PraiaFormosa

Tempo de leitura 3 min

Rio Memórias

Hoje, quem passa pela região da Rodoviária Novo Rio dificilmente imagina que ali já houve uma praia. Antes dos aterros que redesenharam a cidade, as águas da Baía de Guanabara avançavam muito mais sobre o território. A Praia Formosa fazia parte da antiga enseada de São Cristóvão, junto às praias dos Lázaros, do Valongo e da Gamboa. Era um litoral recortado por enseadas, ilhas e morros, que aos poucos foi sendo transformado pela expansão da cidade.

Gravura de Praia Formosa, Rio, com casas e navio.Descrição da imagem: Esta é uma gravura mostrando uma vista geral de Praia Formosa, Rio. Do lado esquerdo, há uma série de casas dispostas em uma linha paralela à beira-mar. No centro, um navio pequeno navega sobre o rio. À direita, mais casas estão alinhadas ao longo do horizonte. No fundo, montanhas cobertas por vegetação formam o cenário. O texto na imagem lê: "Vista geral da praia formosa - Rio."

Desenho da Praia Formosa. Em [VISTAS, usos e costumes do Brasil (Pernambuco, Bahia e Rio de Janeiro) e da Ilha de Ténériffe]. Rio de Janeiro, RJ: [s.n.], [1836-1839]. Acervo Fundação Biblioteca Nacional

Mapas do século XIX ajudam a acompanhar essa transformação. O primeiro registro cartográfico conhecido da Praia Formosa aparece em um mapa de 1831. Naquele momento, ela ainda integrava o Saco de São Diogo, um braço de mar que avançava em direção ao Campo de Santana. Desde o século XVIII, porém, sucessivos aterros foram reduzindo a área da enseada. A chegada da família real portuguesa, em 1808, acelerou esse processo, entre outras razões para facilitar a circulação entre a região central e a Quinta da Boa Vista.

Detalhe do mapa onde aparecem a praia formosa e a ilha das moças

Detalhe da Planta do Rio de Janeiro de 1831 onde aparecem a Praia Formosa e o Saco do Alferes, além das ilhas das Moças e dos Cães.

Imagem 1 de 2: Detalhe da Planta do Rio de Janeiro de 1831 onde aparecem a Praia Formosa e o Saco do Alferes, além das ilhas das Moças e dos Cães.


Em 1879, o decreto nº 7.302 autorizou o aterro da área entre as praias dos Lázaros e Formosa e as ilhas dos Melões e das Moças. O projeto previa ainda o arrasamento dos morros existentes nas ilhas e de parte do Morro do Pinto, além da construção de um cais. As obras enfrentaram atrasos e modificações, mas o projeto acabou se articulando a uma transformação mais ampla daquela área da cidade. O Decreto nº 9.957, de 30 de maio de 1888, assinado durante o período do Império do Brasil pela Princesa Imperial Regente, aprovou a planta para as obras do aterro e outros melhoramentos na área compreendida entre as praias dos Lázaros e Formosa, na cidade do Rio de Janeiro.

Texto do decreto 9.957 de 30 de maio de 1888

Decreto n. 9.957 de 30 de maio de 1888 aprovando o plano para aterramento da região da Praia Formosa. Fonte: Site da Câmara do Deputados

As terras usadas nos aterros vieram, em parte, do desmonte de morros. O Morro do Senado, por exemplo, desapareceu nas grandes obras de remodelação urbana do início do século XX, e seu material foi utilizado para conquistar novos terrenos junto ao mar. Entre 1903 e 1910, a reforma do porto, associada às intervenções conduzidas pelo governo Rodrigues Alves e pela prefeitura de Pereira Passos, retificou a costa e criou uma extensa faixa de aterro. Em 20 de julho de 1910, foi inaugurado oficialmente o novo porto do Rio, acompanhado pela abertura da avenida do Cais — posteriormente denominada avenida Rodrigues Alves.

Mapa da orla do Rio de Janeiro na região da Praia Formosa em 1888.

Mapa da orla do Rio de Janeiro na região da Praia Formosa antes dos aterros em 1888.

Imagem 1 de 2: Mapa da orla do Rio de Janeiro na região da Praia Formosa antes dos aterros em 1888.

A Praia Formosa desaparecia, portanto, não por um único aterro, mas pela sobreposição de sucessivas obras que modificaram a Baía de Guanabara e a própria forma do Rio. Praias, enseadas e ilhas deram lugar a ruas, cais, canais, armazéns, ferrovias e instalações portuárias.

Pintura de praia com casas antigas, mar calmo e montanhas verdes.Descrição da imagem: Esta é uma pintura que retrata uma praia com casas antigas à beira-mar. Do lado esquerdo, há uma estrada que leva até as casas, que são brancas com telhados de telha. À direita, há um mar calmo com alguns barcos flutuando. No fundo, há montanhas verdes cobertas por vegetação. O céu é azul claro, indicando um dia ensolarado.

Praia Formosa. Pintura de Leonel Brayner

A história da Praia Formosa faz parte de uma transformação ainda maior. Levantamento citado em pesquisa recente aponta que, das 118 praias existentes no Rio no início do século XX, 56 desapareceram do mapa. No trecho central, entre a Glória e a região da atual Rodoviária, foram aterradas ou incorporadas à cidade praias como Santa Luzia, Russel, Glória, Ajuda, Dom Manoel, Peixe, Mineiros, Valongo, Gamboa e a própria Formosa.

A praia, porém, não desapareceu completamente da memória carioca. Seu nome continua presente no território: hoje, a Praia Formosa é também uma das estações do VLT, na região portuária.

Mapa do VLT carioca

Mapa de linhas e estações do VLT carioca com a estação Praia Formosa




Outras memórias

Memória 1 de 4: Praia da Saudade