. Na parte inferior da imagem, há uma inscrição datada de "Rio-30-1-922".

Em frente ao Senado [Praça da República] – 30/01/1922 – Augusto Malta

O ano era 1922; no detalhe, podemos observar seu elegante estilo. O chapéu de abas retas com fita, tipo boater (palheta) e o paletó claro ‘dão o tom’; e a janela à esquerda contribui para este belo resultado – que é apenas um detalhe da fotografia anterior, vale lembrar. E que nada tem a ver com o objetivo daquela fotografia.

Homem de costas, chapéu e camisa branca, olhando para janela com grades metálicas em prédio preto e branco.Descrição da imagem: Esta é uma fotografia preto e branco de um homem em pé na frente de um prédio. Do lado esquerdo, há uma janela com grades metálicas decorativas. O prédio tem uma textura granulada na parte inferior e uma parede lisa acima. O homem está de costas para a janela, com os braços cruzados e olhando para ela. Ele usa um chapéu e uma camisa branca com calças pretas.

Detalhe da fotografia Em frente ao Senado [Praça da República] – 30/01/1922 – Augusto Malta

E que rua é esta? Até aqui não sabemos; mas talvez alguém que leia estas linhas possa vir a esclarecer. Observamos boas casas, os trilhos do bonde já instalados – mas a rua ainda sem pavimentação – e os postes que sustentam a fiação de luz e força. Quase todos na foto esperam o bonde que vem chegando, ao fundo. E aquele cidadão que leva, às costas, uma série de caixas empilhadas às costas? Um mascate — profissionais que iam de porta em porta, oferecendo produtos diversos —, talvez? E como sempre acontecia, nessas ocasiões, o fotógrafo era premiado com a memorável colaboração dos passantes, que não se importavam em participar/integrar a imagem que era então composta no visor da câmera.

Rua antiga com trilhos e pessoas caminhando.Descrição da imagem: Esta é uma fotografia antiga em preto e branco, mostrando uma rua com trilhos de ferro. À esquerda, há vegetação e casas simples. No centro, dois homens caminham sobre os trilhos. À direita, há construções mais altas, incluindo um edifício com janelas e portas. Pessoas estão paradas perto das construções, observando. Na parte inferior direita, há uma marca "C-245".

Trilhos e Afins [Rua não identificada] – Sem data – Fotógrafo não identificado

Vamos ao detalhe. O mascate, como dissemos, era um vendedor ambulante, às vezes chamado de bufarinheiro, comerciando de porta em porta. O retratado carrega quatro caixas e mais um embrulho, empilhados às costas; são raras as imagens desta forma de comércio no Rio antigo. E no primeiro plano temos, ainda, um precioso registro do vestir. O homem de paletó com um lenço no bolso parece posar para o fotógrafo, deixando à mostra por inteiro a sua calça riscada, presa ao suspensório. E a barra da calça está levantada, o que possibilita melhor visualização do sapato.

Três homens em uma rua em tons de sepia.Descrição da imagem: Esta é uma fotografia em tons de sepia, mostrando três homens em uma rua. Do lado esquerdo, um homem de terno e chapéu está de costas, olhando para a esquerda. Ao centro, outro homem de camisa branca e chapéu está de frente, com as mãos nas cinturas. À direita, um terceiro homem, também de chapéu, está parado, olhando para a esquerda. No fundo, uma mulher carrega uma caixa e caminha pela calçada. A casa ao fundo tem janelas com grades e uma cerca branca. O chão é de terra, e há uma pequena área de pedra à esquerda.

Detalhe da fotografia Trilhos e Afins [Rua não identificada] – Sem data – Fotógrafo não identificado

A Light era exigente quanto à conduta no trabalho, no trato com os passageiros, e também quanto à apresentação de seus motorneiros e condutores (bonde), e motoristas e cobradores (ônibus). Eles deveriam sempre estar ‘impecáveis’. Quem pernoitava no “Hotel da Rua do Bispo”, como era conhecido o célebre Hotel dos Condutores e Motorneiros, tinha mordomia: roupa lavada e passada.

