CorreiodoRiodeJaneiro

Davi Aroeira Kacowicz

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Davi Aroeira Kacowicz

Fato pouco comentado é que o jornal mais popular do Rio de Janeiro, nos anos da Independência, foi também o mais radical. Redigido pelo comerciante português — mas assumido brasileiro — João Soares Lisboa, o Correio do Rio de Janeiro foi veículo para um ideário político amplo, e um tanto complexo: defendeu um modelo político social que combinava sentimentos republicanos, a legitimidade da soberania popular e a manutenção da monarquia como estrutura política, tudo no mesmo espaço.

O Correio foi o primeiro jornal do Rio de Janeiro a sair diariamente — ou perto disso. Suas quatro páginas — a numeração padrão da época, aliás — eram preenchidas por artigos escritos por João Soares Lisboa. Mas também havia espaço para transcrever correspondências de leitores — dentre eles, Frei Caneca e Hipólito da Costa, críticos notórios da dinastia bragantina — e reproduzir notícias e comentários, publicados por jornais portugueses, sobre os fatos do lado de lá do reino.

Figura 1 — Correio do Rio de Janeiro, edição n.2. 11 de abril de 1822. Fundação Biblioteca Nacional.

Página de jornal do Correio do Rio de Janeiro, datada de 11 de abril de 1822.Descrição da imagem: A imagem é uma página de jornal em preto e branco. No topo, há um número "N° 2" à esquerda e "80 réis" à direita. O título "CORREIO DO RIO DE JANEIRO" está centralizado na parte superior. Abaixo do título, há uma citação atribuída a "Filinto Elysio". A data "QUINTA FEIRA 11 DE ABRIL DE 1822" está em destaque abaixo da citação. O corpo do texto está alinhado à esquerda, com parágrafos bem definidos.

Nessa efervescência política em que vivia o Rio de Janeiro, em meados de 1822, o Correio se tornou um árduo defensor de uma causa “brasílica”. Em especial, a defesa de uma assembleia constituinte brasileira: “representemos ao nosso Regente [d. Pedro] que queremos, porque precisamos, já, já e já, Cortes, Cortes, Cortes”. Em maio, mal completados 30 dias de sua estreia, o Correio convocou a população fluminense a assinar um documento, ratificando a Representação do Povo do Rio de Janeiro — um requerimento entregue a d. Pedro, pedindo ao príncipe regente a convocação de uma assembleia constituinte brasileira. Mais de seis mil pessoas responderam ao chamado, e manifestaram seu apoio à proposta, que previa eleições diretas para a escolha dos deputados constituintes. D. Pedro e seus ministros não gostaram nada da proposta.

Em junho de 1822, d. Pedro autorizou a convocação de uma corte brasílica, mas sem as eleições diretas. O Correio do Rio de Janeiro então publicou, num tom um tanto atrevido, suas impressões sobre a decisão do regente: “Ah! Senhor, que fizestes? Uma Assembleia Constituinte em que se acha representada a soberania da nação é superior a vós, e no momento de sua instalação vós deixais de ser príncipe de fato, conservando só vossa dignidade de direito!!!”. E concluiu: “Quem autorizou V.A.R. [Vossa Alteza Real] para mandar o contrário daquilo que lhe Representaram os Povos desta Província?”.

Não foi o primeiro nem o último atrevimento de João Soares Lisboa. Em outubro de 1822, dias depois da aclamação do imperador, assim se referiu a Pedro I: “eis um puro democrata!!!”. Ao imperador, aquilo era um verdadeiro insulto — democracia, à época, era vinculada aos eventos promovidos pela Revolução Francesa. Além disso, numa verdadeira “fake news” da época, atribuiu a d. Pedro uma fala que, com toda certeza, o monarca nunca disse: “O Brasil precisa e deve ser livre para ser feliz, e, se os povos manifestam o geral desejo de serem republicanos, não encontrarão em mim oposição; antes farei quanto puder para que o consigam e eu me contento em ser seu concidadão”.

