CorreioBraziliense

Davi Aroeira Kacowicz

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Davi Aroeira Kacowicz

O primeiro jornal brasileiro não foi o primeiro jornal no Brasil. Isso porque O Correio Braziliense, desde 1808 sob redação de Hippolyto Joseph da Costa Pereira Furtado de Mendonça (ou apenas Hipólito José da Costa), era impresso no estrangeiro — mais precisamente na capital inglesa, Londres. E não poderia ser de outro jeito. Afinal, o jornalista se propunha um crítico ferrenho àquilo que de mais arcaico a Corte portuguesa representava — mais precisamente, ministros, áulicos e práticas relacionadas ao absolutismo monárquico.

Figura 1 — Retrato de Hipólito José da Costa. Anônimo. s/d. Acervo Artístico do Ministério das Relações Exteriores - Palácio Itamaraty

Homem em sofá vermelho, livro aberto, fundo amarelo-marrom.Descrição da imagem: Esta é uma pintura retratando um homem sentado em um sofá vermelho. A figura está vestindo um casaco preto com detalhes de pele marrom nas bordas. Sua camisa é branca com um laço verde e azul. Ele segura um livro aberto com ambas as mãos. O fundo é uma mistura de tons de amarelo e marrom, sugerindo uma sala interior.

Da chegada da família real ao Rio de Janeiro, em 1808, ao ano em que o Brasil proclamou sua independência, 1822, o Correio Braziliense serviu como veículo de ideias liberais aos brasileiros — ou melhor, aos brasilienses, já que, antes da independência, aquele era o gentílico para os portugueses nascidos na América.

Hipólito José se incumbiu de uma missão que julgava educadora: forneceria repertório crítico e léxico “politiquês” para os leitores, de modo que eles tomassem parte (ou ao menos consciência) dos fatos e processos políticos à sua volta. O jornal era redigido muitas vezes num modelo fascicular, com artigos divididos em edições diferentes — sempre com cunho instrutivo. Havia também a tradução de clássicos da literatura.

A compilação dos números a cada semestre, em tomos individuais, se justificava enquanto um suporte prático para ser transportado de Londres para o Brasil, inclusive para escapar da censura. Afinal, sua circulação era proibida, no reino. Apesar disso, o periódico tinha seus leitores fiéis. O contrabando corria através dos navios ingleses que, desde a Abertura dos Portos, decretada por d. João VI em 1808, lotavam a costa brasileira. A relação entre o Correio Braziliense e a Inglaterra vem de berço, já que o financiador da empreitada era um membro da realeza inglesa: o duque de Sussex, o príncipe Augusto Frederico — o nono na linha sucessória do rei inglês, Jorge III. O duque era maçom, como Hipólito José, o que propiciou a aproximação entre ambos.

Figura 2 — Duque de Sussex, o grão-mestre Augusto Frederico. Anônimo. c.1812. Museum Freemasonry / Wikimedia Commons

Homem sentado à mesa com casaco verde e cravata branca, livro e martelo na mesa, cadeira dourada ao fundo.Descrição da imagem: Esta é uma pintura retratando um homem sentado à mesa. A figura está vestindo um casaco verde com botões dourados e uma cravata branca. Sobre o peito, vê-se um distintivo vermelho com medalhas pendentes. À frente dele, há uma mesa coberta por um pano vermelho, onde estão um livro aberto e um martelo de madeira. Ao fundo, há uma cadeira com detalhes dourados e um objeto redondo, possivelmente uma lâmpada, pendurado na parede.

Impossível não notar o contraste entre o tanto que Hipólito escreveu sobre o Brasil e quão pouco tempo o jornalista viveu de fato no país. Por outro lado, isso não o impediu de imprimir, no Correio Braziliense, seus projetos para o Brasil. Uma de suas maiores preocupações versava sobre a integração do território. Afinal, o norte e o sul da América lusófona mantinham mais vínculos com Portugal do que entre si — a comunicação entre o Maranhão e Lisboa, por exemplo, era mais prática e dinâmica do que entre o Rio de Janeiro e São Luís. Hipólito José escreveu longamente sobre a importância de se abrirem estradas e de se fortalecer um sistema de comunicação entre as províncias — em outras palavras, o estabelecimento de serviço de correios.

Ainda nesse projeto de integração, o Correio Braziliense foi porta-voz de uma ideia que, mais de um século depois, foi posta em prática no país: a transferência da capital, do litoral para o sertão, isto é, para o interior do Brasil — nesse caso, também por motivos de segurança, pois a sede estaria menos sujeita a ataques estrangeiros.

Figura 3 — Edição do Correio Braziliense. Portugal, 1817. Wikimedia Commons

Documentação histórica em preto e branco sobre política e censura em 1817.Descrição da imagem: A imagem é um documento histórico em preto e branco. No topo, está escrito "CORREIO BRAZILIENSE" em letras maiúsculas. Abaixo, há uma data: "DE JULHO, 1817". Em seguida, há um trecho de poema atribuído a Camões, com referências a campos e a chegada de mais mundo. O título "POLITICA" está em destaque, seguido por "REYNO UNIDO DE PORTUGAL BRIAZIL E ALGARVES". O texto principal menciona uma porcaria dos governadores de Portugal proibindo o Correio Braziliense. O documento contém detalhes sobre a ordem real de 17 de setembro de 1811 e a proibição de publicações sediciosas e incendiárias.

Nos 14 anos que circulou, o Correio Braziliense comentou revoltas internas, como a Revolução Pernambucana de 1817, e a sequência de acontecimentos que levaram à independência do Brasil, em setembro de 1822. Se a princípio, o Correio Braziliense fora defensor de um grande império luso-brasileiro, à medida que corriam os anos da década de 1820, seu pensamento se voltou a apoiar o projeto independentista. Ao chegar a notícia de que d. Pedro fora proclamado imperador do Brasil, Hipólito da Costa encerrou seu periódico, por não achar mais necessária a existência do jornal. Foi convidado por Pedro I a servir como cônsul honorário na Inglaterra — um convite estratégico e de muito prestígio. Porém, morreu antes de poder exercer o cargo, em setembro de 1823.

Referências Bibliográficas

ENDERS, Armelle. A história do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Gryphus Editora, 2015.

LUSTOSA, Isabel. O jornalista que imaginou o Brasil — Tempo, vida e pensamento de Hipólito da Costa (1774 - 1823). São Paulo: Unicamp, 2019.

________________. Insultos impressos: a guerra dos jornalistas na Independência, 1821-1823. São Paulo: Cia das Letras, 2000.

PEDREIRA, Jorge Miguel Viana; COSTA, Fernando Dores. D. João VI: um príncipe entre dois continentes. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.

SODRÉ, Nelson Werneck. História Da Imprensa No Brasil. Rio de Janeiro: Maud, 1999.

Outras memórias

Memória 1 de 4: 1821 Panfleto “Thomaz, deves apresentar isto a El-Rei”