Revolta popular contra os jesuítas

Quando o Papa Urbano VIII proibiu a escravidão indígena na América, em 1640, a pena para quem insistisse no delito seria a excomunhão.  Uma vez que os laços entre Estado e Igreja eram bastante estreitos, o excomungado era, na prática, excluído da vida social – além de ter sua alma condenada eternamente. No Rio de Janeiro, a medida não foi bem recebida: em 20 de maio de 1640, a população invadiu a machadadas o Colégio Jesuíta, no Morro do Castelo, iniciando a revolta popular.

A animosidade da população teve origem no desequilíbrio social entre os colonos e os jesuítas. Além de posses, os religiosos tinham a prerrogativa da catequese e tutela dos “gentios do Novo Mundo”. Com o novo decreto, seriam os reguladores da força de trabalho indígena, então a principal mão de obra na capitania, em especial nos canaviais e engenhos. Uma vez que o tráfico de escravizados africanos era quase três vezes mais caro, a proibição do Papa inviabilizaria a produção para muitos.

Detalhe de um mapa com a baía da Vila Episcopal de São Sebastião do Rio de Janeiro, com o Colégio dos Jesuítas no alto do Morro do Castelo, à esquerda da imagem. François Froger – 1690 – Fundação Biblioteca Nacional

Os colonos não admitiram a interferência em seus assuntos econômicos e, ao tomarem conhecimento da nova norma, rebelaram-se contra os jesuítas. Os ânimos foram contidos com a intervenção do governador da capitania, Salvador Correia de Sá e Benevides, que chegou com uma tropa ao Morro do Castelo e impediu o linchamento.

Após uma série de tentativas de conciliações, o decreto papal foi considerado sem efeito. E, diferentemente do que ocorrera em capitanias onde também houve levantes populares, os jesuítas puderam permanecer no Rio de Janeiro.

Este texto foi elaborado pelo pesquisador Davi Aroeira Kacowicz do Projeto República (UFMG).