Homem militar ao lado de coluna de iluminação pública em preto e branco.Descrição da imagem: Esta é uma fotografia preto e branco de um homem em uniforme militar, posando ao lado de uma coluna de iluminação pública. A coluna está posicionada no centro da imagem, com o homem à sua direita. Ao fundo, há uma rua com trilhos de bondes, palmeiras e árvores. À esquerda, outro homem está parado na calçada. No canto inferior esquerdo, há uma data e uma assinatura, e no canto inferior direito, o número "1031".

Motorneiro – 27/10/1924 – Augusto Malta

Que espetáculo esta fotografia! Faz-nos lembrar dos editoriais de moda. Mas é apenas uma fila junto a um balcão do edifício sede da Light, à rua Marechal Floriano. Ali, entre os quatro mais jovens, vemos dois uniformizados; um escoteiro e, provavelmente, um cadete do Colégio Militar. Curioso observar a riqueza e diversidade dos modos de vestir. Que título você daria para esta imagem?

Grupo de pessoas em agência bancária, com caixas eletrônicos e luzes pendentes.Descrição da imagem: Esta é uma fotografia preto e branco de um grupo de pessoas em um ambiente interno, possivelmente uma agência bancária ou um escritório público, com paredes de tijolos e colunas de pedra. Do lado esquerdo, há uma mulher de vestido curto e sapatos de salto alto, seguida por um homem de terno e chapéu. À sua frente está um menino de uniforme escolar. No centro, um homem de terno e chapéu está ao lado de outros indivíduos, incluindo um jovem de uniforme escolar. À direita, mais pessoas estão dispostas em fila, alguns usando chapéus e roupas formais. No fundo, há uma série de caixas eletrônicos ou mesas de atendimento, com luzes pendentes iluminando o espaço.

Light: Recebedoria da Rua Marechal Floriano – 1925 – Fotógrafo não identificado

Memórias dos tamancos cariocas... quem diria! Este calçado, também chamado de “soco”, já foi uma verdadeira instituição, trazida pelos portugueses e depois pelos imigrantes italianos e alemães. Rústico, solado-plataforma de madeira (ou cortiça) cuja altura pode variar, com uma ou duas tiras de couro ou outro material para prender os pés. Também podem ser total ou parcialmente fechados – deixando os calcanhares de fora; muito baratos e eficazes para manter os pés bem afastados do chão e isolantes da umidade e da eletricidade. E mesmo depois do advento das botas e sandálias de borracha, ainda hoje são populares em algumas culturas; não mais por aqui. Na fotografia, um operário com seu par de tamancos junto a um equipamento de trefilagem ou trefilação, produzindo arame.

Fábrica industrial com trabalhadores e máquina industrial.Descrição da imagem: Esta é uma fotografia histórica de uma fábrica industrial. À esquerda, vemos trabalhadores em uniformes de trabalho, alguns de pé e outros sentados. No centro, um homem está de pé, apoiado em uma grande máquina industrial. A máquina tem várias rodas e componentes mecânicos. À direita, há uma estrutura alta com tubos e conexões elétricas. O fundo mostra paredes e estruturas industriais. Na parte inferior da imagem, há uma placa com o texto "PLATE N° 953 - 9-DIE DRAWING BENCH".

Die Drawing Bench [Light: Oficina] – 07/04/1924 – Augusto Malta

Havia diversos modelos de tamancos, alguns melhor confeccionados e adaptados à forma dos pés e outros, nem tanto... às vezes produzidos mesmo por quem os calçava. E este talvez seja o caso dos tamancos no detalhe a seguir; bem rústicos.

Pessoa usando calças largas e sapatilhas, pé descalço em madeira dobrável.Descrição da imagem: Esta é uma fotografia preto e branco de uma pessoa usando calças largas e sapatilhas. A pessoa está parcialmente sentada, com um pé apoiado em um pedaço de madeira dobrável. O pé está descalço e os dedos estão separados. Ao fundo, há uma estrutura de madeira e um objeto metálico.

Detalhe da fotografia Die Drawing Bench [Light: Oficina] – 07/04/1924 – Augusto Malta

Aqui, um típico tamanco industrial, daqueles que eram comercializados em larga escala nas feiras e mercados do Rio de Janeiro, com a cinta vermelha ou azul e o acabamento das bordas na cor branca. Até mesmo no ambiente doméstico, os porteiros, trabalhadoras domésticas e lavadeiras de roupa costumavam usar esse calçado durante suas atividades, especialmente quando o piso ficava molhado.

