Biblioteca Aline Midlej
Filha de nordestinos e criada em São Paulo desde os três anos de idade, Aline Midlej cresceu olhando o Rio de Janeiro à distância. A primeira memória que guarda da cidade é uma fotografia. Ela tinha seis anos e estava no Cristo Redentor com a avó materna. A clássica foto de turista no maior cartão-postal do Brasil inaugura uma relação que levaria décadas para se aprofundar, mas já estava, de alguma forma, anunciada para essa carioca de São Luís do Maranhão que hoje vê o mesmo Corcovado pela janela da sua casa.
A virada aconteceu quando Aline tinha 23 anos e trabalhava como produtora na Record. Viajou ao Rio para gravar uma reportagem sobre desigualdade social no Morro do Vidigal, vizinho ao Leblon que chegava até ela pelas novelas de Manoel Carlos durante a adolescência. Foi ali que ela percebeu estar diante de uma cidade singular, onde a beleza e a violência conviviam lado a lado, sem que uma anulasse a outra.
A partir dessa experiência, a desigualdade carioca tornou-se uma das pautas centrais de sua trajetória. Alguns anos depois, ao escrever o livro “De Marte à favela” sobre o combate à pobreza, em parceria com Edu Lyra, Aline dedicaria um capítulo ao Morro da Providência, aprofundando o vínculo com uma cidade que “insiste em ser feliz apesar de toda contradição”.
Trabalhar na TV Globo e na GloboNews foi o que trouxe Aline, de vez, para o Rio durante a pandemia de Covid-19, portanto, no vazio. Mas, com o tempo, a cidade foi se revelando para ela ao criar laços, fazer amigos e consolidar seu estilo jornalístico, seu lugar público e sua identidade profissional. A gravidez da filha Celeste, nascida no Rio, acrescentou novas camadas à experiência.
Caminhar até o Jardim Botânico, fazer compras a pé, sentar na grama da Lagoa com Celeste, beber uma água de côco, pedalar sem destino são gestos que constroem, no cotidiano, algo que ela reconhece como parte da sua formação mais íntima. No Rio, a bicicleta é transporte; em São Paulo, a bicicleta chegava no porta-malas do carro.
Mas a pauta ainda está incompleta. Ela quer conhecer Madureira, a Feira de São Cristóvão, a Tijuca, a Rocinha por dentro. Quer voltar ao Centro, à Rua da Constituição, às feiras que gritam e transbordam. Quer, sobretudo, viver a Pequena África e a região do Valongo. Entender a dimensão espiritual afro-brasileira da cidade, os terreiros que ali funcionaram, a história que o chão guarda.
E se o jornalismo foi a porta de entrada intelectual para o Rio, o samba foi a afetiva. Aline fala de sua relação com o gênero como quem descreve uma companheiro de todas as horas. Acorda com Paulinho da Viola na vitrola, abrindo também a playlist para referências queridas, como Dona Ivone Lara, Martinho da Vila e Clara Nunes — para ela, “uma entidade feminina no samba”, cuja importância transcende a discussão sobre autoria e composição.
Mas foi um encontro recente que sintetizou o que o samba representa em sua relação com a cidade. Ao entrevistar Moacyr Luz, no Renascença, Aline viveu algo inesperado: durante a gravação, o compositor prometeu um samba em sua homenagem e fez. A música fala da esperança de mundo melhor.
Para Aline, Luz encarna algo que ela identifica como essência carioca: a insistência em viver, em reunir pessoas, em encontrar beleza mesmo quando o cotidiano insiste em escondê-la. O encontro entre os dois foi, nas palavras dela, um reconhecimento mútuo — ele faz samba para o trabalhador carioca continuar acordando; ela faz jornalismo para que as pessoas continuem acreditando. Um samba para o infinito.
