MuseuChácaradoCéu

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Rio Memórias

A antiga residência do empresário e mecenas Raymundo Ottoni de Castro Maya (1894–1968), abriga hoje a sede do Museu Chácara do Céu, que combina um acervo artístico de valor inestimável com a arquitetura moderna integrada à natureza, oferecendo uma das vistas mais espetaculares da Baía de Guanabara e do Centro da cidade. Situado no coração de Santa Teresa, o museu ocupa o ponto mais alto de uma propriedade de 25 mil metros quadrados. O bairro de Santa Teresa desenvolveu-se em torno do convento homônimo no século XVIII e, ao longo do século XIX e início do XX, tornou-se o endereço preferido da elite carioca que buscava ar puro e clima mais ameno, longe da agitação do porto.

Estrutura moderna com varanda suspensa em museu.Descrição da imagem: Esta é uma fotografia de um museu chamado "Museu Chácara do Céu". A imagem mostra uma estrutura moderna com uma varanda suspensa sobre um caminho de pedra pavimentada. À esquerda, há uma parede de concreto com plantas verdes crescendo nas fendas. No centro, a varanda tem um balaustrada dourada e grandes janelas que permitem uma visão clara do interior. À direita, há árvores altas e folhas verdes densas. O caminho de pedra leva para dentro do museu, onde mais plantas e árvores estão dispostas ao longo do percurso.

Fachada do Museu Chácara do Céu. Vidro e integração com a natureza. Imagem retirada de https://pt.foursquare.com/v/ch%C3%A1cara-do-c%C3%A9u/4b058725f964a520088222e3

Raymundo Ottoni de Castro Maya, nascido em Paris (1894) cresceu entre o Brasil e a França e herdou dos pais o interesse por livros, arte e objetos históricos. Empresário, colecionador e editor, construiu ao longo da vida uma coleção que reuniu pintura, desenho, gravura, mobiliário, livros, documentos e objetos de arte. Parte vinha da família; parte foi adquirida por ele próprio, sobretudo entre as décadas de 1920 e 1960.

Retrato de Raymundo Ottoni de Castro Maya. Pintura de Candido Portinari em 1943

Retrato de Raymundo Ottoni de Castro Maya. Pintura de Candido Portinari. 1943. Museus Castro Maya/Ibram


Em 1943, criou a Sociedade dos Cem Bibliófilos do Brasil, inspirada em experiências que conheceu na Europa. A ideia era reunir cem associados para produzir, a cada ano, uma edição especial de um clássico ou de uma obra relevante da literatura brasileira, ilustrada por artistas brasileiros. 

O processo de produção era artesanal ao extremo: os livros eram compostos à mão, impressos em prelos manuais, em papel especial importado da França, com gravuras em água-forte, xilogravura ou litografia, assim, cada edição levava cerca de um ano para ficar pronta. As tiragens variavam, em geral, entre 119 e 120 exemplares, dos quais cem eram destinados aos sócios e os demais a instituições culturais ou colaboradores. A última edição foi publicada em 1969, um ano após a morte de seu fundador, com a publicação de "O Compadre de Ogum", de Jorge Amado, ilustrado por Mário Cravo Júnior. Entre os autores publicados estiveram Machado de Assis, Castro Alves, Lima Barreto, José Lins do Rego e Jorge Amado; entre os artistas, Cândido Portinari, Di Cavalcanti, Santa Rosa e Lívio Abramo. Ao longo de quase três décadas, foram publicados 23 títulos. Os documentos da Sociedade hoje fazem parte do acervo do Museu Chácara do Céu.

Reportagem da revista Manchete de 19 de dezembro de 1953 sobre as edições da Sociedade dos Cem Bibliófilos.

Reportagem da revista Manchete de 19 de dezembro de 1953 sobre as edições da Sociedade dos Cem Bibliófilos.

Imagem 1 de 3: Reportagem da revista Manchete de 19 de dezembro de 1953 sobre as edições da Sociedade dos Cem Bibliófilos.

Castro Maya também esteve ligado à criação do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro e, em 1952, criou a Sociedade dos Amigos da Gravura, dedicada à difusão dessa linguagem artística. Seu interesse pelas artes gráficas se refletia na própria coleção, que reunia obras brasileiras e europeias e um expressivo conjunto de imagens sobre o Brasil. 