Três homens em escavação, um sentado com pernas cruzadas, outro olhando para o terceiro, que usa chapéu de palha.Descrição da imagem: Esta é uma fotografia preto e branco mostrando três homens em uma escavação. Do lado esquerdo, um homem está sentado com as pernas cruzadas, usando uma camisa aberta e calças. Ele está concentrado em algo na mão. Ao centro, outro homem está sentado com uma camisa aberta e calças, olhando para o terceiro homem. Este último, vestindo uma camisa branca e calças, está sentado com os joelhos dobrados e um chapéu de palha. Atrás deles, parte de um veículo é visível. No chão, há equipamentos e ferramentas, incluindo um saco e tubos de metal.

Botafogo: Rede subterrânea – 14; 15; 16/01/1966 – Gerson Rodrigues Géa

Aqui, a fotografia de um infeliz acidente na rua Ana Nery, envolvendo uma locomotiva da E. F. Leopoldina e um bonde. Nessas ocorrências, o fotógrafo era sempre convocado. Ao chegar, encontrava os curiosos – e não apenas quanto ao acidente, mas também curiosos quanto às atividades do fotógrafo, seu equipamento e seu ritual. Muitas daquelas pessoas talvez nunca, ou raras vezes, tivessem adentrado um estúdio para fazer um retrato. É possível que ninguém, ali, tivesse mesmo ideia de como aquele fenômeno acontecia. Assim, era natural que aqueles curiosos não se importavam de participar da cena e até mesmo posar, com elegância. O local de um acidente também podia constituir-se em oportunidade para se dar a ver, enfim.

Acidente ferroviário em preto e branco, com locomotiva e vagão deslocados, pessoas observando.Descrição da imagem: Esta é uma fotografia antiga em preto e branco mostrando um acidente ferroviário. À esquerda, vemos uma locomotiva e um vagão que estão deslocados das trilhas. Pessoas estão distribuídas pela cena, algumas próximas à locomotiva danificada, outras mais distantes, observando o incidente. No fundo, há uma pequena construção e árvores. A data "JULY 7, 1910" está escrita na parte inferior da imagem, junto com outros detalhes sobre o acidente.

Wreck – Leopoldina Railway; Rua Dona Anna Nery – 07/07/1910 – Fotógrafo não identificado

No detalhe, com direito a uma pose elegante em meio ao caos, destaque para o tamanco de couro – este, um modelo mais elaborado, talvez próximo do que foi bem comum no sul do Brasil, trazido pelos imigrantes italianos e alemães.

Homem em chapéu de palha perto de locomotiva antiga.Descrição da imagem: Esta é uma fotografia antiga em preto e branco. Na imagem, vemos um homem em pé sobre uma locomotiva. A locomotiva ocupa grande parte da imagem, com detalhes como tubos, válvulas e um tanque de água visíveis. O homem está vestindo um chapéu de palha, uma camisa branca aberta e calças de trabalho. Ele está posando com um sorriso, apoiado em um dos trilhos da locomotiva. Ao fundo, vemos uma árvore e uma paisagem nebulosa.

Detalhe da fotografia Wreck – Leopoldina Railway; Rua Dona Anna Nery – 07/07/1910 – Fotógrafo não identificado

Em outro detalhe da mesma fotografia, observa-se que muitos dos presentes vestiam chapéus. E os modelos eram diversificados. Há o chapéu de aba reta e fita (boater), o panamá, o fedora (de feltro) vestido pelo homem ao centro de paletó, colete e gravata longa. Há outros modelos de chapéu de palha, boinas etc.

Pessoas em cena externa perto de estação ferroviária.Descrição da imagem: Esta é uma fotografia preto e branco mostrando uma cena de pessoas em um ambiente externo, possivelmente perto de uma estação ferroviária. À esquerda, vemos um homem de costas, usando um chapéu branco e um terno escuro. Ele está interagindo com outros indivíduos que estão dentro de um vagão de trem. No centro, há uma mulher de pé, usando um chapéu branco e uma blusa branca com detalhes pretos. Atrás dela, há uma pessoa de traje formal, também com chapéu. À direita, várias pessoas estão reunidas perto de uma construção de madeira. Algumas delas usam chapéus e roupas variadas, sugerindo diferentes classes sociais. Na parte inferior da imagem, vemos o topo de cabeças de outras pessoas, indicando que a foto foi tirada de cima.