Por essas e outras, João Soares Lisboa foi alvo de processos movidos por membros da cCorte de d. Pedro. Foi indiciado pelo crime de “injúria atroz”, em agosto de 1822 — provavelmente, o primeiro acusado por abuso da liberdade de imprensa no Brasil. Em outubro, o Correio do Rio de Janeiro seria proibido. João Soares Lisboa passou os meses seguintes entre o exílio e a prisão.

Figura 2 — Parecer n. 7 sobre a prisão de João Soares Lisboa. 27 de maio de 1823. Acervo da Câmara dos Deputados [BR DFCD AC1823-E-275]

Documento antigo em português, datado de 1823.Descrição da imagem: A imagem é uma fotografia de um documento antigo, escrito à mão em português. Está datado de 28 de maio de 1823. O papel é branco com manchas de amarelo, sugerindo idade. Há várias assinaturas em destaque na parte inferior. O texto está alinhado à esquerda, com algumas linhas mais longas que se estendem até o final da página. No topo, há uma data escrita em destaque, seguida por uma série de números e símbolos.

Em 1823, o Correio voltou a circular sob uma condição inusitada. Aos leitores que desejassem uma assinatura do jornal, Soares Lisboa comunicou, no dia 28 de julho: “Este periódico há de continuar diário em números extraordinários [...]. Quem quiser subscrever dirija-se à Cadeia, onde atualmente reside o Redator”. Lisboa continuou a tocar seu jornal de dentro da prisão por uma concessão de Pedro I, uma vez que o alvo preferido do Correio era José Bonifácio, o ex-ministro que, no auge de seu prestígio, comandou uma devassa lançada sobre seus opositores — dentre eles, Soares Lisboa —, mas que naquele momento era escanteado por d. Pedro.

Em novembro de 1823, com o fechamento da Assembleia Constituinte, decretada por d. Pedro, vieram novas censuras e deportações. O Correio do Rio de Janeiro e João Soares Lisboa foram novamente alvo das investidas policiais. O jornal foi encerrado de vez, e seu redator sentenciado ao desterro na França — destino que não cumpriu, afinal: aportou secretamente em Pernambuco, em 1824, e ingressou nas fileiras que defenderam a Confederação do Equador. Ao que tudo indica, morreu em combate, naquele mesmo ano.

Figura 3 — Juramento de D. Pedro I, Imperador do Brasil, à Constituição de 1824. Arquivo Nacional. Fundo Secretaria de Estado do Brasil. [BR_RJANRIO_86_COD_0_0852_doc 42]

Documentação antiga com selo e texto em português.Descrição da imagem: A imagem é uma fotografia de um documento antigo com bordas decoradas por elementos florais e foliados em tons de rosa, laranja e verde. O fundo do documento é amarelado, sugerindo sua idade. No topo, há um selo redondo com texto em preto. O texto principal está escrito em português e ocupa a maior parte do documento, com letras bem visíveis e organizadas em parágrafos. As bordas laterais são adornadas com motivos florais e foliados, também em tons de rosa e laranja. No centro, há uma inscrição em destaque, mas não é possível ler completamente o conteúdo. O documento parece ser de importância histórica, possivelmente relacionado à constituição de um país.

Referências Bibliográficas

ENDERS, Armelle. A história do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Gryphus Editora, 2015.

DOLHNIKOFF, Miriam. José Bonifácio. O patriarca vencido. São Paulo: Companhia das Letras, 2012

LUSTOSA, Isabel. Insultos impressos: a guerra dos jornalistas na Independência, 1821-1823. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.

PEDREIRA, Jorge Miguel Viana; COSTA, Fernando Dores. D. João VI: um príncipe entre dois continentes. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.

SODRÉ, Nelson Werneck. História da imprensa no Brasil. Rio de Janeiro: Maud, 1999.

STARLING, Heloisa Maria Murgel; DE LIMA, Marcela Telles (Orgs.). Vozes do Brasil: a linguagem política na Independência (1820-1824). Brasília: Edições do Senado Federal, 2021.

Outras memórias

Memória 1 de 4: 1821 Panfleto “Thomaz, deves apresentar isto a El-Rei”