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Rio Memórias

Manifestação pública com multidão caminhando e levantando braços.Descrição da imagem: Esta é uma fotografia preto e branco de uma manifestação pública. A imagem mostra uma multidão de pessoas caminhando juntas pela rua, com alguns levantando os braços em gestos de protesto ou celebração. À esquerda, vemos mulheres vestindo saias curtas e blusas variadas. No centro, homens e mulheres caminham juntos, alguns com braços erguidos. À direita, um homem está levantando o punho em sinal de resistência ou triunfo. Ao fundo, prédios comerciais e construções urbanas são visíveis, além de bandeiras sendo carregadas pelos participantes.

Foliões no Chave de Ouro,

1972. Arquivo Nacional/Fundo Correio da Manhã

O suburbano Bloco da Chave de Ouro foi durante pelo menos trinta anos a mais subversiva agremiação do Carnaval carioca. O que deu ao Chave de Ouro uma fama irresistível foi o fato de o bloco desfilar no Engenho de Dentro sempre na quarta-feira de cinzas, em um período em que a igreja condenava os foliões com exortações ao inferno e a polícia reprimia o fuzuê por causa da Quaresma.

Normalmente o cacete comia entre os membros do bloco e os meganhas, com direito ao público, louco para ver o bicho pegar, lotando as calçadas da Rua Borja Reis para acompanhar a confusão. Há quem diga que vários foliões do bloco eram arruaceiros que paravam na cadeia durante o reinado de Momo e só eram liberados nas cinzas. Resolviam, então, brincar no Chave de Ouro para descontar os dias trancafiados no xilindró enquanto a cidade se divertia.

Homem sendo levado em veículo, trabalhadores em cena de preto e branco.Descrição da imagem: Esta é uma fotografia preto e branco mostrando uma cena de trabalho. Do lado esquerdo, um homem de chapéu e camisa branca está segurando um papel. Ao centro, um homem está sendo carregado por dois outros homens, ambos também de camisas brancas. O homem sendo levado está de costas, com os pés nus e calças pretas. Ele está sendo colocado em um veículo com grades laterais. O fundo revela uma construção com janelas e portas.

Prisão de membros do Chave de Ouro, 1969. Arquivo Nacional/Fundo Correio da Manhã

O líder do Chave de Ouro, Luiz Macaco, tinha a tese de que a graça do bloco, e o que dava a ele o apoio de centenas de foliões, era exatamente o desafio aos homens da lei e da fé. Quanto maior a repressão e o conflito generalizado, mais divertido era o desfile. Os homens do poder público cortaram um dobrado para lidar com o Chave de Ouro e não perceberam que a solução era fácil: a graça para os foliões era a subversão da ordem, o drible na proibição e o enfrentamento entre os cassetetes dos policiais e as baquetas dos bumbos.

Bastou o bloco, na segunda metade dos anos de 1970, deixar de ser proibido para que a alegria murchasse e o ziriguidum perdesse o molho. No Brasil há quem pense que santo é somente aquilo que se reveste de amor cristão, caridade e perdão. Entretanto, cruzado a esse entendimento, há na cidade do Rio de Janeiro uma intimidade que se tece no entremeio entre sagrado e profano que faz muita gente ter devoção pela quizumba, batalha ou tantos outros nomes que podemos dar a diferentes modos arruaceiros de praticar o mundo.

Multidão em movimento com guarda-chuvas e instrumentos musicais, construção de telhado de palha ao fundo.Descrição da imagem: Esta é uma fotografia preto e branco de uma multidão em movimento. A partir da esquerda para a direita, vemos pessoas correndo com guarda-chuvas nas mãos, alguns segurando instrumentos musicais. No centro, um indivíduo levanta um instrumento, enquanto outros participam da festividade. Ao fundo, há uma construção com telhado de palha.

O Chave de Ouro e festa sob chuva, momentos antes da ação da polícia,

1966 Arquivo Nacional/Fundo Correio da Manhã

O bloco Chave de Ouro é somente um dos bons exemplos de ritos que riscam essa cidade e jogam dendê na batina do padre. O Rio das águas da baía como lago de leite, como diziam os antigos moradores daqui, carrega nas suas águas também marés de dendê, mel e cachaça. Um Rio de flor e faca, afago e esporro, uma cidade em que a quizumba pode baixar no mesmo corpo da poesia e da mandinga, como no caso do bloco dos Arengueiros, que juntou gente como Cartola, Carlos Cachaça e Zé Espinguela e deu origem à Estação Primeira de Mangueira. O Rio dos valentões, malandros bons de briga, maltas, blocos de arenga, rodas de pernada, bailes de corredor e outras formas de esporro que lembram que nessa cidade difícil mesmo é achar quem seja santo.

Manifestação pública em preto e branco, com multidão erguendo braços e objetos.Descrição da imagem: Esta é uma fotografia preto e branco de uma manifestação pública. Na parte inferior da imagem, vemos a cabeça de uma pessoa com cabelos curtos, seguida por uma multidão animada. A maioria dos participantes está erguendo os braços, alguns com os punhos cerrados, enquanto outros levantam objetos como sapatos e um balde. No centro, uma mulher de camisa listrada está levantando um sapato. Ao fundo, há um edifício com várias janelas e uma placa de rua. À esquerda, há um poste de telefonia e fios elétricos. Na parte superior da imagem, vemos uma faixa com o texto "LA DENTRO" em destaque.

Foliões no Chave de Ouro, detalhe para o caixão, que enterrava não apenas o carnaval, mas também os desafetos do povo, como meio de protesto

, 1972. Arquivo Nacional/Fundo Correio da Manhã

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Memória 1 de 4: Catedrais do samba