Detalhe da fotografia Wreck – Leopoldina Railway; Rua Dona Anna Nery – 07/07/1910 – Fotógrafo não identificado

Agora estamos diante de uma garagem de bondes. Junto à fachada do edifício, há funcionários da Light, além de outro encostado à grade, logo atrás de um grupo de meninos que olham curiosos para o fotógrafo – que termina por fazer um registro que excede, em muito, o seu objetivo inicial. O cartaz preso ao poste anuncia: “A Cia. F. C. do Jardim Botânico dá ao longo de suas linhas aterro cobrando só o transporte 5$000 m3. Mínimo 100 m3.” Era mais um dos serviços prestados pela companhia, em uma região da cidade que estava, literalmente, em construção. Na parte superior da fachada, o anúncio pintado propaga: “Leme Divertimentos. Gratuitos. Balanços etc. etc. Vide anúncios. Bonds em quantidade.” O bairro do Leme começava a ser habitado e havia grande interesse em promovê-lo como estância de lazer para cariocas e turistas.

Cena urbana antiga com pessoas, trem e edifício clássico.Descrição da imagem: Esta é uma fotografia antiga em preto e branco, mostrando uma cena urbana com várias pessoas e um trem de trilhos à frente. Do lado esquerdo, há um edifício com arquitetura clássica, possivelmente um teatro ou cinema, com portas grandes e janelas decoradas. À frente do edifício, há uma cerca metálica. Pessoas estão distribuídas pela área, algumas caminhando e outras conversando. No centro, um grupo de crianças está perto dos trilhos, enquanto adultos observam. À direita, um homem de terno e chapéu está perto de um poste com um sinal de transporte público. O fundo apresenta uma rua com mais construções e uma árvore de folhas largas.

Garagem de Bonde – Sem data – Fotógrafo não identificado

Quanta riqueza nos distintos modos de vestir da meninada que destacamos neste detalhe... da boina colorida (?) do menino descalço à esquerda, com as calças na altura da batata da perna (um traje de marinheiro?) até o ‘mini-adulto’ à direita, com seu chapéu boater (palheta), de paletó e gravatinha borboleta, levando o que parecem ser papéis enrolados à mão, os sapatos sujos... haja seriedade! Entre os extremos, uma dupla igualmente especial. O da esquerda protege a vista do sol, sua calça comprida está presa aos suspensórios, a camisa tem as mangas compridas enroladas e ele carrega volumosa sacola. Ao seu lado, outro menino descalço veste uma bermuda franzida no joelho e um paletó que tem um desenho bastante original.

Crianças em frente a um edifício com grades metálicas.Descrição da imagem: Esta é uma fotografia antiga em preto e branco. Na imagem, vemos seis crianças em pé em frente a um edifício com grades metálicas. A partir da esquerda, a primeira criança está de costas, usando um chapéu e uma roupa branca. À sua frente, há outra criança de pé, também de costas, usando um chapéu e uma camisa branca. Dois meninos estão de frente, ambos usando ternos e chapéus. Um deles segura um objeto em suas mãos. Atrás deles, um adulto está parado, usando um uniforme militar e um chapéu. Ao fundo, vemos uma porta grande e uma janela com grades.

Detalhe da fotografia Garagem de Bonde – Sem data – Fotógrafo não identificado

Na imagem e seu detalhe, vale observar as vestimentas dos operários que operam pesado equipamento para curvar trilhos. Imagem rara. Dois homens, calças e camisas diferentes. O da esquerda, de camiseta com um lenço amarrado ao pescoço, veste uma calça que está evidentemente presa à cintura; a do outro, de camisa pregueada, é segura pelos suspensórios. Soluções distintas para a vestimenta funcional, quanta riqueza. E os elegantes chapéus.

