No Rio de Janeiro do início dos anos 1950, desfilar poderia significar, para muitas moças, a entrada no circuito social e, não raro, uma etapa conveniente na busca por um bom casamento. Ser manequim ainda não era entendido propriamente como uma profissão. Não havia escolas especializadas na formação de modelos, mas a passarela já fazia parte do repertório das mulheres elegantes, principalmente das senhoras casadas.
Sônia Pereira Carneiro, eleita a Miss Elegante Bangu de 1954, num flash de Gervásio Batista, Manchete, 30/10/1954
O Miss Elegante Bangu “contribuiu de forma consistente para a popularização dos desfiles de moda e, consequentemente, da profissão de manequim, em nosso país”. Esses concursos de moda e beleza, assim como o Miss Guanabara e o Miss Brasil, eram grandes acontecimentos sociais e midiáticos. Movimentavam imprensa, colunas sociais, clubes, torcidas e patrocinadores. Eram apresentações de elegância e espetáculos de massa. Os desfiles eram transmitidos pela Rádio Nacional, a emissora de maior alcance e prestígio naquele período.
Na capa da revista Manchete, Marta Rocha, de azul, a segunda mais bela do mundo, e Sônia Carneiro, eleita a Miss Elegante Bangu 1954, ektachrome de Orlando Machado, 06/11/1954
Depois de eleitas, as finalistas cumpriam uma agenda de desfiles nos principais clubes participantes, promovendo as coleções da Bangu. No decorrer dos anos 1950, os concursos que elegeram a Miss Elegante Bangu também ajudaram a divulgar o algodão brasileiro, em âmbito nacional e fora do país.
Os prêmios do Miss Elegante Bangu eram um guarda-roupa completo e viagens a Paris, para a primeira colocada, onde ela participaria das corridas de Long-Champs, e Buenos Aires, para a segunda colocada, sendo que a terceira receberia apenas um conjunto de trajes confeccionados com tecidos da Fábrica Bangu.
Nas viagens, as finalistas estavam presentes em acontecimentos de relevância internacional, representando a elegância brasileira como embaixadoras da moda Bangu. Em 1958, Ibrahim Sued acrescentou ao prêmio da ganhadora uma viagem aos Estados Unidos “para representar a moda brasileira, exibindo as novas coleções Bangu, no estrangeiro”, o cronista justificou seu investimento. Além de premiações, os desfiles, é claro, promoviam os tecidos e o algodão nacional.
Matéria da revista Manchete que anuncia o resultado do concurso Miss Elegante Bangu 1956. À esquerda, Maria Sônia, a vencedora, usa um traje de passeio, blusa de popeline e saia de fustão, com bordados coloridos. À direita, a Miss Elegante Bangu foi registrada com seu vestido de baile, de otoman branco, e casaco de cetim, bordado com flores.
É preciso lembrar que na década de 1950, ganhar um guarda-roupa era como receber um enxoval de elegância. Esse prêmio tinha grande valor, material e simbólico. Um conjunto de trajes dava às jovens misses a possibilidade de se apresentarem de maneira adequada em diversas situações sociais, num mundo que prescrevia roupas certas para cada horário e ocasião.
No guarda-roupa estavam incluídos vestidos, casacos, boleros e acessórios que cobriam as principais situações sociais previstas para uma jovem elegante: passeios, recepções, coquetéis, jantares e bailes. Vestidos leves ou esportivos para o dia, vestidos de passeio para compromissos urbanos, um ou dois modelos de tarde, vestidos de coquetel, adequados às primeiras horas da noite e pelo menos um longo de baile ou de gala, além de um traje de viagem – normalmente um tailleur – e uma roupa destinada à praia ou ao veraneio. Não importava o grau de formalidade, as mulheres estariam sempre vestidas chez Bangu.
No concurso de 1958, foi a primeira vez que uma moça do interior foi eleita Miss Elegante Bangu. “A jovem representante da moderna cidade de Araraquara chegou ao Rio sem publicidade, sem alarde, e, semelhante a uma Cinderela, quando desfilou, com graça e elegância, sem maquilagem, com muita simplicidade, ganhou os aplausos das duas mil e quinhentas pessoas que ali se encontravam e a consagraram como a mais elegante”. Nas páginas da Manchete, Maria Helena Quirino dos Santos, a vencedora, à direita. Fotos de Nicolau Drei, Jankiel, Carlos Kerr e Dílson Martins, 01/11/1958
Além dos desfiles, havia outras açõs que visavam promover os tecidos produzidos na Fábrica Bangu, como visitas às instalações industriais e, às vezes, alguma conferência sobre moda dada por um costureiro estrangeiro. Mas, os desfiles onde ocorriam a eleição anual da Miss Elegante Bangu tornaram-se famosos como a reunião mais elegante do ano.
Aconteciam no Golden Room do Copacabana Palace, para um elegantíssimo público composto das mais expressivas personalidades da vida social brasileira. “Ministros, prefeitos, diplomatas, chefes de missões estrangeiras, banqueiros, industriais, mulheres elegantes, playboys, jornalistas, artistas, intelectuais”, todos se reuniam no Copa, narra a reportagem de Ibrahim Sued.
Nesses eventos, eram lançadas as coleções Boutique e Haute Couture dos estampados Bangu para a próxima temporada. Ao longo dos anos, foram publicadas muitas reportagens, com fotos coloridas, sobre o concurso Miss Elegante Bangu. Com isso, revistas como Manchete e O Cruzeiro colocaram ao alcance de muitas mulheres, no Brasil inteiro, “as maravilhas em tecnicolor dos estampados de algodão nacional”.