EdimilsonÁvilaeoRiodeJaneiro

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Rio Memórias

O jornalista e apresentador Edimilson Ávila chegou ao Rio de Janeiro há mais de trinta anos. Nascido em Maringá, no Paraná, não tinha referências de infância no subúrbio, do carnaval ou do jeito de ser carioca. Mas ele trouxe na bagagem algo mais valioso: o hábito de andar, olhar e conversar com quem está ao lado. E isso o fez ser reconhecido como uma das pessoas que mais cuidam da cidade.

"Eu gosto dessa coisa de andar", ele conta. "Vou conversando com as pessoas, parece que sou amigo de todo mundo." Essa amizade instantânea não é exagero nem uma figura de linguagem. Edimilson distribui o número do próprio celular em palestras, para que desconhecidos possam entrar em contato quando precisarem.

Esse olhar virou profissão. Presente na telinha da TV Globo, sempre dedicou seu foco ao jornalismo de cidade — o cotidiano, a calçada quebrada, o ônibus que não vem, a fila que não anda. Isso sem falar nos hospitais superlotados, famílias sem saber para onde recorrer, servidores sem salário. "As pessoas querem ser ouvidas. Não estão cobrando — estão pedindo: olha por mim."

O jornalismo acabou lhe dando um superpoder: ouvir e investigar. Mas com grandes poderes vêm grandes responsabilidades. Ele liga para o prefeito, o secretário e o governador, não apenas para obter uma nota oficial, mas também desconstruir aquelas que não correspondam à realidade: "Nota protocolar às vezes desmente o trabalho do jornalista. Eu dou a oportunidade de responder de verdade."

Entrevista com Edimilson Ávila

A ligação entre o jornalismo e a vida cívica teve um capítulo inesperado durante a crise financeira do estado do Rio de Janeiro, quando servidores sem receber passaram a procurá-lo diariamente. No meio de uma tarde tranquila no jornal, ele teve uma ideia simples: que tal usar aquele espaço para divulgar oportunidades de trabalho? A resposta foi tão imediata que o quadro que era semanal, logo passou a ser diário, um dos conteúdos mais lidos nos blogs do G1 nacional. "Eu fui aprendendo que emprego e formação têm uma relação de cadeia. Não basta ter vaga se a pessoa não tem qualificação. Não basta ter qualificação se ela não consegue chegar." Seu perfil no Instagram [@edimilson.avila], com quase 500 mil seguidores, é repleto de oportunidades de vagas e cursos de formação. Muito eventualmente, aparece um post pessoal na cidade que ele percorre a pé, subindo trilhas, frequentando teatros ou shows, onde às vezes encontra na plateia o mesmo ator que assistiu em uma novela. "Não tem lugar no mundo onde você encontra essas pessoas na rua assim, sabe? Essa é uma coisa do carioca que nenhum lugar tem."

Quando fala sobre o "Rio que dá certo", Edimilson escolhe as palavras com cuidado. O carioca é mal interpretado: a leveza, o bom humor, o jeito de andar pelo mundo são confundidos com desleixo. "O carioca gosta de regras, gosta de cidade limpa, gosta da coisa arrumada. Ele só não gosta de ser tratado como bagunça." O metrô limpo e poder pegar o metrô fantasiado para o carnaval na rua não são contradições — são o mesmo povo querendo as duas coisas ao mesmo tempo.

E durante seu período à frente do podcast "Desenrola, Rio", um bate-papo direto com políticos sobre os assuntos que complicam a vida do carioca, ele teve uma boa noção de onde a coisa pega. O "Rio enrolado", para ele, tem um endereço mais preciso: a administração pública. Um ambiente que desanima quem quer investir, criar emprego, apostar na cidade. "Não acreditem em nenhum político que promete resolver o Rio em quatro anos. A gente precisa de um projeto de vinte, de trinta anos." Essa frase resume o modo como Edimilson pensa a cidade: com a paciência de quem já viu muita coisa e com a teimosia de quem ainda acredita.

Conheça o livro "Rápido e devagar: Duas formas de pensar"


Não à toa, sua leitura de cabeceira é "Rápido e devagar: Duas formas de pensar", do economista e psicólogo estadunidense Daniel Kahneman. O livro que distingue o pensamento impulsivo do pensamento construído ao longo do tempo e com cuidado. "Nossos administradores precisam ler isso", ele diz. "Nós temos problemas muito complexos. Não tem solução para ontem." Recomenda ainda o livro "Viver é melhor sem ter que ser o melhor", do psiquiatra Daniel Martins de Barros — uma leitura que ele considera essencial para jovens que crescem se comparando nas redes sociais e perdendo a leveza no processo.

Trinta e um anos no Rio, e Edimilson ainda não se cansou de olhar para a cidade e para o mundo como se pudessem ser melhores. Ainda bem.