O Instituto de Educação Carmela Dutra (IECD), que no passado já foi conhecida como Escola Normal Carmela Dutra (ENCD), foi criado em 22 de julho de 1946. Com a função precípua de formar professores em nível secundário, seu surgimento rompeu o paradigma de que as professoras da então capital do Brasil só deveriam ser formadas pelo afamado Instituto de Educação (IE - Instituição que fica no bairro da Tijuca, então considerada modelo para o país).
Nesse momento em que os educadores da Escola Nova defendiam a descentralização, a escola pública, gratuita, obrigatória e dotada dos mais formidáveis meios de ensino, foi criada na Avenida Marechal Rangel, n.º 31 (atual Avenida Ministro Edgard Romero), no bairro de Madureira, à época classificado como “Zona Suburbana Remota e de Difícil Acesso”. O nome da patrona da unidade, Dn. Carmela Teles Leite Dutra, naquele momento, primeira dama da República brasileira, foi escolhida pelo secretário de educação Fioravanti di Piero, que também era médico pessoal do casal presidencial Dutra. Apesar do privilégio, a escola permaneceu submetida administrativamente ao IE até o ano de 1953.
Imagem da fachada do prédio - ENCD (1974) - Acervo de Wandete Pujol. In: https://centrodememoriaiecd.blogspot.com/
A nova unidade representou um claro processo de popularização e democratização do ensino no Distrito Federal, posta a responsabilidade das profissionais ali formadas de atuar, principalmente, nos subúrbios e interiores da cidade. A necessidade de sua existência era tão evidente que as suas aulas iniciaram sem um espaço próprio. A escola precisou funcionar por quase duas décadas dividindo espaço com uma escola infantil.
Sua primeira turma contava apenas com 30 alunos, sendo dois jovens, que já formados, decidiram refazer o nível secundário para conquistar o diploma de professor. Na verdade, era uma época em que os formados no IE e na ENCD tornavam-se automaticamente servidores públicos do município, com todos os direitos de estabilidade e bons salários. Por conta disso, a competição para entrar nessas unidades era acirradíssima. Mesmo assim, nos anos posteriores, a ENCD aumentou em quase vinte vezes a quantidade de alunos, começando a pressionar a secretaria de educação por mais espaço físico e autonomia administrativa.
Inevitavelmente, a escola tornou-se referência na região. Seu orfeão, regido por ninguém menos do que Villa-Lobos (1952), mostrou o quando a sua existência era importante. A proximidade com a estação de trens também facilitava o acesso para as alunas que vinham do centro ou da zona sul carioca para estudar em Madureira, fazendo circular pela cidade as normalistas com seus uniformes característicos. Não por acaso, músicas como Normalista, de Benedito Lacerda e David Nasser (1949), que tratava do encontro com essas jovens pelas ruas da cidade, e Professora, gravado por Sylvio Caldas (1937 – regrado em 1949), que narrava[1] o encontro com professoras indo trabalhar de trem, embalaram a época.
Somente em 1967, a Escola Normal Carmela Dutra recebeu do governo do estado da Guanabara (1960 – 1975) uma sede própria, na mesma Avenida Ministro Edgard Romero, 491. Elevada a condição de Instituto de Educação desde 29 de dezembro de 2004 pelo Decreto estadual nº 36.820, o IECD continua formando professoras em Madureira, e permanece viva na memória da cidade como uma referência de escola pública de qualidade.
O blog Centro de Memória IECD criado pelo professor Fábio Souza Lima (https://centrodememoriaiecd.blogspot.com/) é um espaço dedicado à preservação, resgate e divulgação da história do Instituto de Educação Carmela Dutra. O portal reúne acervos digitais, registros fotográficos, documentos e relatos que retratam a trajetória da instituição e da educação pública no Rio de Janeiro.