Na década de 1950, a antiga casa da Chácara do Céu foi demolida. O projeto modernista, do arquiteto Wladimir Alves de Souza, foi construído entre 1954 e 1958, com 858,42 m² distribuídos em três pavimentos, e planejado para dialogar com a paisagem ao redor por meio de grandes panos de vidro e volumes que combinam pilotis com revestimento em pedra. Em 1974, o conjunto arquitetônico — casa, jardins e acervo — foi tombado pelo IPHAN.

Casa e jardim integrados
Imagem 1 de 3: Casa e jardim integrados

Em 1962, Castro Maya criou a Fundação Raymundo Ottoni de Castro Maya, com a intenção de preservar suas coleções e promover atividades artísticas e culturais. Pouco antes de morrer, em 1968, transferiu para a Fundação a casa de Santa Teresa, com mobiliário, objetos e parte de suas lembranças pessoais, deixando também a orientação de que a Chácara do Céu se transformasse em museu.

A casa abriu ao público como museu em 1972. Dois anos depois, o conjunto formado pelos edifícios, acervos e jardins da Chácara do Céu e do Museu do Açude foi tombado pelo Iphan. Em 1983, a Fundação passou para a tutela federal. Hoje, os dois endereços formam os Museus Castro Maya, vinculados ao Instituto Brasileiro de Museus (Ibram).

Logo dos Museus Castro Maya

Museus Castro Maya/IBRAM

O acervo do museu soma cerca de 22 mil peças, reunidas por Castro Maya ao longo de décadas de colecionismo. Seu núcleo mais célebre é a Coleção Brasiliana, que reúne um expressivo conjunto de obras de Jean-Baptiste Debret, fonte fundamental para reconstituir o cotidiano do Brasil do período joanino e imperial. Ao lado dela, o museu guarda trabalhos de modernistas brasileiros como Portinari, Di Cavalcanti e Heitor dos Prazeres, além de obras europeias assinadas por Modigliani, Picasso e Miró.

Negra vendendo caju.

Negra vendendo caju. Aquarela. 1827. Jean-Baptiste Debret. Museus Castro Maya/IBRAM

O primeiro pavimento reúne parte da arte brasileira; o segundo é dedicado majoritariamente à arte europeia, incluindo dois ambientes ainda mobiliados como na época em que Castro Maya ali vivia — a sala de jantar e a biblioteca, com seus volumes raros; o terceiro pavimento, reservado à arte moderna brasileira e à arte popular, ocupa espaços que correspondem aos antigos aposentos privados do colecionador.

Pintura de indivíduo sentado em cadeira, fundo vermelho e azul, camiseta branca e calças verdes listradas, pés descobertos em quadrado vermelho, chão azul com padrão geométrico.Descrição da imagem: Esta é uma pintura de um indivíduo sentado em uma cadeira, com um fundo vermelho e azul. A figura está vestindo uma camiseta branca e calças verdes listradas. Os pés estão descobertos, com os pés apoiados em um objeto quadrado vermelho. O chão é azul com linhas pretas, formando um padrão geométrico.

O sapateiro de Brodowski. Pintura de Candido Portinari

O museu também ficou marcado na história policial brasileira pelo roubo ocorrido na sexta-feira de Carnaval de 2006. Em 24 de fevereiro daquele ano, quatro homens armados invadiram o museu e levaram quatro pinturas, de Pablo Picasso, Claude Monet, Henri Matisse e Salvador Dalí, aproveitando a movimentação do bloco das Carmelitas para fugir. As obras foram avaliadas, à época, em cerca de US$10 milhões. Nenhuma foi recuperada e os responsáveis pelo crime não foram identificados.

Informações Úteis

Endereço: Rua Murtinho Nobre, 93 – Santa Teresa, Rio de Janeiro – RJ (Acesso fácil pelo icônico Bondinho de Santa Teresa ou por táxi/aplicativo).

Site Oficial: https://www.gov.br/museus/pt-br/museus-ibram/museus-castro-maya

Horário de Funcionamento: Diariamente (exceto terças-feiras, domingos e feriados), das 10h às 16h30h.

Condições de Acesso: Gratuito

Acessibilidade: Devido à topografia de Santa Teresa e à estrutura original da casa de 1950, o museu possui algumas escadarias, mas conta com elevador para acesso aos andares superiores.

Dica: O ingresso do Museu Chácara do Céu dá direito a visitar o Museu do Açude (no Alto da Boa Vista) se realizado em um período de 7 dias.

Outras memórias

Memória 1 de 4: Museu da República