Três homens históricos perto de máquina industrial.Descrição da imagem: Esta é uma fotografia histórica em preto e branco. Na imagem, três homens estão em pé perto de uma grande máquina industrial. A máquina tem grandes rodas denteadas e um grande cilindro horizontal. Os homens estão usando roupas típicas do período, com chapéus e camisas de manga longa. Ao fundo, há construções e uma área aberta.

Maquinário para curvar trilhos – Sem data – Fotógrafo não identificado

Imagem 1 de 2: Maquinário para curvar trilhos – Sem data – Fotógrafo não identificado

Por ocasião da cerimônia de inauguração da estação (temporária) de distribuição de energia elétrica da Light em 1907, à rua Frei Caneca, a cerimônia foi especial. O edifício havia sido feito para uma casa de força provisória – como se vê por trás do animado grupo que posa para a fotografia. Vultuosas instalações estavam sendo construídas por ali e aquela excedia, em muito, as necessidades do canteiro de obras e passou a ser usada para atender ao Rio, no serviço de bondes e na iluminação pública e residencial. A usina hidrelétrica de Fontes, instalada no ribeirão das Lajes no município de Piraí/RJ, já estava concluída e foi oficialmente inaugurada em abril de 1908. O mês era julho, inverno; observem os casacos; mas não estávamos em Paris e sim na rua Frei Caneca, centro do Rio. Um “detalhe”: apenas homens brancos estavam presentes! Em outras palavras: enquanto temos homens negros e brancos operando máquinas fazendo o trabalho braçal, quando observamos uma foto de pessoas em posição de tomada de decisão, o embranquecimento é total.

Grupo de pessoas em frente a edifício industrial, trajes formais do início do século XX.Descrição da imagem: Esta é uma fotografia preto e branco de um grupo de pessoas posando em frente a um edifício industrial. A disposição espacial é assimétrica, com os indivíduos agrupados à esquerda e alguns oficiais uniformizados à direita. O edifício tem uma porta aberta no centro, revelando um túnel interno iluminado. À esquerda, há um cabo de fio enrolado na parede. No fundo, há uma placa com texto em espanhol. Todos os presentes estão vestindo trajes formais do início do século XX.

Inauguração do Serviço de energia elétrica nas Usinas da Rua Frei Caneca – 30/07/1907 – Augusto Malta

E neste dois alongados detalhes, que espetáculo esta profusão de chapéus coco (alguns dissidentes com chapéus fedora, de feltro, ao meio) e de sapatos Oxford de biqueira fina – com cadarços para amarrar e que em geral tinham saltos mais altos. Eram novidade naqueles tempos em que os antigos artesãos do sapato começavam a ser substituídos por ‘designers sapateiros’, se podemos dizer assim...

Grupo de homens em terno e chapéu em frente a construção com placa "É PROIBIDA ENTRADA".Descrição da imagem: Esta é uma fotografia preto e branco de um grupo de homens em pé em frente a uma construção. A disposição espacial é linear, com os homens organizados de forma horizontal, da esquerda para a direita. Todos estão vestindo ternos e chapéus, alguns com bigodes e barbas. No fundo, há uma placa com texto em português que lê "É PROIBIDA ENTRADA".

Detalhe da fotografia Inauguração do Serviço de energia elétrica nas Usinas da Rua Frei Caneca – 30/07/1907 – Augusto Malta

Imagem 1 de 2: Detalhe da fotografia Inauguração do Serviço de energia elétrica nas Usinas da Rua Frei Caneca – 30/07/1907 – Augusto Malta

E estes bondes? Primeira e segunda classe rumo à “Pça. 15 Nov.” A foto, cujo título confere, erroneamente, o protagonismo ao edifício da Sede do Estado Maior do Exército, teve o objetivo de mostrar o momento em que o motorneiro lançava mão de uma haste para acionar, manualmente, o 'aparelho de mudança de via' — um desvio instalado nos trilhos, que permitia ao trem mudar de uma linha para a outra. Havia 'agulhas' nos dois trilhos, cuja função era mover as peças de transferência dos trilhos, acionadas manualmente através de uma trava. Do primeiro bonde, elegemos dois detalhes, que merecem atenção e breve comentário.