Entre as curiosidades preservadas em sua história, destaca-se o fato de que a patrona da instituição, Santinha Dutra (D. Carmela Teles Leite Dutra) — professora, ex-primeira-dama e esposa do presidente Eurico Gaspar Dutra —, chegou a ser investigada e fichada pelo FBI nos Estados Unidos durante a Segunda Guerra Mundial, devido às suas convicções religiosas conservadoras e à suspeita infundada de simpatias com o Eixo.
Em uma linha do tempo produzida por estudantes da turma 3006 para o Trabalho de Conclusão de Concurso.
Autoria: Esther dos Santos, Rebeca Dos Santos Serafim, Samara Schmidt Luna, Silvia Messias dos Santos Teixeira e Sophia Soares Bezerra de Oliveira (turma 3006)
Atualmente, o impacto na formação dos futuros professores vai muito além do simples domínio de conteúdos curriculares; trata-se da construção contínua de uma identidade profissional reflexiva, empática e adaptável aos complexos desafios da sociedade contemporânea. Vivenciar ambientes formativos intensos e ter contato direto com a prática de sala de aula e os estágios permite aos estudantes desenvolverem resiliência, senso crítico e capacidade de mediação interpessoal. Essa experiência imersiva capacita os futuros educadores a reconhecerem a diversidade, a promoverem a inclusão e a compreenderem a docência como um ato humano de transformação — ou, por outro lado, ajuda-os a tomar decisões mais conscientes sobre seus próprios caminhos e vocações profissionais. Nas palavras de algumas estudantes:
Esther Dos Santos: "O Carmela Dutra teve um impacto muito grande na minha vida, principalmente na construção da minha identidade. Eu entrei no Curso de Formação de Professores sem querer ser professora e, naquele momento, não me identificava com a profissão. (...) O curso não mudou apenas o que eu penso sobre educação; ele mudou a forma como eu me vejo e contribuiu para a construção da profissional que quero ser."
Rebeca Dos Santos: "Quando entrei no IECD, minha expectativa era encontrar uma experiência parecida com aquilo que vemos em filmes e séries sobre o Ensino Médio. A realidade foi bem diferente. (...) E, apesar dos momentos bons e ruins, levo daqui aprendizados que contribuíram para a pessoa que estou me tornando e que vou carregar comigo para além do Carmela."
Samara Luna: "Minha trajetória no IECD foi marcada por muitos desafios, mas também por momentos que me fizeram perceber o quanto sou capaz de continuar, mesmo quando as coisas ficam difíceis. (...) Saio daqui sabendo que minha trajetória teve dificuldades, mas também teve muitos motivos para ter orgulho dela."
Silvia Messias: "Entrar no Curso de Formação de Docentes foi, para mim, o início de uma transformação que foi muito além da preparação para uma profissão. (...) Hoje, percebo que o Carmela não me ensinou apenas a ser uma futura professora. Ele contribuiu para me tornar uma pessoa mais consciente, mais aberta às diferenças e mais preparada para olhar para o outro com cuidado."
Sophia Soares: "Durante os dois anos de estágio, também descobri algo importante sobre mim: eu não quero seguir a profissão docente. (...) Por isso, mesmo sabendo que não quero ser professora, reconheço que o Carmela faz parte de quem estou me tornando. Aqui, além de aprender uma profissão, aprendi também a conhecer melhor a mim mesma e a entender quais caminhos fazem ou não sentido para mim."
Em 2026 o IECD comemorou seu Jubileu de 80 anos de existência com uma semana inteira de atividades. No dia 22/06 a abertura foi marcada por um concurso de bolos.
Ao longo desta semana, diferentes ex-estudantes partilharam a sua história e escritores locais compartilharam sobre suas produções literárias. E o encerramento contou com parte da escola de samba Portela.
As atividades relativas à formação de professores e outras atividades são publicadas na rede social Instagram.
Texto produzido por:
Fábio Souza Lima
Esther dos Santos
Rebeca Dos Santos Serafim
Samara Schmidt Luna
Silvia Messias dos Santos Teixeira
Sophia Soares Bezerra de Oliveira
Stella Alves Rocha da Silva