“Devonãonego,pagoquandopuder”:promessaseamercanciacomosanto

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Rio Memórias

Artesão trabalhando em oficina com estátuas em construção.Descrição da imagem: Esta é uma fotografia preto e branco mostrando um artesão trabalhando em uma oficina. Na parte frontal, vemos uma mesa coberta de várias estátuas de tamanho médio, dispostas em fileiras. À esquerda, um homem está sentado, concentrado em sua tarefa. Atrás dele, há mais estátuas em diferentes estádios de acabamento. No fundo, prateleiras contêm mais peças de cerâmica. O ambiente parece bem iluminado, com luz natural entrando pela janela à esquerda.

Artesão trabalhando em uma fábrica de santos

, junho de 1972. Arquivo Nacional. Fundo Correio da Manhã.

Somos um povo dado aos sentimentos e historias que entremeiam milagre, promessa e salvação. Essa trinca tem grande impacto na nossa formação política, estética e no nosso imaginário. Sendo uma sociedade em que a catequese cumpre função elementar no processo colonial, esses três aspectos estão lançados em relação com diferentes formas de interpretar, praticar e inventar o mundo. Em um lugar como a cidade do Rio de Janeiro se tece na vida comum várias formas de intimidade, confiança e negociação com aquilo que se entende como sagrado. Essas várias formas de fazer armam a roda para nela beber junto o sagrado e o profano, santos e meros mortais que riscam versos que cruzam o ordinário e extraordinário.

Altar doméstico com estátua de cavalo branco e figuras vestidas tradicionalmente.Descrição da imagem: Esta é uma fotografia de um altar doméstico. Do lado esquerdo, há uma estátua de um cavalo branco com uma coroa vermelha. Ao lado do cavalo, estão duas figuras vestidas com roupas tradicionais, uma delas segurando um objeto branco. À direita, há uma figura vestida com um manto azul e dourado, seguida por três figuras menores, também vestidas com trajes coloridos. Na frente do altar, há garrafas de bebida e recipientes de vidro. A parede ao fundo é branca com linhas vermelhas.

Altar na entrada do Beco do Rato, Rio de Janeiro.

Imagem extraída de

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No botequim que é a cidade do Rio de Janeiro os milagres são cada vez mais comuns, são destronados do céu para acontecer na miudeza do cotidiano da aldeia, se dão como algo corriqueiro. Se o milagre é cotidiano e é termo da sobrevivência comum, assim como os feitiços, a salvação, algo que parece cada vez mais difícil, precisa ser abreviada e nada melhor para encurtar a distância do que a camaradagem. Nesse sentido, nada mais oportuno para fazer amizade com o santo do que uma boa promessa. Em uma cidade como o Rio, o que percebemos nos mais diferentes modos de experimentar e tecer relação com os mistérios, espanto e insondável é chamar no papo e negociar.

Homem ajoelhado cobrindo o rosto em cena urbana com paisagem montanhosa ao fundo.Descrição da imagem: Esta é uma fotografia preto e branco mostrando uma cena urbana com várias pessoas em um local elevado, possivelmente uma plataforma ou mirante. No centro, um homem está ajoelhado, cobrindo o rosto com as mãos. À sua direita, uma mulher caminha com confiança. Ao fundo, várias outras pessoas estão distribuídas, algumas parecendo estar em movimento. O cenário é composto por edifícios e uma paisagem montanhosa ao fundo. A legenda menciona "fiel ajoelhado", sugerindo que o homem ajoelhado pode ser um devoto ou alguém fazendo um gesto de fé.

Fiéis subindo a escadaria da igreja da Penha

. Arquivo Nacional/Fundo Correio da Manhã.

A promessa não é somente aquilo que o sujeito se presta a pedir, combinar ou propor em uma situação difícil, muitas vezes tomado pelo desespero e em aposta de fé. Em outros termos, mais embebidos no caldo cultural dessa cidade e tramado no sotaque da rua, a promessa é uma chamada ao desenrolo. Como narram as máximas próprias desse modo de negociação: “Quem me deve, me paga” … “Devo, não nego. Pago quando puder” …

Nesse jogo performado entre intimidade, confiança, aposta e resultado pobre daquele que não cumpra com o combinado, seja você o pedinte ou mesmo o próprio santo. A promessa se lança na caça das possibilidades, seus limites e joga o tempo todo com as expectativas dos envolvidos. Um bom bebedor ou faz promessa para ficar um tempo sem beber ou toma um belo porre com o santo. Existem aquelas pessoas que fazem promessas mais tímidas e existe quem pague promessa até mesmo fazendo carnaval.

Doce, samba, festa, tambor, cachaça, roupa, romaria e canção. Toada, prece, ladainha, brinquedo, vela, balaio, canjira e missão. Guaraná, santinho, ex-voto, retrato, cabelo, bloco, bandeira e procissão. Fogueira, afilhado, reza, penitência, jejum, romaria, esmola e balão. No repertório infinito dos modos de fazer amizade com os santos a promessa continua valendo quase como um trato de compadre que é mais do que irmão.

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