Trem antigo em preto e branco, edifício clássico à direita.Descrição da imagem: Esta é uma fotografia preto e branco de um trem de bondes antigo parado na rua. À esquerda, há uma árvore parcialmente visível. No centro, um trem de bondes com várias pessoas dentro e fora dele está parado na calçada. À direita, há um grande edifício com arquitetura clássica, caracterizado por arcos e janelas decorativas. Na parte superior do trem, há um sinal que lê "P.C. 15 NOV." e "536".

Sede do Estado Maior do Exército – Sem data – Fotógrafo não identificado

No primeiro detalhe, a constatação de que mesmo nos estribos do bonde, a elegância tinha o seu lugar. Uma elegância que se voltava para a Europa, mesmo em uma cidade quente como o Rio. E, a despeito do que a sociedade branca e racista do início do século XX queria e esperava, alguns cidadãos negros ‘jogando o jogo’ das aparências, vestidos de acordo com o que se entendia como belo e refinado.

Pessoas em um trem, preto e branco, chapéus e ternos.Descrição da imagem: Esta é uma fotografia preto e branco de pessoas em um trem. Do lado esquerdo para a direita, há indivíduos de pé, alguns usando chapéus e ternos claros. No centro, outros estão sentados, alguns também com chapéus e ternos. À direita, mais pessoas estão sentadas, incluindo uma mulher de vestido claro. O fundo mostra o interior do trem com grades metálicas.

Detalhe da fotografia Sede do Estado Maior do Exército – Sem data – Fotógrafo não identificado

E agora, atenção a esses quatro cidadãos registrados pela câmera (da esquerda para a direita). Todos de chapéu. O de trás, de braços cruzados, fitando o fotógrafo; aquele sentado à sua frente segue na leitura do jornal, ignorando a situação... ou melhor, assentindo a pose. Já o cidadão à sua frente, um homem preto altivo e elegante, de paletó e gravata borboleta, chapéu de aba reta e fita, tipo boater (palheta), agarrado ao seu guarda-chuva, pernas cruzadas, encara o fotógrafo com firmeza. Que retrato! E o quarto e último, o branco bigodudo da frente, cigarro preso aos lábios, mãos cruzadas expressando certo desconforto ou ansiedade, também encara o fotógrafo. Ele veste colete sob o paletó, gravata comprida e um chapéu fedora (de feltro). Levou vantagem por estar em situação onde recebe mais luz; e os ajustes da câmera (abertura do diafragma e velocidade do obturador) eram ideais para a sua condição. Enquanto que o de trás, negro, na penumbra, ficou em desvantagem. A propósito, vale comentar, isto sempre foi um problema para a fotografia, quando havia pretos e brancos na imagem. A fotometragem tendia a privilegiar quem tinha pele clara; os pretos ficavam obscurecidos por demais...

Cinco homens em ternos e chapéus em um trem.Descrição da imagem: Esta é uma fotografia preto e branco mostrando cinco homens sentados em cadeiras dentro de um trem. Do lado esquerdo para a direita, os homens estão dispostos assim: um homem com chapéu e bigode está sentado com as pernas cruzadas; ao seu lado, outro homem também com chapéu e bigode está segurando um jornal; mais à direita, um homem com bigode e chapéu está olhando para baixo; ao seu lado, outro homem com chapéu e bigode está sentado com as mãos cruzadas; finalmente, um homem com bigode e chapéu está sentado com as mãos sobre o colo. Todos estão usando ternos e sapatos.

Detalhe da fotografia Sede do Estado Maior do Exército – Sem data – Fotógrafo não identificado

...mas nada que o tratamento digital não possa resolver! Ei-lo, após o restauro digital do negativo e um ajuste de tons, com todo o seu brilho e esplendor.

Homens em ternos e chapéus em ônibus, preto e branco.Descrição da imagem: Esta é uma fotografia preto e branco mostrando seis homens sentados em um ônibus. Do lado esquerdo para a direita, os homens estão dispostos em fileiras paralelas. Na primeira fileira, há três homens de costas para a câmera, enquanto na segunda fileira, dois homens olham para frente. Todos estão vestindo ternos e chapéus, com detalhes como gravatas e sapatos visíveis.

Detalhe da fotografia Sede do Estado Maior do Exército – Sem data – Fotógrafo não identificado