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O Mercado Municipal da Praça XV foi, durante mais de meio século, um dos lugares por onde o Rio se abastecia — e por onde também passava boa parte da vida cotidiana da cidade.
Desde o período colonial, a região da atual Praça XV concentrava o comércio de pescados e produtos que chegavam à cidade pela Baía de Guanabara. Naquele período o mercado da Praia do Peixe funcionava como uma grande feira permanente.
No século XIX, esse comércio ganhou instalações específicas, entre elas o Mercado da Candelária, projetado por Grandjean de Montigny. Com o crescimento da cidade e as novas preocupações sanitárias, o velho mercado já não atendia às necessidades da capital.
Docas e Mercado da Praia do Peixe. c. 1880. Foto: Marc Ferrez. Acervo IMS
No contexto das reformas urbanas do início do século XX, a prefeitura abriu espaço para um novo centro de abastecimento em substituição ao antigo. Construído pela Companhia do Mercado Municipal, em concessão válida por 50 anos, o novo mercado foi inaugurado em 14 de dezembro de 1907, no largo de Moura, entre a Praça XV, a Praça Marechal Âncora e a estação das barcas. Fotografias de Marc Ferrez, Augusto Malta e Guilherme Santos registraram o edifício e sua relação com a Baía de Guanabara, as barcas e o movimento da Praça XV.
Esplanada do Castello, Mercado Municipal, etc.. c. 1930. Foto: S. H. HOLLAND
Sua estrutura metálica, pré-moldada, foi importada da Europa, bem como as torres e o relógio. Visto de cima, seus cerca de 200 boxes distribuídos por 20 ruas formavam um desenho singular. Ali vendiam, sobretudo, gêneros alimentícios, bebidas, secos e molhados.
Vista Aérea do Mercado Municipal. Sem data. Foto: Escola de Aeronáutica Militar. Acervo: Museu Aeroespacial
O mercado abastecia moradores, restaurantes, hospitais, quartéis e navios. Ao longo de sua existência, tornou-se parte da rotina de comerciantes e frequentadores, muitos deles ligados às comunidades de imigrantes portugueses, italianos e espanhóis. Além do comércio, se constituiu como um importante espaço de sociabilidade da cidade.
No entanto, quando o contrato de concessão de 50 anos terminou, em 1957, um outro projeto de cidade já se desenhava, e a área onde estava o mercado, era parte dessa nova urbes. Em 1960, o primeiro governador do novo Estado da Guanabara, Carlos Lacerda, colocou em marcha uma agenda de grandes obras, marcada pela expansão viária e pela prioridade dada à circulação sobre rodas.
Nesse contexto, estava a construção do elevado da Perimetral. O traçado da via atravessava a área ocupada pelo mercado. Enquanto as obras avançavam, os comerciantes precisaram buscar um novo local para seu trabalho. Em 9 de janeiro de 1962, cerca de uma centena deles se transferiu para Benfica, onde funcionaria o Centro de Abastecimento do Estado da Guanabara - CADEG.
Elevado da Perimetral. c. 1963. Acervo: Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro
No ano seguinte, começaram as demolições. Do grande edifício de ferro e vidro restou apenas uma das torres, preservada junto à Praça XV e posteriormente ocupada pelo Restaurante Albamar.
Foto: Américo Vermelho - Mercado Municipal